quinta-feira, dezembro 28, 2006

Flor em Inverno

As sementes nascem no duro ventre
e os pássaros morrem em pleno vôo
enquanto descaíam-se sobre si mesmos
e afligiam-se em vergonhas tão inocentes

Se a flor falasse em beleza
as suas pétalas não seriam mais como dedos de anjo
Se a flor vencesse a tempestade
deixaria de ser caule de lua
Se a flor não baloiçasse na brisa espontânea
não vestiria saias
Se a flor fosse grande
teria pé de criança sobre erva

Se eu florisse cada instante
e sempre pedisse o meu sol ao céu
e criasse espinho de pequena
não poderia ter lâmina

nem ser perdida

ter o meu canteiro
ser flor com pólen
para retirarem-no de mim
e espalhá-lo sobre meu solo
para sentir sempre doce

segunda-feira, dezembro 04, 2006

2ª interrogação de amor

Tenho dentes de cavalgada
E esfera armilar em fogo
agarrada às minhas mãos

Sou sangue em fervura
em ebulição esquecida
Posso apagar simplesmente?
Ser um ponto que morreu no passeio?

Já não sei o que foi de ti
Onde é que tu andas?
Na minha mente?
Estás longe, cada vez mais longe...

Já és um amargo na boca
Já perdi os dias e nem me interessa saber quantos foram
Pois, agora, regulo-me pelo meu tempo
Sei-o melhor

Tão cedo? Uma lembrança?
Afinal, parece simples.

É só apanhar os vestígios que, às vezes,vêm agarrados à roupa
É só diluir o pensamento cronometrado para o passado
para saber que ele não está aqui, agora
É só afastar a mão do corpo à procura dum poro
ainda em transe de prazer
É só esperar até deixar de esperar
É só deixar de ansiar nos órgãos, no dentro, no fora,
nos cabelos, nos braços, no corpo inteiro
É só deixar de imaginar casas de banho
É só deixar-me de vestir de leopardo para não poder atacar-te mais.

Afinal, parece simples.

Pobre coxa depenada
Sem pio
Ficaram as tuas plumas a curtir no ar
E eu, prostrei-me contra um tronco, bêbada, sem ti, cabrão.

domingo, dezembro 03, 2006

Urgência em ser burro.

Às vezes o actor tem de ser burro, às vezes precisa de pôr duas palas nos cantos dos olhos para se libertar, para não saber de nada, para ser burro de carga, daqueles que ainda não aprendeu o caminho de regresso a casa.

quarta-feira, novembro 29, 2006

mãos começadas.

Foto de Carlos Ramos

"Não, vão a pé, vão a pé que lhes faz bem, como outro homem qualquer..."

Rui Mário.

quarta-feira, novembro 22, 2006

........

De todos aqueles gestos que davam signos e daquelas frases de amor em corpo de ódio fingido, só uma ficou cá bem no fundo. Nessa frase dizias: "...para sempre!". E eu acreditei... em corpo de ódio.

domingo, novembro 19, 2006

Aquilo que podia muito bem ser.

Peguei no pincel embriagado de acrílico, aquele instrumento era o prolongamento de uma mão sem habilidades, tosca e sem vigor. De todas as coisas que tinha visto naquele dia, o que mais me impressionou foi aquele menino do documentário com a espingarda na mão.
Olhei para o papel grosso que estava na parede, e destas minhas mãos crescidas sairam meninos pretos de África com carrinhos de rolamentos e trotinetas nas mãos.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Violoncelo

O meu violoncelo tem o pranto que me pertence. O meu violoncelo tem as torrentes de amores e pássaros desonrientados. Mesmo sem cordas, o meu violoncelo continua a ranger a dor na madeira. E, cada corda, é açucar a jorrar da fonte. O meu violoncelo tem saudades de mim, toca por mim quando não me consigo levantar do chão e dá-me uma sonata de presente.
Não precisas falar de ti porque hoje vi-te a tocar. Transpiravas que nem a pele dourada de cavalo sobre o campo, desenfreado e selvagem. Murmuravas uma respiração tão silenciosa como a pausa da tua música. Ouvi-te, ouvi as tuas mãos, os teus dedos, os teus pulsos. Ouvi o grito a sair do teu estômago e a amarrar-se nas tuas cordas vocais até sufocar. O que ouvi foi lindo. Fixei-me na cadeira e voei até junto de ti. Irrompi nas tuas notas como véu ao vento, como liberdade total para estar onde quisesse. Viajámos juntas até onde a imaginação não criara ainda uma imagem.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Só porque não falava de amor há muito tempo.

" - De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se de outro amor. Do que dói."

Luis Sepúlveda in O velho que lia romances de amor

sábado, novembro 04, 2006

Texto de transbordação psicológica.

Em caixa preta, de tábuas de madeira pintadas de preto. Uma luz fraca ilumina a plateia de cadeiras vermelhas. Um movimento que diz já estar farto de esperar, outro que crê num único Deus. Parcelas para dentro, outras para fora.
Todos os elementos nascem de saturação, de transbordação, de tudo aquilo que os olhos já não conseguem guardar. Deitei-me só mais uma vez naquele chão pintado, só para sentir o rasto de cheiro que as tábuas iam deixando. As vozes desencontram-se afinadas. O senhor do cabelo pequeno brinca com a menina dos olhos grandes. Mutação completa de anjos em diabos, e de grandes em médios e pequenos.
A coisa acende-se, ilumina-se, prontifica-se. Ninguém separa esta unidade.

domingo, outubro 22, 2006

não gosto de acordar na incerteza
para a contagem decrescente ou crescente.

As ambulâncias já vêm a caminho
com as sirenes a anunciarem um desastre
que me amarrará à cama
em silêncio devoto
e com o sentimento a furar os lençóis, a suar pelos braços,
pelo peito, pela barriga

Quando comer nem vou conseguir mastigar nem saborear
de tão ferida que está a minha língua, a minha garganta
arrebentada pelas explosões, o meu maxilar
deslocado pelo vento
em crise nas ruas vazias.

Quero que o vazio se penetre
nos teus cabelos e te arranque as raízes do cérebro
até os olhos serem apenas duas órbitas em flutuação permanente
Para que o vazio seja tanto que não haja espaço
para o sonho, para o pesadelo. Só o vazio
na sua contemplação oca onde não há esferas nem
quadrados com ângulos nem gemido
apenas um furo onde o
fim é sempre o início,
o iníco sem chão nem
escadas para subir ou descer

Apenas a morte
a morte parada a preencher todos os lugares
a morte para a próxima passagem
onde a dor é tanta que o coração bate mais para saltar do peito

Dá-me um beijo de boa noite
para poder adormecer

sexta-feira, outubro 20, 2006

O meu Guerra clandestino

Às vezes, sou guerreiro fugido do campo de batalha para me render, no campo, à árvore grande, espada de osso contra espada de madeira. Fico aliviada daquele som de bomba, da pólvora espalhada nos rostos dos atiradores e do cheiro a agonia.
Por outro lado, sinto que a Guerra é só minha, aquelas são as minhas estratégias e eu sou o comandante passado a ferro. Mas, afinal, nada me pertence. Só o meu coração, semeado, lavrado, colhido, comido nas trincheiras de Guerra.
Os pelotões avançam até ao fim da linha, mas o inimigo já partiu. Já se sente a saudade da paz, dos passos até à cafetaria para tomar qualquer coisa que se assemelhe com o doce.
Eu. Chamo-me Joana. E Guerra. E amor. Sou isto e mais coisas como as coisas que nâo têm nome. Nesta Guerra, sinto a dádiva da loucura a invadir-me o corpo, a queimar-me o anti corpo. Quem sou eu? Eu sei. O que sou eu? Não sei: mesa de cabeceira, bicho do mato, transe de passagem? Sou Guerra. Sou Guerra. Não consigo medir a densidade, mas sinto-me densa como badalo de sino a chocar no metal. Não consigo medi-la nos meus pulsos nem vê-la na minha barriga, mas sinto os pesos de nuvem.
Acordei e tinha um homem ao meu lado. Era um soldado a esvaír-se em sangue. O seu camuflado era agora um invólucro a chupar sangue. “De que te valeu essa luta?”, perguntei-lhe. “Eu ainda estou vivo. Ainda hei-de lutar mais”. “Não. Estás enganado. Tu já morreste há muito tempo. Dentro de mim”.

quarta-feira, outubro 18, 2006

?

Não me apetece mais nada. Não me apetece mais ninguém. Só tu me apeteces.
Era tão bom que viesses em caixas de bombom para comer-te aos poucos: deixar que o chocolate derretesse lentamente na boca num prazer lento afundado na poltrona.
Era tão bom que fosses lápis para escrever-te nas paredes de minha casa, no meu corpo, sem vírgulas nem pontos final.
Era tão bom que fosses reticências para prolongarmos o que quisessemos, aquilo que não tivesse significado exacto e que não dissesse nada aos outros. Só nosso.
Era tão bom que fosses o botão da minha camisa para desapertar-te quando me apetecesse e dar-te a liberdade do ar a passar entre as linhas cosidas.
Era tão bom que fosses corda de violoncelo para exercitar-te, fazer música de ti, fazer amor musical contigo e acariciar-te num dó vibrado.
Era tão bom se fôssemos simples de amar.

domingo, outubro 15, 2006

Paris Je t'aime.

"Vem! Eu sei um atalho."

quinta-feira, outubro 12, 2006

As ruas são os meus papéis de lustro coloridos e aguarentos em que passeio as minhas saias e esvoaço na suas rodas vivas de movimentos dançantes. Nas ruas encontro o meu ser espalhado nos livros, nos reflexos dos vidros, nas montras garridas e nos tecidos aveludados, nas músicas sem música, mas com dó e piedade. Na matéria desabafo-me. Ao encontrar-te, meu anjo, sei que fui bruta, mas estava assim, amarga e dura.

quarta-feira, outubro 11, 2006

A CURA

Porque é que tenho baratas na cabeça? Elas não deveriam estar aqui. Elas deveriam estar na cave ou a passear por cima do falecido vizinho. Mas elas estão aqui, na minha cabeça, a sugarem-me pedaços de cérebro, como se eu fosse o seu caixote de estimação. Sinto as patas a andarem, a pararem, a moverem-se como se houvesse muito sítio para onde ir na minha cabeça. Já as apanhei nos meus pensamentos, nas minhas memórias.
Já tenho baratas nos olhos. Às vezes, deixo de ver porque uma barata resolveu vir espreitar. Deixei de conduzir, mas, agora, posso beber mais. Pedi a um amigo para me espezinhar a cabeça, para matar essas filhas da puta insensíveis. Porquê a minha cabeça quando há aí tanto cabrão? O meu cabelo está diferente, claro que está. As baratas estão na minha cabeça e o cabelo cresce aí. Agora tenho cabelo preto como corvo ou como BARATA. Pintaste o cabelo? Não, já disse que não foda-se! Tenho baratas em mim. Elas violaram-me, eu sei que sim. Não, não foi um sonho, foi uma tortura, baratas gigantes, com mil patas cada uma, com olhos de sangue e antenas.
Apanhei um táxi porque chovia e já tinha as calças molhadas até aos joelhos. Apanhei um daqueles táxis da Avenida Principal que dá para todo o lado e todo o lado vai lá dar. Apanhei o táxi e cheirava a mofo, humidade, coisa estranha. O taxista, bigodeiro, porreiro, abafava com a mão qualquer coisa ao seu lado. Espreitei do banco de trás. Era uma cabeça. Cabeça feminina, lábios vermelhos, grandes brincos prateados e uma pastilha elástica na boca. Cheirava a mentol, era isso. De mofo a mentol. Perguntei-lhe que fazia ali aquela cabeça. Respondeu-me que barafustara com o preço que tinha a pagar e ele não foi de maneiras e zás cortou-lhe a cabeça. Eu disse-lhe que havia pessoas que não sabiam pagar por aquilo que usufruem. É que sabia que aquilo ia dar uma trabalheira ao homem para limpar, então, apaziguei-lhe a mente dizendo-lhe que ele fez o que tinha a fazer. Mesmo em crise os táxis são táxis. São pretos e verdes ou amarelos. Prefiro os pretos e verdes. Bem, ali estava a cabeça e ainda resmungava. Impressionante. Chata do caraças. Se fosse eu, já a tinha dado aos miúdos para eles jogarem à bola.
Queria livrar-me das baratas. Então, fui até ao Cais do Sodré. Pensei: “Aqui há muita gente com doenças, mais barata menos barata não lhes deve fazer diferença”. Já me tinham dito que era assim que se fazia. Espetei-me por um bar adentro. Pedi um shot. Outro. Outro. Outro. Outro Já nem sabia a quantas ia, com quem falava mas acho que falava com alguém e que arrebentei contra o balcão e vi sangue e dentes e cabelos. Arrebentei contra garrafas, peguei noutras, esbofeteei gajas que se metiam em cima de mim, esfolei as bochechas de uma boneca loira, andei à porrada vezes e vezes na mesma noite e já ninguém me apalpava, rasguei e dancei em cima de mesas partidas com bêbados a cuspiram e a vomitarem o alcoól do almoço, do lanche e do jantar! Lixei a minha cara e fiquei uma merda, merda durante duas semanas. Numa noite, não fui mulher, não fui homem, fui BARATA. Adeus amigas!

sexta-feira, setembro 29, 2006

Interrogando o Sr. Verme.

Então é este o paraíso dos tontos?
O baile de gala metafísico?
O grosso dicionário de páginas em branco?
A bolha de sabão de lavanda flutuando para o infinito
Desde o telhado do palácio dos confetti?

Só em si tenho fé, Sr. Verme.

Charles Simic.

terça-feira, setembro 26, 2006

Ão Ão

Eu sigo as modas. A minha moda é não ter moda. Caso contrário, ainda me acusam de ser neo-qualquer coisa. Eu tenho modo. E isso basta-me.

Não percebo é como é que a moda das coleiras passou porque vocês são todas umas gandas cadelas.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Palco de espectros.

Foto de Gonçalo Morais

Debaixo de um céu escuro, no meio dos mistérios do nevoeiro, um palco grande ilumina-se. Um sorriso, um olhar, uma risada, a fúria de uma morte ou de uma loucura.
As personagens enchem o palco cheio do pó das estrelas. O arco espelha o rosto de dois irmãos, dois animais que se preparam para atacar em contra luz. O público dá a primeira risada quando o cómico dá a deixa, ou então chora quando o príncipe enlouquece ou então quando o coração sai destroçado.
Em cima de geometria andam as personagens, numa corte de espelhos que reflectem na floresta encantada e atrás das torres do castelo. Há qualquer coisa que não pode ser magia. Os dedos, o nariz e as orelhas caem no chão.
O primeiro projector acende. Qualquer coisa vindas das entranhas chama por nós, a ansiedade é enorme, a palavra fica gigante e os olhos, as mãos e os pés também.
A personagem entra, a personagem sai, a personagem agradece. A personagem morre. Tudo volta ao inicio.
Palco de espectros, palco vazio.

sábado, setembro 02, 2006

às vezes tem de ser...

- Então do que falávamos? Enquanto engoli este cigarro, tossi e não te ouvi....diz lá. Volta lá ao início.
- O início? Olha, agora é difícil, já estava a caminhar para o fim. Bem, nada de especial. Aliás, nada de especial é fraco...falava da memória dos tempos.
- Ah, esses. Epá! Estás nostálgico e já não tenho grande pachorra para isso. Só quando estou bêbado e mesmo assim desatino com certas pessoas que pensam que as suas memórias são superiores às dos outros. Chiça! Já experimentei uma boa pontaria, marota, para pontos fracos do corpo...mas não resultou. Sei lá: distrair com um riso, com uma blasfémia...apalpar e ser bruto, ao menos assim calam-se, sentem-se ofendidos e vão-se embora...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Coisas da Mafalda I

Pergunta o Miguelinho:
Que é que te parece que se tem de fazer para que os outros percebam que se é um bom tipo?

Responde o Manuelinho:
Olha, Miguelinho, o que deves fazer é que os outros apenas julguem que és um bom tipo...
porque se chegam a perceber, estás tramado!

segunda-feira, agosto 28, 2006

Vamos!

Large fallen Horse, Robert Doisneau

Vamos! Levanta-te, não te armes em rebelde sem causa, deixa o raio da bebida de lado. Põe-te de pé!
Olha à tua volta, estão todos a olhar para ti e tu deitado, já em pânico, fazes figura de cavalo morto. Pega nos CD's que trazias na mochila, provavelmente estão partidos, mas pelo menos mete-os a tocar num caixote do lixo. Acerta em todos os buracos que encontrares nessa calçada, especialmente aqueles que têm água lá dentro.
Vamos! Ainda não terminamos esta conversa surda de animais.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Gosto do amor e de todas as formas físicas que o permitem exprimir-se.

P.S. cit. do livro Play a Fair Love, de Potion Lady, ed. Kiss me or Die. Trad. Joana Guerra

segunda-feira, agosto 14, 2006

Padeço de saudade múltipla. Se o céu ainda não me esmagou é porque tenho espirro de ferro que o mantém longe. Tenho o quarto desarrumado e pó em várias formas. Tenho livros abertos e só lhes cuspo mais desprezo. Tenho um spray para pintar nas paredes e só consegui pintar as minhas bochechas. Se o coração falasse...o meu diria muitos arrotos. Como tal rei em cima de uma fonte. Um arroto como onda de mar que veio acima e desfez-se em som.

Meu reino

Ao cair do pedestal levarei comigo as ninfas e as guardiãs dos meus cabelos de rainha. Nesse dia, como noutros, vou saltar no meio das gaivotas e cantar com elas a minha liberdade e o meu glorioso passo. Aí, também irei ser rainha dos pássaros. Irei ser coroada no cimo da árvore mais frondoso da floresta e levada nas asas brancas das aves reais para o meu trono de pétalas. Assim, ficará completo o meu reino. Quando os céus forem meus ordenarei sempre sol, luz límpida e cristalina para aquecer as águas onde se banham as aprendizes jovens, deixando-as prosseguir na sua poesia de auréolas e príncipes. Agora, sou a rainha do meu reino incompleto. Quero o meu melro e o meu pardal para me cantarem músicas nas noites prateadas cheias de pós exuberantes a pairarem no ar.


Um riacho.

Um sítio, uma memória, duas pedras demasiado grandes para estarem dentro de uma só cabeça.
É preciso voltar a essas pedras para elas desaparecerem.
A verdade, é que os sítios só são especiais pelas memórias: lembrar que havia um riacho seco numa praia no meio das dunas, basta haver qualquer coisa boa nesse sítio para o riacho se encher de água doce.
Lembro-me que havia um riacho, não me lembro se tinha água ou não, mas lembro-me do riacho.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Lá vou eu.

Fui malhar para uma praia deserta!

quinta-feira, agosto 03, 2006

De mal a pior...

Quando escrevo, escrevo sempre pela mesma razão. O que hoje difere das outras vezes, é que hoje estou sem inspiração.
Dou a felicidade a quem adivinhar essa razão.

quarta-feira, julho 26, 2006

É disto que eu gosto.

Paris, Texas de Win Wenders.

Rai's partam...

Não fosse a monarquia e não tinhamos de substituir o rei.
Não fosse a monarquia e eu ía ao andanças.

domingo, julho 16, 2006

Ainda há madames!

Histórias, histórias, são precisas histórias. A M;adame Berra não passa sem o chá e sem os biscotinhos e, é por vezes, impertinente. Mas que se vai fazer àquele riso irritante? A madame risse por tudo e por nada e abre bem a boca para que se veja o dente dourado: herança de família. Só é melhor não dar o bolo de chocolate porque é sempre uma sessão de cuspir e apanhar do chão e pedir desculpas discretas. Só os biscoitinhos, que até ficam bem em cima da mesa. Faz um arranjo elegante. Madame Berra trará uma nova história e a sua cara gorda vai contorcer-se de expressões maquiavélicas e horrendas, só que ela não se dá conta de tal. As bochechas rosadas enaltecem o seu rosto rechonchudo e parece que ela vai asfixiar dentro daquele colarinho bem passado e bem apertado. Espero o momento do ataque, quando a senhora cair da cadeira para trás e as suas pernas ficarem rígidas e fazerem aquele movimento cómico em que se cai duro que nem uma pedra no chão. Madame Berra grita, às vezes. Mas, para ela, não são gritos. Lá vinha uma história. Histórias sobre nada. Afinal, nem sei bem o que ela contava, mas ouvi-a. Aliás, se calhar, nunca ouvi uma história, pois se me pedissem para reproduzir uma das centenas, não me lembraria de nenhuma. Mas sei que ela contava muitas histórias. E via os pedaços de biscoito a esvoaçarem no ar e a cairem em cima do gato que, seguidamente, desviava-se irritado. Também ele já sabia como era.
O seu marido enchia-se de tremores na cabeça. Ficava estarrecido na cadeira e sorvia o chá. É um homem que mexe o bigode de um lado para o outro de modo enérgico. Parece que faz cálculos complicadíssimos na sua cabeça e que aquele tique é uma reacção neuro-cerebral. Comporta-se elegantemente, mas a sua conduta elevada, de todas as vezes, vai amolecendo em cada encontro. Vai-se desleixando nas falas e até consegue ser satírico e surpreender os conversadores. Sempre achei que havia ali um génio a ferver. Pode ser que não haja. Mas algo está lá e, ainda por cima, ele ainda consegue ouvir as histórias de Madame Berra. Ou, se calhar, como eu, ele também nunca as ouviu. Mas acho que sim, que já ouviu, pois eles já se amaram.
Madame Berra, é preciso que encha esta sala com o seu estomâgo que parece estar grávido de grandes maçãs e venha contar histórias. Brilhantina não se importa com o seu perfume, já não mais. A Brilhantina também tem os seus vestidos vermelhos e os saltos altos e até tem um vestido que é às bolas vermelhas sobre fundo branco. Disse-me para ter cuidado com as mulheres que pintam os lábios de vermelho pois era para disfarçar as marcas do sangue que chupam. Assustei-me com aquele facto que desconhecia na minha vida. Mulheres com lábios vermelhos, mas que cheiram bem tornaram-se um tabu para mim. Qualquer dia peço a uma para me sugar e acaba-se logo com isto. Brilhantina é maliciosa e não tem uma paciência muito bem comportada. Também ela usa batôn vermelho e daí eu nunca a chateio, mas sei que a mim ela não me faz mal. Mas temo pela Madame Berra. Aliás, já se atrasou. Mas como? A Madame nunca se atrasa.

sexta-feira, julho 14, 2006

Pode ser aqui

Sentemo-nos no parapeito da janela, entre as bisnagas de brincar e a queda interminável. Se somos bandidos temos de escusar convites e vamos roubar corações. Dentro da rua da morte há muitas escadas e sangue em garrafas para nos lembrar a gota que alimenta. Dentro de ti há filhos que querem nascer e destruir-te. Querem rasgar a tua pele e saquear velhos e porcos nojentos e castrar violadores. De dentro de mim, vigiam-me. Os assassinos estão dentro de mim.
Se dormir, o dia vai custar a vir. Já perdi os meus pés, mas posso ir ao teu colo e vou-te contando histórias felizes ao ouvido e vou avisar-te que se eu pudesse matar já me tinha morto. Então, atravessemos a rua em silêncio, mas, antes, quero dar-te uma flor. É de plástico e veio da peça de teatro. Era sobre russos em combustão num teatro ambulante dentro do teatro onde eu estava sentada. Guardei a pequena flor branca para não esquecer a outra realidade, a dos russos que estão longe e que não vejo. Pode ser que do outro lado da rua seja mais claro, mas caminhemos em frente.

domingo, julho 02, 2006

Algo está podre no reino...

de William Shakespeare
encenação de Rui Mário

Autoria: William Shakespeare Encenação: Rui Mário Música Original: Pedro Hilário Interpretação: António Pedro Faria, Flávio Tomé, Filipe Araújo, Hugo Samora, Inês Pereira, João Mais, João Vicente, Paulo Cintrão, Rute Lizardo, Samuel Saraiva Cenografia/Adereços: Silvia Silva Desenho de Luz: José Miguel Antunes Figurinos: Flávio Tomé, Pedro Marques Costureira: Madalena Cabeças Luminotécnia: António Dionisio, José Miguel Antunes Designer Gráfico/Web: Pedro Marques Fotografia: Agência Zero Montagem: Luis Dias , Gonçalo Africano, Nuno Teixeira Direcção de Produção: Marco Martin

6 de Julho a 9 de Setembro
Quinta a Sábado: 22h
Domingos: 20h

Quinta da Regaleira - Sintra
Pelo Teatro Tapafuros

Mais informações: http://www.tapafuros.com/

sábado, julho 01, 2006

Uma mensagem do Imperador

再見 丹尼爾 (Goodbye Daniel) 我們很快將看見您 (veremo-nos em breve) 帶來啤酒 (traz cerveja) 並且輾壓紙 (e mortalhas).




sábado, junho 24, 2006

"Mon amour, l'aventure commence..."


Termina aqui a minha participação no sem registo.

Até sempre!

terça-feira, junho 20, 2006

O Extravagante (6): nas ruas da amargura.


Ele passeava pelas ruas da amargura, numa melancolia extravagante que só Ele sabe fazer sem complexos.
A causa dessa melancolia extravagante era nunca ter tido uma paixão extravagante em toda a Sua vida.
Ele só tinha medo de descobrir uma pessoa que fosse mais extravagante do que Ele.

domingo, junho 18, 2006

Democracia das Emoções (18): sarcasmo

O melhor amigo de infância dele e a melhor amiga de infância dela vão casar.
Eles estão separados: um do outro e das respectivas infâncias.

Toda a infância perdida é um convite de casamento sarcástico.

sexta-feira, junho 16, 2006

Democracia das Emoções (17): efeito secundário

Ela só queria um homem que a fizesse rir.
Ele só queria uma mulher que o fizesse chorar.

Hoje descobriram que vão ser pais.

O Impertinente (28): meios aéreos

Ela disse: "Está um rapaz a arder em cima do muro."

E foi então que alguém perguntou pelos meios aéreos.

terça-feira, junho 13, 2006

Sintoma (20): auto-terapia


Desmanchar

Sou roda que gira. Sou pedra que rola.
Sou sangue envenenado. Sou peão atropelado. Sou música e o eco na tua cabeça. Sou pombo depenado. Sou vagina e tenho duas coxas. Sou tempestade. Sou destruição e papel rasgado. Sou bailarina. Sou manca. Sou uma roda que trava. Sou uma pedra que parte. Sou abraço e a saia que enche. Sou literatura e a depravação dos copos. Sou obscenidade em cima da mesa quando rasgam a camisa. Sou tecla de piano batida furiosamente. Sou racionalmente desmanchada. Não consigo. Não consigo parar as veias que me mandam para a frente. Não consigo, mas quero! Quero abandonar este barco de amor e navegar em tábuas para naufragar até longe e encontrar uma ilha. Uma ilha...


sábado, junho 10, 2006

Democracia das Emoções (16): cônjuges e conjugalidades

Ele só quer dividir tarefas domésticas com alguém especial.
Ela só quer alguém especial para dividir tarefas domésticas.

Na experiência pós-romântica os ideiais de conjugalidade tendem a autonomizar-se dos cônjuges ideais: o (des)amor pelo cônjuge pode ser superado pelo (des)amor à prática conjugal.

terça-feira, junho 06, 2006

O Impertinente (27): imperativos de continuidade

Viveu sempre numa depressão pós-parto: sem nunca poder reclamar a paternidade da sua angústia.
Quando chegou a hora da morte descobriu-se filho de alguma coisa deste mundo.
Pôde então descansar com a certeza de que nenhuma angústia é totalmente desprovida de sentido.

domingo, junho 04, 2006

E foi assim que este chegou a mestre...


Rodin and The Thinker, Edward Steichen, 1902

sábado, junho 03, 2006

Sintoma (19): educadores

1) "PAIS VÃO AVALIAR PROFESSORES"

2) "PROFESSORES VÃO AVALIAR PAIS"

A educação é aprovada por excesso de faltas; os alunos reprovam por excesso de comparência.

quarta-feira, maio 31, 2006

o sorriso de uma árvore

pois, se calhar tens razão...

Fragmentos (de dia menos bom).

Há dias em que desenhar o sorriso das árvores não chega.

O Impertinente (26): falsa partida

Ele decidiu fazer como toda a gente faz: correr atrás da felicidade.
[1,2,3...partida!]
Quando olhou para trás, a felicidade ainda lá estava.

segunda-feira, maio 29, 2006

Toda a infância perdida é uma paternidade em potência...


Le temps qui reste, de François Ozon

domingo, maio 28, 2006

Fechado para obras (4): infância e paternidade

Às vezes, a criança que há nele desperta, para logo lhe perguntar:
"Pai?"
Toda a infância perdida é uma paternidade em potência.

sábado, maio 27, 2006

Memórias poéticas (9)


Robert Doisneau, Le Basier de L'Hotel de Ville, 1950

terça-feira, maio 23, 2006

Será que vou apanhar uma bengalada do poeta?

Inicío por dizer que até comento. Comento pois! Mas o tempo! Não o poema. Faz sol e está um calorzinho agradável. Digo que o poema não tem rima. Estão algumas nuvens no céu mais uns pássaros distraídos. Não sei a métrica. Não sei se vai chover. O poeta já morreu. Ventos a soprar moderado. Ah, é um soneto. Precipitação para amanhã, talvez. De resto, não quero ofender ninguém e tenho respeito pelos mortos. Mas até vou-me, pois tenho de fomentar (comentar) um poema. Preferia que chovesse.

segunda-feira, maio 22, 2006

Democracia das Emoções (15): porta aberta

Ele nunca se apercebe da presença dela.
Ela nunca repara nas ausências dele.

Ontem a porta ficou aberta: toda a noite.

domingo, maio 21, 2006

Memórias poéticas (8)

Depois do teatro dos sonhos surge a questão inevitável:

"Ainda dormes de luz acesa?"

quinta-feira, maio 18, 2006

Fragmentus Suburbia (14): desaceleração e violência do indesejado

Existe algo na desaceleração que convida ao auto-abandono.
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..
.
[estação terminal]

Um lugar sentado numa carruagem preenchida pode ser o local mais solitário do microcosmos suburbano.
No entanto, também é um ponto de escuta bastante privilegiado.

Aos murmúrios interiores raramente se concede um estatuto autónomo relativamente à caixa de ressonância.
No entanto, algumas caixinhas deixam escapar pequenos sons, queixumes, e outros gemidos.

[estação terminal]
.
..
...
....
.....
......
.......
........
.........
..........
A esta velocidade estamos condenados a passar despercebidos uns aos outros.
..........
..........
..........
..........
..........
A esta constância estamos condenados a esquecer o que somos e para onde vamos.

(...)

Existe algo na desaceleração que se impõe com a violência do indesejado.
E existe algo no transeunte que deseja o indesejado e que o submete à sua violência.

[próxima paragem?]

Democracia das Emoções (14): madrugada

Ela arranja as unhas.
Ele limpa os ouvidos.

Nenhum dos dois tem sono.

O Impertinente (25): herdeira

Ela disse: "Um dia vais compreender-me, filha."

Quando finalmente a compreendeu, já ela própria se tinha tornado alcoólica.

segunda-feira, maio 15, 2006

Perigo!

Caro(a) Gil Costa,
Caminhar ligeiro, sem deixar rasto...
Perder-se no ritmo dos passos seguros, no caminho traçado ao longo dos tempos, sentir o perfume do mar e a textura fresca de uma toalha estendida nos sonhos vividos a dois.
Esta semana mergulhamos fundo, acordamos com o cabelo molhado, vivemos cada dia na frescura de um momento, no calor da sensação. E porque o sol desenha uma linha curva no horizonte e a paixão incondicional marca o calendário da memória, preparámos para ti em especial um conjunto de propostas irresistíveis para umas férias de praia. Da paisagem ocre de Lanzarote ao azul profundo de Santorini, do charme de Búzios ao areal a perder de vista de Porto Santo, estamos contigo em cada chapéu de sol que voa ao sabor do vento, em cada passeio tranquilo pela orla marítima, em cada abraço apertado que fecha um ciclo, em cada beijo que sela um compromisso de eternidade.

Sorri, estás na Tagus!
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Ao que isto chegou! Digam-me lá se não assusta!

domingo, maio 14, 2006

Das sínteses originais (5): «sensation-seekers» e «fitness»

The great majority of people - men as well as women - are today integrated through seduction rather than policing, advertising rather than indoctrinating, need-creation rather than normative regulation. Most of us are socially and culturally trained and shaped as sensation-seekers and gatherers, rather than producers and soldiers. Constant openness to new sensations and greed for ever new experience, always stronger and deeper than before, is a condition sine qua non of being amenable to seduction. It is not 'health', with its connotation of a steady state, of an immobile target on which all properly trained bodies converge - but 'fitness', implying being always on the move or ready to move, capacity for imbiding and digesting ever greater volumes of stimuli, flexibility and resistance to all closure, that grasps the quality expected from the experience-collector, the quality she or he must indeed possess to seek and absorb sensations.

Bauman, Zygmunt (1998), "On Postmodern Uses of Sex", Theory, Culture and Society, vol. 15, no. 3-4, pp. 19-33

[os destaques a negrito são da minha autoria]

sábado, maio 13, 2006

A obstipação do filósofo antes de sair merda

..............ui!

Heresia

Fumá-la sem a cabala!

sexta-feira, maio 12, 2006

O Impertinente (24): ingenuidade

Ela disse: "Quando virem a idade passar, avisem-me."

Quando a idade passou por eles, já não havia nada a fazer.

terça-feira, maio 09, 2006

Teatro 373 apresenta: "Era uma vez um Dragão"

Local: Espaço Tapafuros (C.C. Belavista - Mem Martins)

Sábado, 13 de Maio: 16h30
Domingo, 14 de Maio: 11h30


Bilhetes: 5 euros

Como chegar ao teatro:

domingo, maio 07, 2006

Fragmentus Suburbia (13): à noite todos os gatos são pardos.

Subo a rua e olho uma última vez para trás, lá está a lua a sorrir entre aqueles dois blocos de betão. A luzes das casas estão apagadas, o dormitório já está cheio e só falto eu para estarmos todos recolhidos. O último comboio da noite passa na linha de ferro sem parar. É a noite dos comboios fantasmas, o gato preto está no sítio do costume, mesmo por baixo do chassis do carro vermelho.

O Impertinente (23): arrumações

Ele disse: "Tu és um símbolo do país."

Depois arrumou-o na prateleira.
(...)
("Ei! E a minha palmadinha nas costas?")

Homenagem (1) Erótico-itálicismo do amor.

Ele disse: Temos de pôr tudo isso a nu.
Ela disse: Temos de pôr tudo isso no caminho certo.

No fim eles disseram:

Temos de pôr tudo isso a limpo.

sábado, maio 06, 2006

"Depois fazemos outro."


L'enfant
Jean-Pierre e Luc Dardenne

Sintoma (18): interesse

"PORTUGAL NÃO INTERESSA A 85% DOS PORTUGUESES."

Será que os restantes 15% interessam a Portugal?

quarta-feira, maio 03, 2006

Judite.


Para evitar uma queixa-crime,
chamemos-lhe apenas Judite
(ou "a rapariga que snifa cola
e que tem sinusite").

Ora isso não a faz feliz:
é que quando se assoa
fica com o kleenex colado ao nariz.

Tim Burton in A Morte Melacólica do Rapaz Ostra & Outras Estórias

terça-feira, maio 02, 2006

Uma historieta com pouco sentido...viva ao surrealismo, há sempre a desculpa

Este saltimbanco estava frenético. Era habitual. A sua mancha de cores reluzia pelos passeios e a dança desajeitada alastrava um perfume de rosas e pétalas murchas. Um dia, e mais noutros ainda, aclamou que estava grávido e que iria dar à luz um livro de poesia escrito nos troncos das árvores de uma floresta. Que estranho personagem! Parecia encarnar o espiríto poético nas suas roupas luminosas e nos quadrados de linhas desajustadas do tempo. Estava abandonado. Vivia num banco...como sempre ali estivera...vivia preso na sua solidão de fenos e transes orgânicos em volta de palavras que ninguém compreendia. Muitos consideravam-no maluco, doido, chalado, maluquinho, doidinho, muito louco, mas era óbvio que o saltimbanco sublinhava-se no imaginário de todos.
História sem moral. Mas que moral poderia vir daqui...hmmm...tratem bem os malucos que até podem ter coisas giras para dizer?...não tomem drogas?... poesia em excesso acaba por fritar qualquer coisita dentro da cabeça?... vamos borrifar-nos na moral e cultivar saltimbancos...pois, é nisto que dá!

Sintoma (17): publicidade enganosa

"DAQUI A 10 ANOS VAI ARREPENDER-SE DE NÃO TER REPARADO NESTE ANÚNCIO."
Quando chegou ao fim da frase, sentiu-se 10 anos mais velho.
Voltou a ler e cairam-lhe mais 10 anos em cima.
Repetiu a leitura e avançou mais uma década.
Depois do jantar sentou-se na beira do sofá e pensou:
"Quantos anos precisarei para sentir arrependimento?"

O Impertinente (22): o consumo da crítica

Ele disse: "É preciso evitar a crítica superficial da sociedade de consumo."
Depois foi colocado na embalagem.

segunda-feira, maio 01, 2006

Os Chatos

"A verdade é que vivemos um moralismo legal mais asfixiante e petulante que qualquer teocracia da Antiguidade. Os decretos ministeriais metem o nariz em tudo, do brinde do bolo-rei aos galheteiros nos restaurantes, dos coletes retrorreflectores nos carros aos locais de piquenique. Os menores detalhes da vida privada estão estatuídos em leis, códigos, despachos. A grande parte dos debates políticos da sociedade actual ocupa-se, não de problemas públicos, mas da vida íntima. Num tempo que se julga livre de dogmas e censuras, o grande tema de partidos, deputados, portarias são os hábitos e costumes, o conforto e intimidade, os valores e opções. Não há paralelo na História para esta ditadura moral, nem sequer na república florentina de Girolamo Savonarola. Chegámos ao paroxismo de governos, baseados em maiorias ocasionais, se acharem com direito a redefinir conceitos milenares, como casamento e família, vida e morte."
in DN 01/05/06

domingo, abril 30, 2006

O Extravagante (5)


Ele queria pôr um nariz vermelho para se sentir um autêntico palhaço, mas só Lhe deixavam usar o preto e o branco e se pudesse evitar os cinzentos também não seria mau.
Ele achava que era mesmo preciso toda aquele exagero de cores para se sentir um palhaço, mas Ele não sabia que o seu palhaço era um Extravagante sem travões.
Ele só agora descobriu que para conhecer o seu palhaço, só precisa de tirar o pé do travão. Foi aí que Ele descobriu que o Seu palhaço não tinha nariz vermelho e nem sequer era a cores.

sexta-feira, abril 28, 2006

Lobo

"É preciso que o escritor se deixe apanhar pelo livro como se fosse uma doença".

Contou que a mãe o ensinou a ler quando, com quatro anos, esteve de cama com turbeculose. Lia os livros de Flash Gordon e Mandrake e os romances de cordel de uma empregada doméstica.
O avô, um oficial de cavalaria, achava que os livros eram coisas de maricas.
Outro avô, que vivia em Nelas, apenas lia os obituários.
Lobo Antunes imita então o avô, como se estivesse a ler o mesmo jornal: "Ele dizia: 'Que idiota, morreu aos 42 anos. Que tonto, morreu aos 51 anos.' Esse era o seu triunfo, ser mais velho que aqueles que morriam.
Eu comecei a escrever os obituários do Flash Gordon e do Rato Mickey, estas foram as minhas primeiras influências literárias".
in DN, 28/04/2006

..
.
Quem me dera la chegar aonde este homem chegou sem cair num daqueles obituarios.
Diria de mim, "Que idiota, perdeu-se de si aos 20 e poucos anos"

quinta-feira, abril 27, 2006

Terrorismo no Metropolitano de Lisboa!!!

James Blunt voltou a ser o artista da semana...

Fragmentus Suburbia (12): a ilusão da continuidade

Hoje, na 1ª página de um diário suburbano, coabitam os seguintes títulos:
1) "1400 Homicidas ao Volante"
2) "Menos Suicídios"
Na estratégia de um jornal gratuito, não basta dar a notícia: é preciso torná-la apetecível e, no mesmo instante, legítima, necessária, natural.
O isolamento da experiência reproduz-se todos os dias, quando o transeunte recebe nas mãos a ilusão da continuidade:
"GRÁTIS".

Descubra o que esta errado :

Confrontado com a afirmação do presidente do BCP, de que a administração do BPI terá reagido com emoção, Ulrich afirma "é preciso ter muita lata".

terça-feira, abril 25, 2006

Liberdade, liberdade!

"Em 50 anos a poesia não saiu à rua,
em Portugal. E era urgente.
Em 50 anos a solidão foi palavra de ordem.
E o céu era tão azul, afinal.
Como é possivel, 50 anos?"

Rui Mário

domingo, abril 23, 2006

3)

Vendo Canon EOS 350D + 18-55mm + 55-200mm + grip BG-E3.
"Traga mais vida à sua fotografia."

(2)

Ainda bem que tenho fotografias: senão morria.

(1)

Ainda bem que não tenho fotografias: senão morria.

O Impertinente (21): fora de jogo

Não era particularmente vencedor ou perdedor.
Em boa verdade, nem sequer era jogador.
No entanto, ganhava sempre por falta de comparência:
Dele próprio.

Democracia das Emoções (13): o trabalho conjugal de desconjugalização

Ela encolhe os ombros.
Ele tapa a cara com as mãos.

"Nós não somos um casal" - dizem eles em uníssono.

Depois sorriram para a câmara.

O Impertinente (20): fotogenérico

Ele disse: "Eu não sou fotogénico. Sou mais do tipo fotogenérico."

Depois baixaram-lhe o preço.

Última mensagem de uma Vaca aos seu vitelo mais novo antes de se tornar bife.

Há erva e erva.

Há a que dá pra pensar como os artistas, há a que dá para pensar como os filósofos, há a que dá para pensar como os cientistas ou como os ignorantes. Há a que dá para adormecer como os bêbedos, sonhar acordado como os loucos. hH a que dá para pensar na vida ou aquela que dá para esquecer da vida, há aquela que não te diz nada e aquela que te faz dizer tudo, aquela que te deixa perdido em ti ou com os olhos postos no mundo. Há erva que nos apaixona ainda mais ou que nos deixa sobrevoar pela rotina. Há erva fotográfica, há erva videográfica, há erva literária e musical. Há erva para a cidade, erva para a paisagem, erva para muitos amigos, erva para só nós quatro. Há erva de nomes mirabolantes, de lugares distante. Há erva com mais ou menos cheiro, mais ou menos rápida, mais ou menos duradoura.
Há erva azul, amarela, cinzenta, vermelha, castanha, branca, preta.
Há erva e erva.
Mas a minha preferida é a verde.

É preciso!

É preciso dizer às crianças que o Pinóquio e a Alice existem.

Depois de ler o mestre Almada.

Cada um pegava no seu aparo para começar a desenhar, o copo com àgua tingiu-se de preto, a folha ficou molhada e o aparo, afiado e crespo, jorrou tinta em cima da folha. A folha, fragilizada pela água, rasgou-se com a força com que cada um carregava no aparo. Cada um modou de folha para recomeçar o desenho.
Foi assim que cada um chegou a mestre.

sexta-feira, abril 21, 2006

[pausa]


Butterfly Affect by Dale Wicks

PS: Fui procurar borboletas. Até já.

Punch Drunk Love (revisited)


quinta-feira, abril 20, 2006

Estórias d' Anjos

Foto de Carlos Ramos

"Um Anjo conheci, vivia longe mas perto, habitava aquele lugar vazio, o lugar da alma e por isso a alma era tudo o que havia no mundo. Era paz e árvore e luz eléctrica e flor. Era céu e terra e mar. Era palavra."

Rui Mário

segunda-feira, abril 17, 2006

O Extravagante (4)

Foto de João Vicente
Ele sabe que o que está na moda é o absurdo e o anacrónico. Tudo está fora do seu sítio, e fica bem. Fica bem dizer que se gosta de bandas desenhadas absurdas, que se gosta de artistas absurdos. Ele sabe isso e quer mudar, mas mudar modas não é para todos, e Ele sabe que é difícil fazer com que as coisas tenham sentido: "Cada coisa no seu lugar"-pensou Ele.
É que para Ele, ser absurdo é demasiado fácil. Ele foi dormir com este pensamento na cabeça, apaga a luz do quarto e deita-se na cama para acordar no dia seguinte, antes do amanhecer.
Ah, é verdade! Alguém que apague a luz da cozinha.

Fechado para obras (3): sentido prático e dissolução biográfica

"MANUAL PRÁTICO DO SENTIDO PRÁTICO DO MUNDO".

À medida que ia lendo, as páginas eram consumidas pelo sentido prático da leitura: quando colocou o livro na estante só sobrava a capa; quando voltou a pegar na capa só sobrava o título; quando releu novamente o título, a biblioteca de uma vida inteira tinha desaparecido.

Democracia das Emoções (12): fazer história

Ele decidiu ignorar a história anterior ao encontro de ambos.
Ela decidiu acreditar no momento histórico do encontro de ambos.

Fazer amor é fazer história.

sábado, abril 15, 2006

Sintoma (16): paliativos


A problemática do trânsito intestinal ocupa um lugar cada vez mais importante no espaço mediático: sucedem-se os anúncios televisivos com promessas de alívio e satisfação imediatos.

Tal como para o trânsito rodoviário, chegará o tempo das rubricas matinais para o trânsito intestinal: todos os dias um convidado diferente e um funcionamento intestinal único.
Brevemente, os debates da nação serão substituídos por seminários públicos de gastrenterologia, os profissionais do sector serão premiados em galas anuais, a indústria farmacêutica tomará conta do mundo a partir das insuficiências intestinais de cada consumidor.
Num futuro próximo, ninguém conseguirá escapar à hegemonia dos paliativos intestinais: até os mais desfavorecidos terão direito a umas drageias made in China.

Mas, apesar de tudo, ficará a faltar um derradeiro passo para o fim da história: quando a produção de paliativos intestinais for definitivamente convertida em produção de paliativos existenciais.
Haverá estômago que resista?

quinta-feira, abril 13, 2006

O Extravagante (3)

Ele estava sentado numa namoradeira, num daqueles sítios antigos com um palácio antigo mesmo ao lado. Enquanto ouvia as máquinas fotográficas dos turistas a disparar, apontava as ideias que lhe vinham à cabeça num daqueles cadernos cheio de folhas brancas.
Uma mulher estrangeira pede-Lhe que tire uma foto com o palácio a fazer de cenário. Quando Ele se vira para a namoradeira onde estava sentado vê que agora esta está ocupada por dois namorados.
Chateado com toda aquela falta de sorte e inspiração, Ele atira o seu caderno ao ar que se desfaz em mil folhas soltas. Aquele par de namorados lembrou-Lhe de que havia uma Revolução sem causa para preparar.

O Impertinente (19): medo

Morria de medo de ficar sem nada para dizer.

Quando acordou disseram-lhe que nunca esteve vivo.

terça-feira, abril 11, 2006

O Impertinente (18): inadaptado

Embora ele esteja particularmente atento às letras minúsculas do amor...

...no pós-romantismo só existem slogans em LETRAS GARRAFAIS.

segunda-feira, abril 10, 2006

O Impertinente (17): negação e afirmação

Ele disse: "Eu não sou actor."

Depois ouviram-se aplausos.

sábado, abril 08, 2006

Miúdos


Daremo Shiranai (Ninguém Sabe) de Hirokazu Kore-eda

quarta-feira, abril 05, 2006

Democracia das Emoções (11): encontro

Ele passou os últimos anos a fugir de mulheres grávidas.
Ela passou os últimos meses à procura de um pai.

Ontem encontraram-se: contra todas as possibilidades objectivas.

segunda-feira, abril 03, 2006

Democracia das Emoções (10): consciência e acção

Ela disse: "Existe entre nós um fosso intransponível."

Depois tirou-lhe a gravata.

domingo, abril 02, 2006

Sintoma (15): condição pós-romântica e estatuto das metáforas

A condição pós-romântica pode ser definida a partir do estatuto das metáforas.

Durante algum tempo, a metáfora do jogo era utilizada para definir o envolvimento amoroso.
Hoje, a metáfora do amor é utilizada para definir o jogo, a performance, e a estratégia.

Afirmar que o amor é um jogo equivale a cair num lugar comum.
Mais apropriada é a seguinte afirmação: não há jogador que despreze a componente emocional.

O amor só se tornou num jogo na medida em que a contaminação metafórica venceu o princípio da realidade.
Por outras palavras, a metáfora converteu a realidade.

Chegará o tempo em que a realidade deixará de ser metáfora.
Chegará o tempo em que os amantes deixarão de ser jogadores.

Mas, até lá, já muito se terá jogado.
E muito se terá perdido.
Para sempre?

sábado, abril 01, 2006

Sintoma (14): disfunção eréctil


Embora para alguns seja parte da solução, na propaganda médica contemporânea, a disfunção eréctil é parte do problema.
Quando o corpo deixa de estar à altura daquilo que lhe é exigido, tanto o diagnóstico como o tratamento se impõem com as garantias científicas do necessário e do incontornável.
Disfunção eréctil e medicação compulsiva são duas componentes do mesmo sistema de controlo social: a colonização médica-científica de todos os parâmetros da existência humana.

Por outro lado, tanto o diagnóstico como o tratamento parecem evocar aquilo que julgávamos em vias de extinção: a sexualidade falocêntrica e a ditadura das emoções.
A cumpulsividade sexual é reactualizada através dos comprimidos azuis.
E estes são o suporte material da calamidade pós-romântica: quando o princípio da performatividade unidimensional se sobrepõe a tudo o resto.

Todos os caminhos vão dar ao falo: em nome da técnica, da ciência, e de um certo estilo de vida, somos capazes de perpetuar o vazio, o absurdo, o inumano.
Haverá sexualidade que resista?

quinta-feira, março 30, 2006

...

Já ninguém dá Amor de graça: descobri a pólvora minha gente.

Tu cidade

Quero agarrar-me a esta cidade e marchar pelo rio adentro, ter a audácia de destruir ondas e partir barcos. Quero estar de vigília e perder-me no grito das gaivotas ao fim de tarde, gritar também eu, gritar o meu sangue. Quero ser guitarra, corda suada e batida, corda desnudada e amaciada. Trazes a minha tristeza dentro de ti, meu testemunho pedonal, meu lamento profundo, meu suspiro escondido no bolso pela mão cobarde. Agora, perdes-me em tuas ruas porque é isso que te peço. É isso que te suplico quando canso-me nas calçadas e esfolo-me nas lamas obscuras que tens. Abres-me a liberdade, porém desgastas-me contra as pedras sujas. Não é justo quando me dás espaço e eu corro, corro, corro enquanto tropeço nos sonhos, nas encruzilhadas, tantas e embaraçadas que não sei, não sei por onde seguir...quero ir até ao rio e ser gaivota para denunciar a tempestade na terra. Dá-me o teu mistério para que te conheça sem fim.

quarta-feira, março 29, 2006

Fragmentus Suburbia (11): amor próprio

É incrível como a pressa de chegar pode dar lugar ao auto-abandono.
O sentimento contagiante de transitoriedade tudo trespassa: até a urgência.
E quando olhas lá para fora, esqueces-te.
Haverá amor (próprio) que resista à hora de ponta?

O Impertinente (16): projecção e auto-desconhecimento

Ele disse: "Quando vou ao mar descubro sempre novas coisas sobre mim."

Quando voltou a si, descobriu que nunca tinha ido ao mar.

terça-feira, março 28, 2006

Vizinhos.

Eles gritavam à hora do jantar.
Eles nunca tinham lido um poema de amor.
Eles nem sequer tinham posto a máscara antes de começar a falar.

segunda-feira, março 27, 2006

Anuncio de Jornal

Alma minha gentil, que te partiste, trespassa corpo inocuo e perdido.

Em razoavel estado, usado 4 anos apenas, em felicidade extrema.
Com acentuada dificuldade em arrancar. A precisar de afinacao no engasgamento da palavra, (como aquelas que se fazem aos pianos) e introducao de objectivos principalmente na area futura.

Um ano de garantia, (valida durante o periodo equivalente ao horoscopo 2006, propicio a mudancas).

Documentos em ordem, legalizado, e acessivel.
Manutencao capilar pouco frequente, higiene dentaria em dia, mudanca de ares feita a pouco tempo.


Contactar o proprio, com jeitinho e educacao (para nao assustar).

sábado, março 25, 2006

Democracia das Emoções (9): consequências da intimidade

Ele engolia todas as palavras que não conseguia escrever.
Ela escrevia todas as palavras que não conseguia engolir.

No final, ele ficou com as páginas em branco e ela com os analgésicos para as dores de barriga.

Sintoma (13): a ideologia da medicação

Ela disse: "É preciso respeitar os ritmos biológicos do corpo humano."

Depois receitou-lhe uns comprimidos: para que as intermitências do bailado não comprometam o próprio bailarino.

O Impertinente (15): a queda

Ele era
tão
tão
tão
que nem ele próprio aguentava.

terça-feira, março 21, 2006

"Era Uma Vez Um Dragão"


Texto: António Manuel Couto Viana
Encenação: José Henrique Neto
Interpretação: Daniel Figueiredo, João Vicente, José Redondo

Dias 25 e 26 de Março (Sábado e Domingo) pelas 16h30 no Espaço TapaFuros (Estúdio Doiséme) em Mem-Martins. Entrada Gratuita.

Um espetáculo a não perder... MESMO.

sexta-feira, março 17, 2006

"There is no such thing as monsters."


History of Violence, de David Cronenberg

quinta-feira, março 16, 2006

O Impertinente (14): fé e salvação

Ele não acreditava em super-heróis...

...até ao dia em que precisou de ser salvo.

quarta-feira, março 15, 2006

O Impertinente (13): fora do tempo

Não era particularmente azarado ou especialmente sortudo: apenas não reclamava os prémios a tempo.

terça-feira, março 14, 2006

Fragmentus Suburbia (10): pendularidade e desresponsabilização

Tens razão:

Dentro de um comboio suburbano, conceptualizar a urgência pode ser uma tarefa tão desgastante como inútil.

Memórias poéticas (7)

domingo, março 12, 2006

O Extravagante (2)

Ele tem vindo a desenvolver um fetiche pelos telefones das casas alheias, Ele acha que os telefones dizem muito sobre uma pessoa.
Quando Ele encontra um telefone igual ao que tem em casa, tem orgasmos múltiplos e rejubila de felicidade.
O que Ele precisa é de uma mulher ou então de revistas porno que o façam tornar num homem de barba rija.

O que Ele mais detesta são telefones sem fios.

sábado, março 11, 2006

O Impertinente (12): sexualidade, teorização e risco

Há quem transforme grandes edifícios teóricos em episódios sexuais arrojados.
E há quem converta a sexualidade episódica numa fabulação teórico-especulativa.

Ele usa perservativo.

O Impertinente (11): impostos e impostores

De minimalismo em minimalismo, acabaria por se tornar num minimalismo dele próprio.

Embora se tenha esforçado, ainda pertence ao mesmo escalão do IRS.

quinta-feira, março 09, 2006

O Personagem Dançante

Sentaste-me à tua frente. Vi que havia um copo de vinho abandonado em cima da mesa. Senti-me seduzida pela sua cor quente e picante. De súbito, profetizei uma noite de sabores apaladados. Entre nós havia uma mesa e na mesa havia uma vela semi queimada semi não queimada. No meio de nós havia as palavras. Aliás, foi por causa disso que estava ali, naquela noite. Por causa das PALAVRAS. Assim, leste versos de um qualquer livro de poesia, de um autor que não me lembro, de um autor que conheço, mas não me lembro, de um autor que desconhecia e continuo a não saber o nome, mas sei os seus versos e, isso, acho que faria o poeta feliz. Na tua poesia, não tua, mas tão tua, tão aguçada nos teus lábios, tão acutilante nas pausas líricas, perdi os sentidos, não encontrei sentido nos versos, não encontrei o meu sentido, mas ouvi o desejo de beleza dos poemas, ouvi a Vida primitiva dos ritmos da linguagem. E bastou-me. Entretanto, já nem ligava ao escorpião que vagueava sobre as minhas mãos pousadas na mesa. Acho que lhe quis dar um pouco de açucar, mas o inútil recusou...pena a tua...que não tens penas...pensei que o dito escorpião já me deveria ter atacado com o seu veneno para solucionar aquela noite, mas ele estava incansável nas suas danças exóticas com as suas patas estranhas...eventualmente, acabei por desprezá-lo e fiquei a ouvir poesia.

Democracia das Emoções (8): cumplicidade e comunicação

Ele encontrou a forma mais silenciosa de o dizer.
Ela descobriu a maneira menos barulhenta de o ouvir.

Durante o sono, todos somos cúmplices: das formas de o dizer e das maneiras de o ouvir.

Democracia das Emoções (7): a divisão do trabalho conjugal

Ainda que apenas ela tenha coragem para o dizer, só ele terá a cobardia de o conseguir ouvir.

Democracia das Emoções (6): mínimo denominador comum

Apesar de pertencerem a mundos diferentes...

...utilizam o mesmo ecoponto.

terça-feira, março 07, 2006

A Naifa (novo álbum).


"Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior para debaixo da cama."
João Miguel Queirós

domingo, março 05, 2006

Sobre as memórias.

Ele só tinha uma esperança: não deixar morrer as memórias que tinha encontrado naquele lugar. Era crucial reavivar as memórias ou deixá-las de vez. Nesse lugar, onde a música faz de nostalgia, ele deixou cair as memórias da mesma maneira que as tinha agarrado: a dançar. Ele voltou ao lugar para ter a certeza de que aquilo tudo não passava de um sonho e por lá deixou as memórias boas e más. Ali, onde se faziam rodas, misturavam-se os pós magicos que as cinzas iam soltando.
Cinzas de mil memórias, à espera que a senhora da limpeza as leva-se como se fossem as cinzas de serpentinas caídas no chão.

E foi assim que ele se tornou Pós-Romântico.

sábado, março 04, 2006

Subsidiarismo (3)

Caso o Poeta se mostre relutante em abraçar o interesse público, eis a solução infalível: subsidiar a aquisição de telemóvel e/ou subsidiar os desencontros amorosos entre moços e moças disponíveis, interessantes, sem doenças e/ou deformidades manifestas e/ou latentes.

Subsidiarismo (2)

Tendo em conta o teor e a recorrência das confissões que Pedro Mexia recebe via sms, creio que já se justificava um subsídio ou, na melhor das hipóteses, um cargo na função pública.

Subsidiarismo

Quando «o mercado» não funciona, há que exaltar o subsidiarismo: eis uma fórmula que ganha eficácia à medida que o mercado vai falhando.

sexta-feira, março 03, 2006

Em Coimbra.

E está tudo dito...

quinta-feira, março 02, 2006

O Impertinente (10): alheamento

Ele disse: "A capacidade de ouvir conversas alheias é inversamente proporcional à capacidade de escutar o nosso próprio alheamento."

Quando olhou em redor, reparou que só havia uma cadeira desocupada: a dele.

O Impertinente (9): resumo

Ela disse: "Como vês, a minha vida não se resume só a ti."

Embora não o pudesse adivinhar, aquela frase resumia toda a sua vida sentimental.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Democracia das Emoções (5): recomeço

- Onde é que tinhamos ficado?
- No fim.
Depois tiraram as máscaras: um ao outro.

Democracia das Emoções (4): lágrimas

Ela disse: "Talvez seja da falta de lágrimas."

E foi então que as lágrimas secaram por completo.

domingo, fevereiro 26, 2006

do que diz o objecto de estudo.

“Aos que disseram uma vez, ares nostálgicos e sorrisos compreensivos de teóricos esclarecidos e de gente madura – vivida –, e até muito mais que uma (eu incluído, sim, eu incluído, sem dúvida nenhuma, para que não digam que não sei do que falo), que, para bem da arte e da literatura, para bem do génio da Humanidade, escrevessem sobre o amor apenas e só aqueles que estão de fora a ver, com os olhos neutralizados pela abençoada (oh, tão abençoada seja) cientificidade dos que não ganham nem não dão nada, rigorosamente nada (e até é por isso mesmo que se chamam neutrais); a esses eu absolvo, como seu santo padroeiro que tenho sido; absolvo não: antes abandono, em reconhecida renúncia a toda a iconologia precedente. Ficam sem deus, e adeus!, que hoje escrevem todos melhor, infinitamente melhor do que eu.”

disse ele, e atirou rapidamente as malas para o porta bagagens e entrou no carro para ir ter com a namorada.

Resposta de um Bigodinho Simpatico a perguntas sobre Amor!

"Liebe Macht Frei"

sábado, fevereiro 25, 2006

Sintoma (12): pós-romântismo e memória poética

"Surpreende-me!": eis o slogan que ameaça tomar conta da vivência amorosa.
Houve um tempo em que nada disto fazia sentido: as promessas eram outras.
Talvez por isso o desencantamento pós-romântico não seja de fácil aceitação.

Há quem diga que o sonho de uma nova ordem amorosa está enterrado.
Enquanto permanecer a desordem real e/ou cognitiva apenas resta uma esperança.
Ironicamente, o pós-romântismo está condenado a revisitar as ruínas do romântismo.

E todos nós, sem excepção, estamos condenados a revisitar os lugares onde fomos felizes.

Sintoma (11): ditadura do humor e verdade amorosa

A prevalência do riso sobre o sorriso nas narrativas amorosas é um dado incontornável da vivência contemporânea.
A ditadura do humor institui um estado permanente de calamidade pós-romântica: os amantes esforçam-se arduamente na busca da verdade humorística.
Um esforço identitário e relacional que transforma radicalmente as regras do jogo: a verdade amorosa já não é o que era.

Fazer rir.
Ter piada.


Poderá o casal pós-romântico aspirar à auto-compreensão das suas convulsões emocionais?

Com uma pitada de humor, tudo é possível: até a mais desencantada das ilusões.

Sintoma (10): comédia romântica

O Amor está a tornar-se um lugar desnecessariamente complicado: entre a ditadura do humor e os disparates pós-românticos, todos somos estranhos e auto-suficientes.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Carta aberta a um Jornal, escrita por um simples que ate le umas coisas...

"Mandala dispensou dois manipuladores"

A principio, confesso, a confusao gerou-se porque li mal o titulo.

Para mim "Mandela dispensou dois manipuladores" soava-me bem, soava-me familiar, soava-me heroico. Mandela, aquela Pessoa de um outro planeta distante habitado por uma estranha especie de "Homens Justos", ou la como se chamam essas coisas, teria dispensado dois acessores manipuladores que o teriam querido afastar da sua luta pelo seu povo nos fins do Apartheid, com propostas aliciantes cheias de dinheiro Branco ou cargos na Onu. E este caso so agora se vinha a conhecer visto Mandela, fazendo jus aos seus super-poderes de "Homem-Bom", ou la como se chamam essas coisas, ter guardado segredo para salvaguardar as familias dos tristes manipuladores de um ataque em furia do seu povo,verdadeiro amante do Presidente Mandela. Incrivel! Que homem!
...
Mas depois continuei a ler a noticia. Afinal foram os manipuladores de marionetas (a recibos verdes) que foram dispensados por uma empresa de manipuladores de marionetas chamada Mand(a)la...
.
Fiquei triste, pois. Por um lado tiraram-me a alegria de ver uma noticia com um pouquinho da virtuosidade de outros tempos, de outros homens. Pensei, por um instante que "era agora, pode ser que inspire alguem!"
Por outro lado revelaram-me que ate os mestres da manipulacao (e seus assistentes) estao presos a recibos verdes. O que apenas revela que por detras de um manipulador ha ainda outro manipulador, este ultimo ainda mais chefe. E por detras deste ainda estara outro. E por ai adiante...
No fim quem se lixa e sempre a marioneta, que se nao esta caida no meio do desterro, esta estupidamente obediente a ditar as estupidezes dos manipuladores.
..
Depois de tanto estremuchamento logo de manha, senti-me tao Cunhal que nao consegui tomar o pequeno-almoco descansado. Tive de dizer a Madalena para me levar a sandes de salmao e trufas e para me trazer uma caneca de cevada e uma torradita. Passei a manha toda com ares de pobreza...
..
Caro Editor,
Peco, encarecidamente, que tenha mais cuidado na hora de publicar titulos que possam levar a segundas interpretacoes socialmente conscientes.
Nao cai nada bem, principalmente na hora do mata-bicho.

Cumprimentos Cordiais

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Deve ser mesmo da idade.

Engraçado como nos queremos sempre mais velhos e mais sábios do que realmente somos. Eu estava mesmo convencido de que sabia tudo sobre o Universo, no entanto sobre mim sabia muito pouco. Foi então que, um dia, ao expor o assunto me disseram que isso passava - "é da idade!" - diziam eles.
Pois eu estava mesmo convencido que não me havia de surpreender com mais nada a não ser comigo próprio, mas realmente há sempre alguém que aparece para nos surpreender e tornar esta vida bem mais interessante. Foi então que mandei tudo às ortigas e fui dormir uma sesta, à espera de acordar com um telefonema com uma declaração de amor.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Educação paralela

As matérias foram aprendidas ou despejadas para o fundo de pó das coisas inúteis. Os apontamentos, desorganizados e desapontados na arca, foram escritos sob o comando do chefe. Positivas que foram negativas...sempre negativas! No final, fiquei a saber nada...é certo, uns reis e duas guerras. A tarefa de me educar está caducada. Agora, só resta acarretar as consequências daquilo que sou, pois já fui educada: a música ensinou-me a escutar as pormenores e a dançar nos contratempos, as histórias e a poesia deram-me raízes de deusa e sonhos de criança, a serra soprou-me gritos de folhas e alquimizou-me em mistério, os loucos despiram-se da sua pele e gritaram-me a essência do imaginário profano e insano, um beijo encheu-me o coração e fez-me perceber as palavras amorosas abandonadas nos becos, as conversas aborreceram-me ou deram-me mundos fundos de selvas e savanas, o sábio olhou-me e não disse nada enquanto escrevia um novo livro. Jogo os meus cartões da sorte, com positivas ou negativas, sem números, cálculos e contas. Se me apetecer, desta vez, três mais três será sete.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mestres.

"Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta o universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravara letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."

José de Almada Negreiros

O Impertinente (8): o «caso» Luís Capucho

Quando o homem não faz a tese...

...a tese faz o homem.

domingo, fevereiro 19, 2006

sobre o jogo.

Inveja das músicas, inveja das músicas.
As músicas são para ninguém, as músicas são só para dar, para oferecer, de maneira que o que conta para a música é quem fala, é quem escreve, quem dedica.
A música é o fantasma que vai de nós a quem queremos: se ela quer, então sim senhora, a música é voz nossa e nossa apenas, ou seja, se ela quer, a música é dela, toda dela e só para ela em especial; se não quer, logo largamos o fantasma e não temos nada a ver com aquilo, “é só uma música, só uma música” e de repente não é nem de ninguém, nem para ninguém.
São tão egoístas, tão egoístas que chegam ao ponto de não precisar de esconder nada.
As músicas...; as músicas são o orgulho humano; o orgulho humano numa prateleira, para usar e abandonar conforme dá jeito.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Democracia das Emoções (3): jet lag

Ele chega antes dela partir.
Ela parte antes dele chegar.

Às vezes apanham o mesmo avião.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Desabafo politico-sentimental de um simples que ate le umas coisas.

Nos tempos que correm sinto-me, a maior parte das vezes, extremamente desvalorizado...

Ando desinvestido.
Evoluindo negativamente num cenario de crise, globalizada em cada pedaco de mim. Aos poucos, sinto que a minha alma deixa de ser competitiva, deixada perdida por tantos objectivos dispersos, abandonada algures entre a curva descendente da minha motivacao.
Sinto que me descapitalizo. O meu corpo, pouco produtivo, nao aguenta mais o dia-a-dia de competitividade entre a minha sede e o meu figado. Bebo mais do que aquilo que posso pagar e confesso que, nas noites em que me sinto mais so, antes de adormecer, penso acabar com tudo isto e apresentar falencia tecnica, moral e amorosa.
Nunca conseguirei, estou certo. Custa-me demais o esforco que tenho dispender para contornar a minha burocracia catolica.

Nos (poucos) momentos de empreendedorismo, publicito-me pelas ruas da amargura. Fico na espectativa de que alguem, especialmente bonito, me lance, (de caras, estilo ora toma!) uma OPA, de preferencia nao muito hostil.

Picardias!

Ele, no seu jeito altivo do costume, retirou o cachimbo da boca e proferiu o pensamento do dia, diante do ouvinte ausente:
"A constância só é boa para os ridículos"
.
..
Depois, deixou-se ficar...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Corações de papel.

Hoje, mais do que corações de papel a serem distribuidos na rua, havia flores e velhinhos convecidos de que tinham as namoradas mais bonitas do mundo.

Democracia das Emoções (2): entrar e sair

Ela limpa os pés antes de entrar.
Ele limpa os pés antes de sair.

Às vezes trocam.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Fechado para obras (2): imunidade e felicidade

A imunidade é um privilégio: "o privilégio de estar isento de algo a que os outros estão sujeitos".

Talvez a imunidade à felicidade seja o maior dos privilégios: estar sujeito à felicidade dos outros pode ser muito pouco satisfatório para a felicidade pessoal.

E talvez o maior dos privilégios seja, afinal de contas, apenas o melhor diagnóstico da infelicidade pessoal.

domingo, fevereiro 12, 2006

Diário de um simples que até lê umas coisas-1

"I believe that, through the act of living, the discovery of oneself is made concurrently with the discovery of world around us, wich can mould us. A balance must be established between these two worlds - the one inside us and the one outside us. As the result of a constant reciprocal process, both these worlds come to form a single one. And it is this world that we must communicate." Henri Cartier Bresson.

Querido Diário

A príncipio esta frase deixou-me estúpido. Não estava nada à espera, devo confessar, de ler uma coisa que me dissesse tanto, escrita por um fotógrafo. Não é de esperar que os fotógrafos escrevam coisas que nos toquem tanto. Ainda por cima uma frase saída da Enciclopédia das Filosofias Baratas. Não estava à espera mas tocou-me.

Há que respeitar o senhor. Há que sempre respeitar um senhor que tira fotografias como este senhor as tirava. São olhos de outro mundo, sensíveis a uma luz própria, que vêem um outro mundo (não obstante ser também o nosso) onde não nos quisemos dar ao luxo de entrar.

É o mundo da Magnum.

Por vezes gostava de ser aquele soldado espanhol morto na guerra civil. Só para poder entrar pela lente do Robert Capa, só para poder ser tornado em sais de prata, tornado contraste entre preto e branco, só.

Como isso já não é possível, espero ao menos ganhar o Euromilhões.

sábado, fevereiro 11, 2006

O TeleVisionário (5): quarto de hóspedes

Ela disse: "O mundo é um tê zero."

E depois foi para o quarto de hóspedes.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fragmentus Suburbia (10): atrasos.

Nem tudo está assim tão cornometrado e ligado como podemos pensar.
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".

Gramaticas

Os acentos a mim nao me comovem.

O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
.
Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

hUm

Ontem tinha tanta coisa para dizer. Ontem a noite tinha-me por inteiro na ponta da lingua!
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sintoma (9): autor e autoria

Pior do que ficar refém das próprias palavras:

...desconhecer o valor do seu resgate.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O Impertinente (7): desencontro

"Não saio daqui enquanto não escrever umas palavras."

Quando elas apareceram, ele já lá não estava.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Fragmentus Suburbia (9): prazo de validade

É preciso fugir.
É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.

No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Há um tempo para a fuga e um tempo para a permanência.
Tempos que se cruzam, sentimentos que coincidem.

A linha que vai dar à saída é a mesma que reencaminha para a entrada.
Por isso, é preciso saber esperar...
...enquanto é tempo.

Interrupção

- O seu bilhete, por favor?
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo por nossa conta.

Foto de Carlos Ramos

O frio do Inverno congelou as nossas lágrimas de saudades. O mar estava à nossa frente e o vento sussurrava poemas de amor. Ficámos a ver o Sol a desaparecer à medida que íamos fechando os olhos, à medida que o chão e o céu desapareciam, à medida que largávamos a tristeza que nos inundava o sangue. Havia qualquer coisa que nos percorria o corpo, qualquer coisa que ia das lágrimas à ponta dos pés.Pouco a pouco, o mundo ia-se tornando nosso, aquela paisagem ia-se tornando nossa. Os cabelos loiros de um pequeno príncipe apareceram no sítio onde o Sol se escondeu. Estava tudo por nossa conta e do pequeno príncipe... era só abrir as asas e voar.

terça-feira, janeiro 31, 2006

David Cronenberg na Cinemateca


Stereo: 5ª, 2 de Fevereiro, 19h30

Crimes of the Future
: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h

Shivers
: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30

Rabid
: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h

Naked Lunch
: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30

The Brood
: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30

Scanners
: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30

Videodrome
: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h

The Dead Zone
: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30

The Fly
: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h

Dead Ringers
: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30

M. Butterfly
: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h

Fast Company
: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30

Crash
: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h

eXistenZ
: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h

Spider
: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30

A History of Violence
(antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30

Sintoma (8): o trabalho poético de despoetização

Ela disse: "A vida não se confunde com a arte."

Em seguida, nasceram flores.

Ela debruçou-se para colher o poema.

domingo, janeiro 29, 2006

O Extravagante.

Num daqueles dias cheios de Sol, o Extravagante estava em casa farto de pensar de mais. Na verdade o facto do dia ser daqueles cheios de Sol é absurdamente insignificante para a narrativa deste pequeno excerto da vida quotidiana e "pacata" do Extravagante. Também não me interessa muito fazer a descrição fisica e psicológica do dito cujo, uma vez que assim posso tornar esta personagem imprevísivel e livre de qualquer responsabilidade moral.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.

sábado, janeiro 28, 2006

Educação televisiva (3)

A educação televisiva é feita de pequenas revelações.
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:

"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"

Educação televisiva (2)

A educação televisiva é feita de pequenos equívocos.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.

Educação televisiva (1)

A educação televisiva é feita de pequenas derrotas.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Músicas...

Preciso de silêncio total para escrever. Silêncio total, não! Preciso de ouvir os barulhos do vizinho tão entranhados em mim preciso de ouvir os carros que passam preciso de ouvir as conversas esvaziadas no espaço preciso de ouvir a trela irrequieta de cão ainda mais irrequieto preciso de ouvir o suspirar preciso de ouvir a gotejar preciso de ouvir o salto alto de coxa firme preciso de ouvir murmurar segredos preciso de ouvir o latejar de uma veia preciso de ouvir um cantarolar expoente de lirismo preciso de ouvir novos conselhos preciso de ouvir as pausas preciso de ouvir o coração derramando rios de emoções preciso de ouvir chuvas em transe preciso de ouvir chinquilhar o vidro e tremer a mesa preciso de ouvir o zumbido dos passos preciso de ouvir a máquina a funcionar. Enfim, preciso de silêncio total para escrever.



segunda-feira, janeiro 23, 2006

Improviso para uma semiologia práxica.

O mais capaz dos intelectos deu por si um dia a ser coisa nenhuma em absoluto e em particular a que chamasse sua. Achou-se um dia aquele que era o mais brilhante dos espíritos perante a evidência algo embaraçosa de que era aquilo que era consoante as naturezas das pessoas com quem se relacionava assim o exigiam.
Assim, apaixonado que esteve este fantástico indivíduo pela mais fantástica das mulheres, achou ele, durante todo esse tempo, que era uma crueldade intolerável o silêncio metafísico e a desfaçatez irrazoável que ia da aura épica de que se via imbuído à indiferença a que o votava aquele que não podia senão ser o amor da sua vida. Como inteligência irrepreensível que era, jogou a nossa personagem o jogo do relacionamento, e no seu lugar fez o seu papel e foi o mais competente dos apaixonados despedaçados.
Adorável no empenho que demonstrou, fez-se aquilo que lhe pedia o amor não correspondido e só fez sentido enquanto em cena esteve a mais fantástica das mulheres e o mais incrível do silêncio o manteve na situação ardente de dependência de um feedback e sujeição à afecção passional.
Eventualmente, entrou na esfera deste nosso sujeito admirável uma outra mulher, profundamente apaixonada por ele, e eis que se lhe inverte a posição e se acha ele do lado exactamente oposto àquele que ocupara aquando da sua denodada paixão. Produzia ele agora a afectação não intencional que sujeitava esta segunda mulher à dependência face a uma resposta por que ele se não sentia responsável. Como leitor competente das conjunturas, desempenhou ele, uma vez mais, o seu papel na perfeição por este essencialmente requerida.
Mas não mais existiria ele deste lado, uma vez fora da relação, do que existiria anteriormente, quando ocupara o outro extremo, desaparecesse do outro a mulher que tanto amara; e assim, julgou-se o mais brilhante dos intelectos uma pura formalidade representativa: era ele o espelho de dois lados, perfeitamente opaco na apresentação única e una de si, mas inteiramente plástico na transitividade, na remissão para o papel determinado que lhe exigia a relação com o sujeito com que na circunstância interagisse.