sexta-feira, setembro 02, 2005

Laranja Cor de Sangue


"Está tão escuro lá fora que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece.
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio."

Charles Simic

4 comentários:

Shadow disse...

A fotografia está linda!
Gostava imenso de poder ver de novo todos os actores que aí estão a actuarem mais uma vez em conjunto!

Beijos a todos********

Redondo disse...

Work in progress...
Por entre as tabuas que pisamos, na caixa dos sonhos (doiseme), ou ate mesmo por qualquer espaço que tenha-mos passado... existe o trabalho criado por pequenos monstros da imaginaçao! Econtramo-nos tantas e quantas vezes, enchemos oceanos com lagrimas de ADEUS, tantas e quantas vezes... "I grow back like a starfish"... aguentámos ataques sentimentais, juntos persencia-mos "pontos que cresçem e que cresçem cada vez mais, cada vez maiores...", são poucas as maquinas que imprimiram momentos, tão bem quanto as memórias que hoje levamos para a tumba... Não fomos os primeiros nem tão pouco os ultimos...
-"Um século de apanhar nuvens! Navios fantasma chegando e partindo, o mar mais fundo mais vasto...".
Mas é na noite da estreia que sentes passar todos os momento, aquele momento em que até a alma é pressionada, sabes que uns vão sair, outros vão-se estrear, ao som de Antony sentes a coragem que passa pelas mão de cada um, o Rui M. diz que faltam poucos minutos e já ouves o berburinho do publíco lá fora... é então que a Ritinha e companhia (todos), deixa-mos cair a primeira lágrima. (MERDA ESTÁ PRESTES A COMEÇAR!) Então sobre um chão de madeira damos o grito de guerra "MERDA"... Passamos as mãos pelos rostos de cada um, como que espalhando o pó magico que faz os corpos vibrarem, este mais que uma solução aquosa com um leve trago a sal (o que o comum dos mortais chama de lágrima), é tudo aquilo que nos une naquele momento, cada qual ao seu lugar levando os outros no coração! Atenção este é um dos momentos mais bonitos da noite, é aqui que tudo se transforma, afloram personagem desaparecem seres, nascem sem abrigos, poetas revolucionarios, musicos, velhas, cães, putas dignas prostitutas, crianças, revisores de comboio, pequenos seres de contos infantis, maquinas, penicos, anjos, noivas, mortos, casamentos, funerais, (até o Green God do Eugenio de Andrade decidio aparesser), venham, vem tudo, tudo é possivel e tudo se cria nesta noite!
Na plateia: na plateia esgares e olhares são lançados, não passam de testemunhas oculares e sentimentais, gentes vindas não se sabe de onde, gente que deseja e anseia sonhar, gente que acredita no que vê pois não sabe qual nem de onde vai aparecer a próxima magia... mas tambem é na plateia que se situa um ser: "o ser criador", "o pai dos sonhos", "o homem do leme", etc... chamem-lhe o que quiserem, ele é o Rui Mario e salta da cadeira, impulsos provocados a cada passo dado, cada olhar... Ele é o Mestre!...
Olho pela janela e o dia começa a romper nao sei se é cedo se é tarde! Sei que amanhã é um novo dia e quando acordar tudo "isto" não passou de um sonho...

Ines disse...

Parece-me tudo tão longe; porque mesmo não tendo vivido a laranja cor de sangue vivi a memória, o trago fantasmagório impresso em todos os vossos rostos. Sinto umas saudades imensas de mar de luz forte de todos os corpos que se deixaram ser nesse palco. é tudo tao mais do que aquilo que parece, porque " a arte nao é aquilo que é, é aquilo que pode ser". E em potência seremos ainda tantas coisas... em memória fomos já tantas. " Começa um novo aprender, um novo começar"... e "pássaros sim, passáros cantam."


E estas mãos começadas

Dizíes vós por vezes: ele promete -
Sim, eu prometia. Mas o que vos prometi nao me faz medo agora.
Por vezes, junto à casa ficava longo tempo a ver voar um pássaro
Oh, tivesse eu podido ser aquele olhar. olhava-me, elevava-me até que as sobrancelhas ficavam mesmo ao alto.
Nao amava nínguem: - porque amar era angústia, compreendes?
Entao eu não era nós e era muito maior que um homem,
e era como se eu proprio fosse o perigo,
e dentro desse fruto
era eu a amêndoa."

Rainer Maria Rilke

Carapuço disse...

só em si tenho fé, senhor rui!