sábado, dezembro 31, 2005

Das nossas palavras

Estas são, ainda, as minhas palavras.
Ontem tentaram convencer-me que já não eram minhas.
Chegará o tempo em que terei de renunciar às minhas palavras.

Entretanto, espero ansiosamente pelas tuas palavras.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Das sínteses originais (4): aristocrata

É muito instrutivo observarmos a entrada de um criado de mesa na sala de jantar do hotel. Quando transpõe a porta da sala de jantar, opera-se uma mudança súbita na sua pessoa. A posição dos ombros altera-se; todas as inferioridades e pressas e cóleras desaparecem num instante. E ele desliza pelo tapete, numa solene atitude sacerdotal. Lembro-me do nosso maître d'hôtel assistente, um italiano temperamental, parando à porta da sala de jantar para se dirigir a um aprendiz que partira uma garrafa de vinho. Erguendo o punho por cima da cabeça, punha-se a vociferar (felizmente a porta era mais ou menos à prova de som).
"Tu me fais - E atreves-te a dizeres-te criado de mesa, tu, meu filho da mãe? Tu, criado de mesa! Não tens categoria nem para varrer o chão da casa de putas da tua mãe. Maquereau!"
Por fim, quando as palavras lhe faltaram, virou-se para a porta; e, enquanto a abria, soltou ainda um último insulto como o Cavaleiro do Oeste no Tom Jones.
A seguir, entrou na sala de jantar e singrou através dela com a travessa na mão, com uma elegância de cisne. Dez segundos mais tarde, inclinava-se cheio de reverência diante de um cliente. E não podíamos deixar de pensar ao vê-lo inclinar-se e sorrir, com o seu sorriso de criado de mesa experimentado, que o cliente deveria, sem dúvida, sentir-se envergonhado ao ser servido por tão requintado aristocrata.


Down and Out in Paris and London (1951) de George Orwell

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

Das sínteses originais (3): intimidade

Os moradores apercebem-se de numerosos barulhos da vizinhança, que vão dos clamores habituais das festas de aniversário aos sons das práticas de rotina qualificadas. Os nossos interlocutores mencionam, por exemplo, o som dos aparelhos de rádio, o choro nocturno dos bebés, as tosses, os sapatos que se tiram ao deitar, as crianças que correm nas escadas ou nos quartos, as teclas do piano e os risos ou conversas em voz mais alta. No quarto do casal, os ruídos que chegam de casa do vizinho podem ser por vezes chocantes: "Até os ouvimos urinar no bacio; é insuportável. Terrível"; ou inquietantes: "Ouço-os quando brigam na cama. Uma pessoa pode estar com vontade de ler, ou outra de dormir. É muito incómodo ouvir estes barulhos quando se está deitado, por isso mudei a cama de sítio"... "Gosto de ler na cama e tenho o ouvido apurado, por isso incomoda-me ouvi-los falar"; ou um tanto inibidor: "Às vezes ouvimo-los dizer coisas do seu foro íntimo, como acontece, por exemplo, quando o marido diz à mulher que ela está com os pés frios. E isso faz-nos sentir que temos de dizer em segredo tudo o que for um pouco mais íntimo."


Living in Towns (1953) de Leo Kuper e outros

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Considerações de um homem sobre um sítio.

A Joana escreveu este texto para eu vos mostrar aqui. Qualquer que seja o seu pedido eu o converterei para sempre numa ordem. Oh rainha das unhas roídas! Estás mais que pronta para conquistar a Pena e o Mundo

Foto by Néni

Estimados ouvintes!

Sinto uma necessidade de me contemplar perante vós, pois já não tenho à vontade com a minha intimidade deformada por tantas vírgulas. Como tal, vou ser imprudente para não ser delicado e censurarei qualquer devaneio poético, rimado ou até, ligeiramente, pintor que a minha mente possa produzir.
Pressinto que qualquer coisa quer explodir dentro de mim. Talvez o coração ou um pulmão. Sim! Terei de cuspir os meus pulmões para não sufocar nos meus pensamentos. Deixá-los-ei sobre a mesa e regá-los-ei para não murcharem. Dar-lhes-ei uma vida independente e uma planta vermelha para enfeitar o seu corpo líquido. Porém, não pensais que sou um militante de pieguices compradas ou algum hipócrita insensível. Digo-vos que até sou sensível, por vezes, ridiculamente sensível. Também fui canalha e fraco ao ponto de chorar sobre os peitos de muitas mulheres. Vede como sou fraco! Por favor, aqui ao lado vai decorrer uma peça de teatro. Ide vê-la! Caríssimos espectadores, irá haver ficção, romance, personagens ideais. Ficção! Enquanto que, aqui, só posso dar-vos a minha bruta realidade...como me cansa a realidade.
De todas as viagens que fiz tantos dias, todos os dias, sempre ficou um ligeiro drama a abafar-me. Como daquela vez em que afoguei os meus canhões nas ruas onde sempre vivi. Decidi procurar um pouco de mim naqueles locais, no seu esplendor efémero e tranquilo de fim de tarde. Acho que me angustiei ainda mais; apaguei todos os meus murais projectados nos prédios e deixei-me a desesperar nalgumas escadas, esquecido de mim no chão. Aqui, estão sempre a ocorrer emergências. Será que vivemos em guerra com o sítio ou somos exército verde em marcha pelo bem?
Já não suporto a negação, aguda e afiada, deste sítio. A negação em tudo, um não mais que não, um não que enche-me a cabeça e explode em cem imagens distorcidas e inexprimíveis, levadas na euforia da desilusão. Aqui, ao inspirar, sinto o mundo a morrer na minha garganta muda perfazendo uma grande tragédia silenciosa e ficando tudo embargado nestas minhas palavras.
Até à próxima, atenciosa plateia.





Joana Guerra

terça-feira, dezembro 27, 2005

Da Suburbia à Farinha Amparo.

Quero ser rápido, o cenário não pode demorar a ser montado, pronto lá está ele: estou numa rua da nossa suburbia, está um dia cheio de luz que contrasta com o cizento da igreja. Desço a rua e sou acediado verbalmente por um homem que, ao que parece, procurava alguém que quisesse ter uma experiência nova no que toca a relações sexuais. Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
Agora, dentro do comboio, um homem de moletas pede-me desculpa por me estar a incomodar, pedindo ao mesmo tempo uma moedinha para poder comer qualquer coisa. Chego ao meu destino para um almoço num centro comercial, num daqueles restaurantes de fast food com uma bela companhia e encontros inesperados. Saímos dalí para um sítio onde se possa beber um chá ou um café quente, alí discutimos a revolta dos pastéis de nata e as piadas recorrentes da Farinha Amparo (pobre farinha que com tão pouca dignidade é referenciada nos nossos dias), damos o nosso show, e a Farinha Amparo sempre a bombar na conversa. Bem dita Farinha Amparo que tantas conversas desbloqueaste, tantas cartas de condução e outros brindes tu nos ofereceste. Amassado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade assim no fogão como no forno a lenha. Atchim.

O Impertinente (4): abundância

Acontecia-lhe, frequentemente, não ter palavras para descrever sentimentos.

Hoje
, faltando-lhe sentimentos, abundam as palavras.

Stigma Episode III - The Empire Strikes Back

Dear Miss Lonelyhearts

I’m sorry I didn’t write you right after my surgery; as a matter of fact, five weeks have passed since I am a regular human being, and I must say I’ve been enjoying every bit.
The surgery went swell; I picked a nose-model, a Audrey Hepburn Style one, so they could copy it right into my face.
Dear Miss Lonelyhearts, you woudn’t believe the miracle those doctors performed on my face. When I woke up and looked at the mirror I cried like a baby and then fell in love with myself (so the problem I shall be writing you about is that I’m afraid I’ve become a lesbian).
I left the hospital and went straight to a bar, and I tell you this: no one could take their eyes off me. I feel now most proud and most beautiful, everything is like it ought to be and the world is beautiful.
I trully suggest that you stop recomending self-indulgence on people like I used to be, and start sending them straight to Oprah, or to the plastic surgery wing at their local hospital, if they can afford it; instead of making them waste their lifes trying to convince themselves looks don’t matter at all.
Beauty is much more effective on self-esteem.

Sincerely yours,
Desperate no more.

Stigma Episode II - A New Hope

Dear Miss Lonelyhearts:

I’ve just returned from the turning point of my life.
A few weeks ago I rose from my cryings and moanings and I decided to do something about it, so I wrote to the nearest thing to God we humans have: Oprah.
Today I’ve been to the show, which was broadcasted all over the world, and after all that melodramatic teardroping I was offered a plastic surgery by a soft-hearted doctor who was probably watching the show from his little Villa in the countryside.
The surgery is to take place in a few days time, for the doctor thinks the world’s no place for an ugly thing like I am now. I’m most excited, and shall be writing you once it’s all been done.

Sincerely yours,
Desperate, still, but not for long.

domingo, dezembro 25, 2005

Das sínteses originais (2): estigma

"Dear Miss Lonelyhearts,

I am sixteen years old now and I dont know what to do and would appreciate it if you could tell me what to do. When I was a little girl it was not so bad because I got used to the kids on the block makeing fun of me, but now I would like to have boy friends like the other girls and go out on Saturday nites, but no boy will take me because I was born without a nose - although I am a good dancer and have a nice shape and my father buys me pretty clothes.
I sit and look at myself all day and cry. I have a big hole in the middle of my face that scares people even myself so I cant blame the boys for not wanting to take me out. My mother loves me, but she crys terrible when she looks at me.
What did I do to deserve such a terrible bad fate? Even if I did some bad things I didn't do any before I was a year old and I was born this way. I asked Papa and he says he doesn't know, but that maybe I did something in the other world before I was born or that maybe I was being punished for his sins. I dont believe that because he is a very nice man. Ought I commit suicide?

Sincerely yours,

Desperate"


Miss Lonelyhearts
(1962) de Nathanael West

citação encontrada em Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity de Erving Goffman

terça-feira, dezembro 20, 2005

Para quem gosta de Jazz e Poesia.


Compilação de poemas com o ritmo sincopado do jazz: do Almada ao Vinicius de Morais.
"Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse jazz!"
E. M. de Melo e Castro.

domingo, dezembro 18, 2005

Ópio.

Estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café sujo. Ele observa tudo o que se passa à sua volta, ao seu lado está um velho de barbas que esmaga um cigarro, já apagado, contra o tampo da mesa mesmo ao lado do cinzeiro cheio de outras tantas beatas, é um velho sem importância que espera que lhe caia o último dente que lhe resta nas gengivas. Na mesa em frente do Homem do Chapéu de Côco estava uma prostituta pouco elegante a fumar um cigarro pela sua boquilha de estimação. No lado oposto ao do velho estava um casal aos beijos em cima da mesa. No piano, o pianista tinha uma falta de ritmo angustiante e o piano tinha uma tecla que não tocava. O quadro estava pintado, a cena convidava a uma loucura, o suicídio quem sabe.
O Homem do Chapéu de Côco pega então no pó que lhe tinham vendido no beco antes de chegar ao café e expira-o da forma que lhe tinham aconselhado. Os seus olhos começaram a arder e antes que eles fechassem ele teve a visão mais romântica de toda a sua vida, passou uma vida inteira para ter aquela visão e foi mesmo nesse momento entre o ardor e o fechar dos olhos que ele se conseguiu declarar, mesmo antes de ser nada. Agora, sem sequer ver a luz ao fundo do túnel, ele não se sentia, não havia nada para recordar, nem aquele café que foi a sua última morada. Afinal, estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café imundo até que alguém, distraído, lhe pedisse bruscamente para se levantar.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

"Lost in Translation" (parte 2): o regresso a casa


Broken Flowers de Jim Jarmusch

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Pequeno improviso sobre o estilo; (ou, Eu, armada em blogger com aptidões socio-antropológicas)

Na sequência de um tópico de um fórum por que passei recentemente, eis a minha resposta à questão colocada, que é a respeitante à importância que se deve ou não dar ao «estilo»:
O estilo é uma construção estética que pressupõe sempre uma bilateralidade. Quem compõe um estilo fá-lo sempre em serviço da dimensão exterior, pública da existência.
Age-se desta ou daquela forma, dá-se preferência a um determinado tom de voz e a certas expressões faciais e corporais tendo em mente uma imagem de 'nós-vistos-de-fora' que queremos ter.
Dessa forma, não acho de todo que a preocupação com o estilo seja uma frivolidade linear e que se esgote na categoria da 'máscara social', antes é uma questão muito mais complexa: diz muito de uma pessoa a imagem que ela escolhe para si.
Por outro lado, como tudo o que implica bilateralidade, a preocupação com o estilo pode tornar-se numa dependência do estilo. E uma prisão permanente ao 'vermo-nos contantemente de fora' resulta sempre num isolamento, diria até de um 'emparedamento', da interioridade, que já não acha lugar de expressão numa aparência que se tornou demasiado artifical e artificiosa.
Como sempre, o segredo está no equilíbio.

domingo, dezembro 04, 2005

O mundo por umas mãos.


Ele saiu à rua para procurar umas mãos. Passava pouco da hora do jantar e ele só queria encontrar as mãos que tinha perdido para poder pintar o seu quadro. Afinal, ele era pintor e dava o mundo por umas mãos.

domingo, novembro 27, 2005

Sintoma (5): o pequeno harmónio


Punch Drunk Love de Paul Thomas Anderson

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memórias poéticas (5)

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

quarta-feira, novembro 23, 2005

Das despedidas

Tudo tem um timing poético: até as despedidas.
Os mais belos poemas são aqueles que nunca quisemos escrever:
não por falta de talento (quem não se julga competente para amar?);
talvez por falta de coragem (quem ousa enfrentar a tragicidade amorosa?).
A grandeza das despedidas é o maior dos poemas.
Por isso, amanhã quero ser o melhor dos poetas.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Sintoma (4): da (im)possibilidade comunicativa


3 Iron de Kim Ki-Duk

quarta-feira, novembro 16, 2005

Personagens inventadas.

Mr. Alzheimer sai à rua todas as manhãs para ir trabalhar, apanha o comboio até a estação sem nome. Até chegar ao trabalho ainda anda um bom bocado. Ele faz questão de passar pelos mesmos sítios todos os dias. À saída da estação de comboio está o jovem, desiludido, encostado a uma esquina à espera de alguém que não quer aparecer. Na praça mais a diante, em cima de um banco, está o revolucionário a espalhar os bilhetes de páginas em branco, ali mesmo ao lado está o circo do palhaço e da trapezista. O cabaret que funcionou durante a noite está ainda a por arrumar, já só falta sair o pianista que adormeceu em cima do piano depois das três garrafas de absinto, o programa da noite seguinte estava a ser mudado. Por último, ele passa pelo salão de baile abandonado de Madame Gabrielle, que agora é habitado por sem-abrigos.
Mr. Alzheimer trabalha na loja de brinquedos da cidade, é ele que faz os cavalos de madeira para os miudos brincarem. Ele lembra-se de cada expressão, de cada imagem que todos os dias o invadem. Ele fez o palhaço e trapezista em madeira e uma senhora com um ar mais ou menos francês que podia muito bem ser Madame Gabrielle.
No fim do dia, todos estão a descansar para iniciar a noite e é nesse momento que Mr. Alzheimer começa a divagar pelo mundo dos seus brinquedos e das personagens inventadas.

domingo, novembro 13, 2005

Fragmentus Suburbia (7): o bilhete

A vida sobre carris.
A morte em carrinhas funerárias.

A primeira é levada.
A segunda, carregada.
«E ele ainda pergunta se tenho bilhete

Fragmentus Suburbia (6): oportunidade

Ficar a ver comboios passar.
Uma vez lá dentro, ficar a ver passar a oportunidade de o ter perdido.
Ficar a ver-se passar.
Ficar a vê-la passar.
Perder a oportunidade perdida.
Perder-se.
Perdê-la (?)

segunda-feira, novembro 07, 2005

Lisbon revisited.


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhe a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

O Impertinente (3): o «caso» Nuno Ribeiro

Desde que tinha Ontologia ninguém lhe punha a vista em cima.

sábado, novembro 05, 2005

Das sínteses originais: a morte do «artista»

"Sabendo que os espectadores são capazes de ficar com uma má impressão a seu respeito, o indivíduo poderá sentir vergonha de um qualquer acto bem intencionado e honesto só pelo facto de o contexto do seu desempenho dar lugar a falsas impressões, que são más. Ao sentir essa vergonha injustificada, sentirá talvez que os seus sentimentos estão a ser observados; sentindo-se assim sob observação, poderá sentir que a sua aparência confirma as falsas conclusões formadas a seu respeito. Poderá então agravar a precaridade da sua posição empenhando-se em manobras defensivas, como as que empregaria caso fosse realmente culpado. Assim é possível que cada um de nós se transforme para si próprio, por momentos, na pior pessoa que podemos imaginar que os outros sejam capazes de imaginar que somos."
Erving Goffman
in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

sexta-feira, novembro 04, 2005

Fechado para obras: tempo e percepção

Ontem foi como se tivesse sido.
Amanhã será como se pudesse haver (?)

te espero.

terça-feira, novembro 01, 2005

Nostálgicos sem cura.

A noite nem prometia muito, afinal era só um concerto de um gajo que eu já tinha visto, mas ele continuava com tudo o que eu tinha gostado na primeira vez que o vi. Foi uma noite inteira de recordações, de memórias sem retorno. Mergulhamos pela noite, começando pelo subtil Antony e acabando em completa Al-gazarra por aquele Irish Pub de outras tantas recordações. Tudo demasiado depressa, como devia de ser sempre para não doer. A noite, a noite foi dominada pelos nostálgicos sem cura.

domingo, outubro 30, 2005

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos.


"O que eu preciso é de uma musa.
Mas essas já não existem.
Ouvi dizer que estavam em vias de extinção."
[Tomás]

Da série "Conhece-te a ti mesmo" (inspirado numa ideia original de João Pedro George)

Para Erving Goffman existem dois tipos de actores: aqueles que acreditam no seu desempenho ("sinceros") e aqueles que não acreditam na própria representação ("cínicos").

E você?
Já se (a)creditou?

Sociólogos

"Uma sensibilidade artística demasiado grande é um fenómeno doentio que não se pode generalizar sem perigo para a sociedade."
"A actividade estética só é sã se for moderada."
(Émile Durkheim)

Dos debates intermináveis (2): expressão e acção

"O aluno atento que quer estar atento, com os olhos cravados no professor, com os ouvidos bem alerta, cansa-se tanto a desempenhar o papel de aluno atento que acaba por não ouvir coisa nenhuma." (Jean-Paul Satre)

quarta-feira, outubro 26, 2005

O homúnculo.

O puto andava naquela rua como um cão.
Era nojento como se via tão bem que aquele beco mesquinho atrás da estação era o único sítio onde ele era capaz de ser rei; e como devia saber quantos passos exactamente o levavam de um passeio ao outro, de uma ponta à outra, caminhava sempre com passos elásticos de grande estrela ensaiada.
Andava naquela rua como um cão, o puto; tinha olhos de cão. E sorriso de escárnio, mas sem inteligência suficiente para escarnecer de todo o que quer que fosse.
Era um animal. Faltavam-lhe dois dentes, ou então só não se viam por estarem pretos de estragados, mas abria a boca toda no esgar mais ordinário que podia quando passava uma mulher, não porque a desejasse particularmente mas porque se sentia com muito estilo assim. E quando era um homem que passava ainda era pior: fazia cara de mau e vagueava como uma sombra, os punhos cerrados dentro dos bolsos das calças, e os olhos cheios da dureza que há nos dos cães que se aproximam por trás para cheirar em silêncio e podem perseguir, furtivos e imperceptíveis, durante imenso tempo antes que a insignificância deixe de lhes calar a presença.
Um animal, sem tirar nem pôr.
As pessoas não tinham medo do puto por ele ser mau, tinham medo por ele ser estúpido.
Aqueles que nunca o tinham visto naturalmente achavam uma crueldade execrável da parte de quem semelhantes atrocidades dissesse do que, afinal de contas, não deixava de ser uma pessoa; a quem com certeza só faltavam oportunidades e atenção e paciência e afecto, mas um ser humano.
Depois passava-se por ele e toda a gente sabia que nunca ninguém ia amar o puto; e ficava-se bastante satisfeito com isso, enquanto tudo, absolutamente tudo quanto se podia querer era passar-lhe uma rasteira e vê-lo no chão.

segunda-feira, outubro 24, 2005

O Impertinente (2)

Queria sentir-se suficientemente fora do mundo para poder contemplá-lo à distância, mas sempre suficientemente preso a ele para saber quando voltar.

domingo, outubro 23, 2005

Memórias poéticas (4)


The Kiss, Edvard Munch

sexta-feira, outubro 21, 2005

Democracia das Emoções

"To my wife: Sandy, Alexandra, Alex,
A. R. or whatever you are calling
yourself these days"

Jonathan H. Turner in The Structure of Sociological Theory

segunda-feira, outubro 17, 2005

Fotografias à chuva.

Começou a chover no palco da revolução, todos começamos a correr para nos abrigarmos, havia um pequeno quiosque que nos serviu de abrigo, mais à frente uma mulher vestida de vermelho continuava sentada na esplanada a ler um livro e o copo de leite vazio à sua frente. Os velhotes que estavam a jogar à bisca lambida também se foram abrigar no café mais próximo. Foi tudo tão cinematográfico, tão teatral, tão urgente. Numa manhã de Segunda-Feira, uma geração inteira ficou a lembrar a revolução encostada a um quiosque, enquanto os homens e as mulheres corriam, molhados, à chuva. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo sítio, sem qualquer hora marcada.

domingo, outubro 16, 2005

Sintoma (3): o lugar da espera

O lugar da espera nas narrativas amorosas é hoje compulsivamente desocupado.
Os amantes fogem das cadeiras, caminhando em círculos individuais.
Por vezes, param e olham uns para os outros.
Frequentemente, aceleram o ritmo e esticam as órbitas para pontos mais distantes.
Cada um quer chegar mais longe que o outro.
E é por isso que agora se conhecem mais estrelas do que antigamente.
Houve um tempo em que todos queriam o lugar da espera.
Hoje, sobrando cadeiras, sobram histórias para contar.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Auto-retrato (3)

Ele tinha um problema com a rotina: não achava que a rotina fosse, per si, um problema pertinente.

Fragmentus Suburbia (5): sustentáculo

Quem perde o ruído de fundo, perde toda a sustentabilidade emocional.
Ironicamente, a poluição sonora gera um pano de fundo indispensável para a continuação das actividade rotineiras.
A sua ausência, ainda que temporária, não deixa de ser um duplo obstáculo: à mobilidade dos transeuntes e às suas possibilidades de mobilização identitária.
Escusado será dizer que, após uma breve pausa, tudo volta à normalidade do isolamento da experiência.
Dentro de carruagens, como é óbvio.

terça-feira, outubro 11, 2005

Sin City.


"Walk down the right back alley in Sin City and you can find anything."

segunda-feira, outubro 10, 2005

"For how can a man deal with his pain without a plan!"


Fossanova, Belle Chase Hotel

domingo, outubro 09, 2005

"Só uma pessoa pode vaguear. Duas juntas têm sempre um destino."


Vertigo de Alfred Hitchcock

sábado, outubro 08, 2005

Fragmentus Suburbia (4): adiamento

Não é que gostasse particularmente de ver passar comboios.
Talvez tivesse interiorizado, com excessivo voluntarismo, os rigores da espera.
Por isso, encontrava-o sempre à espera do próximo.

À espera daquele que não virá.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Na direcção certa


Era já fim do dia quando apanhei o comboio em Lisboa com direcção a Sintra, vinha acompanhado por uma amiga que saiu a meio da viagem. Tinha acabado as aulas e apetecia-me passear por Sintra, farto da confusão e da gritaria muda que ecoava na minha cabeça. Quando cheguei a Sintra encontrei um conhecido com uma viola na mão, não se lembrava do meu nome, provavelmente tinha tomado a sua última dose pouco tempo antes de me encontrar. Disse-me que ia ensaiar uma guitarradas para casa de um amigo em Lisboa. O seu olhar era disperso, notei que ele tentava a todo o custo não deixar passar a imagem de que estava pedrado. Disse-me que eu ia "numa boa direcção e que o crepúsculo estava muito bonito". Despedimo-nos com um valente aperto de mão. Ele podia estar todo janado, as drogas podiam ter-lhe subido à cabeça, mas a noção de beleza e a sensibilidade estavam todas lá, não faltava nada nas palavras dele, ou não fosse ele um artista, um músico muito talentoso com queda para o teatro. Ele tinha razão, o crepúsculo estava mesmo bonito.
Quanto a mim, fui em direcção ao crepúsculo e fiquei-me pela tilia a pensar em tudo e em nada, velha tilia de principes e pobres, ou até mesmo dos meninos que querem ser principezinhos. Eu era daqueles que queriam ser principezinhos. Fiquei ali até a noite chegar com o cheiro a comida dos pequenos restaurantes da vila.

terça-feira, outubro 04, 2005

Da Categoria: “amanhã é feriado!”

Querer saber tudo o que se passa, com o maior rigor e alcance possíveis.
Querer saber o estado do tempo, do trânsito, e da economia.
Não ter como saber.

Querer esquecer tudo o que passou, com a maior eficácia e celeridade possíveis.
Querer esquecer o aquecimento global, a sexualidade metalizada, e a arbitrariedade dos mercados.
Não ter como esquecer.

Querer adivinhar tudo o que está por vir, com o menor compromisso e responsabilidade possíveis.
Querer adivinhar o futuro da natureza, o porvir da mobilidade, e as possibilidades da competitividade nacional.
Não ter como adivinhar.

Sabendo que as conservas têm data de validade, não esquecer de verificar as mesmas, sob pena de ter que adivinhar as suas prováveis implicações intestinais.

Da Categoria: “máximas pseudo-filosóficas”

“Você não está num congestionamento; você é o congestionamento.”

domingo, outubro 02, 2005

Filmology III - on Rainer Fassbinder's The Bitter Tears of Petra von Kant (1972)

Sidonie: It's Karins fault.
Valerie von Kant: Karin? What's it to do with Karin?
Sidonie: Everyone knows Petra's mad about her.
Petra von Kant: Mad? I'm not mad, Sidonie. I love her! Love her as I've never loved anything in my life... that girl's little finger is worth more than the lot of you.
Valerie von Kant
: My daughter loves a girl. How strange. A girl! My daughter...

sábado, outubro 01, 2005

Memórias poéticas (3)


Danae de Gustav Klimt

Auto-retrato (2)

Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento

Boris Vian

terça-feira, setembro 27, 2005

Anjos ao pôr do sol.


Foi há um ano que nos passeamos todos juntos pela Vila velha prevenidos com asas. Ensaios no largo da pequena igreja com vista para o mar, banhados pela luz dourada do Sol Poente. Ali estou eu e o anjo pÓ.
Os outros eram ainda mais bonitos.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Sem saber porquê!

Sem saber porquê, aquele rapaz aceitou o raio do convite para ir dar uma volta. Ele nem sequer queria saber das manifestações que estavam a passar na rua, nem das reconstruções pós-modernas do Maio de 68. Em boa verdade, ele estava-se a cagar para tudo menos para o raio do convite para passear. Não queria saber de bandas mal paridas sem tempo para sofrer, nem de telemóveis, nem de internets, porque ele tinha todo o tempo para sofrer. Porque ele não queria que lhe dessem cabo do juizo, foi dar um passeio pelas ruas dos seus sonhos para saber que afinal tudo estava bem. Por cá, tudo estava por fazer.

domingo, setembro 25, 2005

Sintoma (2): a Indústria Identitária

A indústria emergente de decoração de interiores possui inúmeras congruências com a construção reflexiva do self.
Nesse sentido, a consciência dos actores assume particular preponderância: eles sabem bem ao que vão.
Todos revelam competência ao inscrever objectos e colecções nas suas possibilidades biográficas.
É certo que tudo isto é feito à revelia dos grandes capitalistas.
Chegará (?) o tempo em que estes, imbuídos do espírito que lhes é característico, tomarão as rédeas da indústria identitária.
Por enquanto, tudo se processa em moldes bem mais discretos:

«É para oferecer?»

«Não. É para mim.»

sábado, setembro 24, 2005

Humanos (e) Canídeos


Amores Perros de Alejandro González Iñárritu

terça-feira, setembro 20, 2005

As Ruínas de Babel

"Nos arrabaldes da cidade, entre o parque de perverções Mengel e uma fábrica de chapéus desactivada, um grupo de telefilólogos amadores entrega-se à escuta dos postes telefónicos:
-Hoje atrasei-me, os melhores postes já devem estar ocupados.
Tantas conversas perdidas:"Os dias tão devagar, os anos tão depressa\ Linchtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser\ Sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?\ Sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?\ Acredito na poesia dos hotéis abandonados.\ Estou a ouvi-la muito mal.\ E se o pintasse?".
Dia e noite, os fios conduzem um fluxo de palavras:
-Se ouvissemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância.
O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
-Só conseguimos captar fragmentos e estes por serem enigmáticos ganham, aos nossos ouvidos, a nobreza e a imponência de ruínas de uma cidade perdida."

José Carlos Fernandes

sábado, setembro 17, 2005

O Impertinente

Estava convencido que só havia uma coisa a fazer perante a mediocridade: ser cínico.
Primeiro tentou divulgar tamanha descoberta: podia ser que os outros reparassem no brilhantismo da coisa.
No entanto, viria a perceber que não existem bons intérpretes: nem para a mediocridade nem para o cinismo.
Depois veio o desencanto: se não existem bons intérpretes talvez não existam boas ideias.
Começou a dizer uns disparates pós-modernos sobre o fim da história e a fragmentação do self.
O resto já se adivinha: não existindo boas ideias talvez não existissem boas cabeças.

Daí à barbearia foi num instante: embora o barbeiro se tenha recusado a cortar-lhe a cabeça, ele fê-lo prometer que não lhe passaria um atestado de mediocridade.

quinta-feira, setembro 15, 2005

A vida e o ecrã: post scriptum

Porquê eleger uma telenovela portuguesa de horário nobre como objecto de interesse?
Não irei discorrer acerca da grande temática ("as telenovelas").
Não vejo interesse em comentar as idiossincrasias da narrativa ou a qualidade do enredo.
Prefiro antes realçar algo que é profundamente característico desta telenovela: a construção da tensão.
Os textos anteriormente publicados (da série "O TeleVisionário") referem-se à tentativa de captar parte dessa tensão que é, simultaneamente, constante e constitutiva da própria novela.
Trata-se, portanto, de um exercício livre com tudo o que daí advém.
Num primeiro momento, havia que fazer a recolha de algumas frases e expressões mais directamente implicadas na construção da tensão.
Num segundo momento, procedeu-se à montagem de pequenos textos a partir dessas mesmas frases e expressões.
Procurei omitir qualquer referência a personagens: ela e ele são personagens-tipo no desenvolvimento da tensão.
Se cumpri o objectivo de retraduzir a tensão em moldes mais abstractos (porque necessariamente abstraídos do contexto narrativo em questão), só vós o podereis afirmar.
Este exercício parte de um pressuposto relativamente discutível: a tensão é inteligível mesmo fora do seu contexto de origem; possui significados que, embora nascendo desse contexto, ganham autonomia e inteligibilidade noutros campos de entendimento.
A vida e o ecrã: será possível fazer poesia de um conjunto aparentemente desarticulado de frases e expressões?
Num último momento, como bem adivinham, já não se tratava somente de captar a tensão.
Em que medida o desenvolvimento da tensão é correlativo da dicotomia vida/ecrã?
Como é que a dicotomia vida/ecrã é conservada e ao mesmo tempo transgredida, por via da tensão?
Longe de corresponder a um intuito pseudo-científico, gostaria que este exercício fosse interpretado como um acto poético.
Um acto poético revelador das enormes possibilidades associadas à reflexão antropológica.
Haja alguém, quiça um Filósofo, capaz de empreender uma hermenêutica condizente com estas premissas.

quarta-feira, setembro 14, 2005

O TeleVisionário (3)

Quando eu tiver uma resposta digo-lhe
Ele qualquer dia vai encostar-te à parede
Devias ter-me perguntado
Eu é que não quero e ponto final
Disse que já tinha coisas combinadas
A vida não podem ser só brinquedos
Para mim é suficiente que ele queira
Não insistas

Onde é que tu vais?

Não me podes dizer assim em cima da hora
O meu problema é exactamente aquele que acabei de te dizer
Quanto mais chatices evitares melhor para ti
Vou reagir da forma como entendo que devo reagir

Nem parece uma Mulher: não sabe dar a volta a um Homem.

O TeleVisionário (2)

Eu sei muito bem como são essas coisas
Nos tempos que correm todo o cuidado é pouco
Se fosse a ti levava armadura
Tu acalmas as coisas em casa e eu trato do resto
Ele vai abusar de ti até dizer chega
Não vou ficar parada a ver o barco afundar
Eu também fui apanhada de surpresa

Vais ceder à chantagem dele?

Esta não é a melhor maneira de fazer as coisas
No meu tempo as pessoas estavam sempre reunidas à noite
Se formos a pensar assim o mundo é um manicómio
E ninguém nos disse nada

Eu sempre disse que faltava pulso firme áquele puto.

terça-feira, setembro 13, 2005

O TeleVisionário: a vida e o ecrã

É esta raiva que me dá vontade de viver
Agora estou a pensar no meu futuro
Não tarda nada estarei num lugar melhor
Fui interrompida por motivos de força maior
Terei de estar atenta
Terei de ter muito cuidado
Não ficarei tranquila sem saber o que se está a passar aqui

Até onde é que isto nos vai levar?

As coisas agora estão mais calmas
Ele tem de aprender a meter-se no lugar dele
Porque este é o meu lugar
Porque não irei embora tão cedo

Há oportunidades que só aparecem uma vez na vida.

Sem qualquer registo

Ao jantar, falamos sobre a guerra, falamos sobre a guerra que não fazia sentido. Ele dizia que falatava acreditar como se acreditou nos seus tempos de juventude, e nós ouviamos. Depois acreditamos nele quando ele disse que tinha esperança em nós...

domingo, setembro 11, 2005

Filmology II – on Elia Kazan’s A Streetcar Named Desire (1951)

No bairro francês de New Orleans tudo era cópia de qualquer parte de Paris, com a diferença de que os Champs Elysées podiam perfeitamente ser ruelas estreitas e escuras e sujas; mas a rainha do quarto de hóspedes dos fundos mantinha as tiaras e os mantos e as peles trancados no baú, just in case…
Blanche recebia o correio porque acabava sempre por ficar sozinha em casa. ‘you know those rainy days, when an hour is no longer an hour but a piece of eternity in your hands?’, ela soprava ao rapaz, com o jornal do dia e as cartas para a irmã e para o cunhado na mão, ‘who knows what to do with that?’ Ele fez que não com a cabeça e com o olhar.
Ela pelo menos sabia; conhecia bem a morte e não se deixava nunca apanhar à luz dos candeeiros, ainda que no nevoeiro se ouvisse, distante, “Flowers, flowers for the dead.”
‘Death; the opposite is desire’, papéis da venda da casa da família no fundo da mala, ninguém ali entendeu o alcance do que a rainha Blanche quis dizer quando perguntou ao rapaz da estação de New Orleans pelo eléctrico chamado desejo.
“Flowers, flowers for the dead.”

sábado, setembro 10, 2005

Filmology I - a view on Jean Renoir's The River (1951)

'I’m no longer a stranger', o capitão John disse, na cabana dos pescadores, enquanto percebia que, assim de repente, talvez não fizesse mal que provavelmente fosse desaparecer no Rio muito antes dos poemas da rapariga de vestido azul. Quatro mil anos, lhes deu ele, quatro mil anos, 'Just think, Harriet…'
Do lado da imortalidade, talvez a contemplação fosse excessiva, abraçou-o ela, como quem diz muito obrigada mas adeus para sempre, para sempre, que é sabido não ser própria do criador a imortalidade da sua obra. 'Captain John, I love you.'
'Just think, Harriet, four thousand years...'
“A god’s love made her a goddess.”

quinta-feira, setembro 08, 2005

Sintoma

Ele estava convencido que o fim da grande lírica não era senão um mero sintoma do fim das grandes narrativas.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Fragmentus Suburbia (3): ponto sem retorno

Ela acreditava em regressos.
Sabiam-lhe tão bem as esperas.
«Demora-te!», disse-lhe um dia, em sussurro.
(...)
Todos os comboios vão dar a Roma. Até o dela.

terça-feira, setembro 06, 2005

A rua pouco escondida

Naquela noite, fui por aquela rua. A rua até nem era muito escondida, mas alí parava tudo: mendigos, prostitutas, pedintes, sem abrigo... tudo. Naquela cidade de casas de bonecas ví um homem ser espancado com um ferro enquanto o electrico passava, enquanto a noite me cobria a pele, enquanto se fazia amor nas casas e nos bancos de jardim. Sentia-me finalmente no mundo, só aquilo me fez chegar ao mundo até o Sol aparecer e banhar a cidade de ouro.

Fragmentus Suburbia (2): efeito boomerang

Por imperativos de reestruturação identitária
ele reserva-se ao direito
de ficar por aqui.
(...)
"Não fique a ver os comboios a passar. Venha daí."
E foi.

Early Morning Blog

"Algumas gotas de chuva foram suficientes para restaurar a paz."
(Charles Simic)

segunda-feira, setembro 05, 2005

Fragmentus Suburbia (improviso)

Ele estava convicto que a metafísica do subúrbio dava «um ar da sua graça» sempre que um comboio fantasma atravessava a estação a toda a velocidade. Para todos os efeitos, pensava ele, tinha de haver alguma metafísica naquilo: não estando previsto nos horários, aquele comboio não estava previsto na vida de todos os dias. Soube-se, então, portador de um valioso segredo: talvez o subúrbio fosse um acontecer mais do que um acontecimento; e talvez todos pudessem participar da construção desse sentido. Assim, a condição suburbana traduziria uma subversão das categorias a partir das quais pensamos o subúrbio. Nesse movimento (para o qual alguns vanguardistas arriscariam a designação de pós-suburbanismo...) jogar-se-ia, não o retorno da certeza, mas sim o retorno da humanidade. Afinal de contas, o que é próprio dos Homens: suburbanos ou não.

domingo, setembro 04, 2005

Memórias poéticas (2)

"Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a mão a dormir. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento, ela devia estar com um sono muito leve porque abriu as pálpebras e olhou para ele com um ar assustado.
«Para onde é que estás a olhar?», perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la e que devia voltar a conduzi-la para o sono; tentou responder-lhe com palavras que lhe acendessem na cabeça a faúlha de um novo sonho.
«Estou a olhar para as estrelas, disse ele.
- Não me mintas, tu não estás a olhar para as estrelas, tu estás a olhar para baixo.
- Mas, como vamos num avião, as estrelas estão por baixo de nós.
- Ah!», disse Tereza. Apertou ainda com mais força a mão de Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava a olhar pela janela de um avião que voava tão alto que ia por cima das estrelas."
Milan Kundera in A insustentável leveza do ser

sexta-feira, setembro 02, 2005

Laranja Cor de Sangue


"Está tão escuro lá fora que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece.
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio."

Charles Simic

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (2ª Parte)

"Não. Os xuar não se beijavam.
Recordou-se também de que, em certa ocasião, vira um garimpeiro acasalando com uma jíbara, uma pobre mulher que deambulava por entre os colonos e os aventureiros implorando uma golada de aguardente. Quem tivesse vontade puxava-a de parte e possuía-a. A pobre mulher, embrutecida pelo álcool, não tinha consciência do que estavam a fazer com ela. Dessa vez, o aventureiro montou-a na areia e procurou-lhe a boca com a sua.
A mulher reagiu como uma besta. Tirou o homem de cima dela, arremessou-lhe um punhado de areia para os olhos e desatou a vomitar com um nojo indissimulável.
Se beijar ardorosamente era isso, então o Paul do romance não passava de um porco."

Luís Sepúlveda in O Velho que Lia Romances de Amor

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (1ª Parte)

"O romance começava bem.
«Paul beijo-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos».
Leu a passagem várias vezes em voz alta.
Que raios seriam as gôndolas?
Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e, quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava «ardorosamente» a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.
Gostou do começo.
Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.
E quanto a beijar, como é que ele dizia? «Ardorosamente», como diabo seria isso?
Recordou-se de beijar muito poucas vezes Dolores Encarnación del Santíssimo Estupiñán Otavalo. Na melhor das hipóteses, terá havido uma dessas poucas ocasiões em que o fez assim, ardorosamente, como o Paul do romance, mas sem o saber. Em todo o caso, foram muitos poucos beijos, porque a mulher, ou respondia com atques de riso, ou fazia notar que podia ser pecado.
Beijar ardorosamente. Beijar. Só agora descobria que o fizera muito poucas vezes e apenas com a mulher, porque entre os xuar o beijo era um costume desconhecido.
Entre homens e mulheres existiam as carícias por todo o corpo, e não lhes importava se havia outras pessoas presentes. Nem no momento do amor se beijavam. As mulheres preferiam sentar-se em cima do homem argumentando que nessa posição sentiam mais o amor, e portanto os anents que acompanhavam o acto saíam muito mais sentidos."

[continua]

quarta-feira, agosto 31, 2005

Memórias poéticas

"Aceitas um chá ou preferes antes ir para o telhado?"

Previsão de Tempo para Utopia e Arredores (revisited)

É o Amor nos tempos de cólera.
O sofrimento no auge da ambiguidade.
A angústia persistente num mundo não muito benevolente.

E o silêncio mantém-se, inequívoco.

Por isso, pergunto: quanto nos custará o tempo de uma previsão?

terça-feira, agosto 30, 2005

Ao luar.

No fim daquela noite, passam os sonhadores pela estrada à beira mar, num carro comprado em segunda mão. A estrada parece infinita, a lua reflecte-se na agua do mar assim como os faróis do carro iluminam a estrada. De regresso a casa, mas sem pressa, viajamos pela estrada sem ninguém a quem pedir direcções. Entre o mar e o luar naquela noite quente de Verão.

sexta-feira, agosto 26, 2005

No sótão dos nossos sonhos

Era de noite, eu estava sentado no sofá da sala a ler um livro, não me lembro bem qual, só sei que via os candeeiros lá fora acesos, ouvia um ou outro carro, eram altas horas da noite e estava a saber-me bem ficar ali a pensar nas minhas coisas. Comecei por querer que as coisas mudassem ali, impus-me a mim mesmo que só ficaria a ali se aquele ambiente mudasse. Esperei umas quantas horas, estava mesmo decidido a não sair dali até aparecer algo de extraordinário. Passaram algumas horas, até que começou por aparecer o cavalo de madeira que me lembrava ter visto no sótão do meu avô e a espada de madeira que ele também me fizera para brincar na casa da árvore. As coisas começavam a melhorar, apetecia-me ficar ali a noite inteira, as coisas surgiam de todos os lados, havia brinquedos por tudo quanto era sítio, mas brinquedos a sério, daqueles de madeira que víamos nos livros para crianças, só faltava aparecer uma fada vinda das estrelas para pedir um desejo. O cavalinho de madeira baloiçava com o soldadinho de chumbo montado, era tão fantástico ver aquilo, aqueles brinquedos todos que o meu avô sabia tão bem esculpir, tanto engenho, tanta dedicação, tanto amor que se viam naqueles brinquedos. Havia também o castelo, e claro, o barco pirata, tantas batalhas que travamos juntos, tantas brigas que tivemos por um brinquedo, mas fazia parte, era vida, éramos felizes porque éramos crianças, não sabíamos nada, éramos anjos. A mãe pega no filho, chegou a hora de ir deitar, a criança queria ficar mais um bocadinho, quem nesta idade nunca lhe apeteceu ficar acordado e a brincar até tarde como os crescidos. A criança vai dormir, está na hora. Para mim está na hora de levantar, chega de sonhos deixo então de ser o anjo que fora nos meus sonhos para me tornar na pessoa que regressava ao mundo real, sem fadas e sem o soldadinho de chumbo montado no cavalo. Que ingenuidade querermos ser crescidos.

Da segurança.

Gosto de pensar que a cadeira da varanda em frente vive por mim tudo aquilo que, daqui, me vejo a ver do outro lado. Mais: porque está sempre lá e com a atenção de não ver nada, não lhe escapa o que seguramente se me escoaria na preguiça dos sentidos.
Agrada-me tanto ser suficiente que lá vá de vez quando, para confirmar uma vez mais que é de facto um fenómeno notável que os dias se repitam e também estejam sempre lá, que me parece muito razoável respirar fundo e nem sequer sentir obrigação nenhuma (especialmente das que se prendem com a irrepetibilidade do momento) de me levantar do sofá para ir ver a cor fabulosa que o ar tem a esta hora particular.

Do interesse público (inspirado numa ideia original de António Pocinho)

O Conselho legislou, por maioria absoluta, um conjunto de medidas de indiscutível interesse público:

  1. Promover pessoas a recursos humanos;
  2. Promover natureza a recursos naturais;
  3. Promover amor a recursos poéticos.
O Conselho lembra que, de momento, é o máximo que pode fazer pelo interesse público. Assim que possível serão efectuadas novas promoções, desde que estas respeitem o bem-estar da comunidade.
Por último, o Conselho deixa um aviso importante: uma vez concluída a promoção do planeta Terra a recurso planetário inicial, todo o sistema deve estar pronto a funcionar. Não serão admitidos quaisquer golpes de cariz revolucionário em nome do interesse público. Aliás, para essa eventualidade, o Conselho preparou um plano de emergência: promover o interesse público a recurso do Conselho.

O grosso dicionário de páginas em branco

O homem lançava ao ar folhetos que pregavam a revolução. No meio daquela pequena praça abandonada nos recônditos da cidade o homem empuleira-se num banco, pregando a revolução através de um megafone:
-Revolução! Revolução! Façamos uma revolução!
Na praça não passa ninguém, na praça só se ouve a voz do revolucionário e os pombos a picarem a folhas que esvoassam.
Uma mulher passa pela praça juntamente com a sua filha, a menina aproxima-se do homem, o homem vê-a e desce do banco, fitando a menina que trajava um casaco vermelho e comprido:
-Sabes o que é uma revolução?
A pequena abana a cabeça, indicando que não sabia o que era.
-Então, decora essa palavra, fica com isto. Esta folha faz parte de um dicionário e todas aquelas que tu vês aí caidas no chão também fazem parte dele. Todas elas vão ser recolhidas pelos limpadores de rua, mas essa fica só para ti.
De súbito, algumas lágrimas chegam aos olhos do revolucionário.
-Sempre que olhares para essa folha, lembra-te do que eu aqui te contei.
O homem virou costas, pegou no banco e foi-se embora já sem as folhas do dicionário. A menina ficou estupefacta a observar a folha em branco enquanto se dirigia à mãe. Em breve, também elas sairiam daquela praça escura e mal lavada.
A praça fica vazia tal como o revolucionário a havia encontrado, o sítio ideal para pregar uma revolução na qual ninguém acredita. Uma praça à espera de ser limpa pelos homens que limpam as ruas.
A noite chega, na praça apenas permanece a merda de pombo e as folhas soltas de um grosso dicionário de páginas em branco, pregando a revolução.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Auto-retrato

Ele acreditava-se pleno de outros. Porém, quando lhe pediram um auto-retrato, foi incapaz de se colocar naquele quadro.

Dos debates intermináveis: objectivismo vs subjectivismo

"Ela será bela porque eu a amo ou sou eu que a amo por ela ser bela?"

Codependência

E foi então que ele se descoseu: não havia nada naquela garrafa que justificasse tamanha barbárie.

quarta-feira, agosto 24, 2005

O baile de gala metafísico


2046 de Wong Kar-wai

Peixinho Vanda

Uma luz acesa, um cigarro apagado, uma perna de frango no chão, uma toalha molhada, um preservativo usado, uma moldura sem nada, um palco vazio, um semaforo fechado, uma luz que se acende e um peixe cor de laranja chamado Wanda.Cintila, cintila pequeno peixinho de crista azul que cantas ai dentro desse aquario de Coca-Cola, e que comes tu? Uma chamuça picante talvez? Não, comes aquelas migalhas embaladas proprias para peixes da tua natureza.Borbulha, borbulha pequeno peixinho daí de dentro desse aquario de cor de Coca-Cola como quem ouve O-zone ao máximo gás, e aí te vez nessa loucura desenfreada numa tentativa de suicidio que no teu caso é de todo conveniente. É nessas alturas que me elouqueces, partes então numa corrida desenfreada, corres em direcção à chamuça picante e... pim pam pum... comes a chamuça como se o amanhã nunca mais viesse, e realmente para ti meu peixinho de agua gaseficada com aroma a Coca-Cola que não é light não é nada, é só uma simples lata de Coca-Cola que foi para ai despejada. A chamuça meu pequeno peixinho não era para ti, tu comeste-a e agora já não es peixe, não és nada, agora moras dentro de mim.Olho então agora para o teu lindo aquário vazio e lavadinho, só com a tua cazinha ainda com aquela cor castanha que só a Coca-Cola sabe dar, e fico emocionado e as vezes penso em por lá dentro uma lula, mas não! Para sempre ficará guardado o aquario onde tantas vezes aquele peixinho cor de laranja com crista azul chamado Wanda cintilara e borbulhara naquela gaseficada Coca-Cola. Outras vezes olho e vejo que afinal ainda estás lá e não és um peixinho cor de laranja, mas sim uma lula que borbulha na 7up.