terça-feira, setembro 27, 2005

Anjos ao pôr do sol.


Foi há um ano que nos passeamos todos juntos pela Vila velha prevenidos com asas. Ensaios no largo da pequena igreja com vista para o mar, banhados pela luz dourada do Sol Poente. Ali estou eu e o anjo pÓ.
Os outros eram ainda mais bonitos.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Sem saber porquê!

Sem saber porquê, aquele rapaz aceitou o raio do convite para ir dar uma volta. Ele nem sequer queria saber das manifestações que estavam a passar na rua, nem das reconstruções pós-modernas do Maio de 68. Em boa verdade, ele estava-se a cagar para tudo menos para o raio do convite para passear. Não queria saber de bandas mal paridas sem tempo para sofrer, nem de telemóveis, nem de internets, porque ele tinha todo o tempo para sofrer. Porque ele não queria que lhe dessem cabo do juizo, foi dar um passeio pelas ruas dos seus sonhos para saber que afinal tudo estava bem. Por cá, tudo estava por fazer.

domingo, setembro 25, 2005

Sintoma (2): a Indústria Identitária

A indústria emergente de decoração de interiores possui inúmeras congruências com a construção reflexiva do self.
Nesse sentido, a consciência dos actores assume particular preponderância: eles sabem bem ao que vão.
Todos revelam competência ao inscrever objectos e colecções nas suas possibilidades biográficas.
É certo que tudo isto é feito à revelia dos grandes capitalistas.
Chegará (?) o tempo em que estes, imbuídos do espírito que lhes é característico, tomarão as rédeas da indústria identitária.
Por enquanto, tudo se processa em moldes bem mais discretos:

«É para oferecer?»

«Não. É para mim.»

sábado, setembro 24, 2005

Humanos (e) Canídeos


Amores Perros de Alejandro González Iñárritu

terça-feira, setembro 20, 2005

As Ruínas de Babel

"Nos arrabaldes da cidade, entre o parque de perverções Mengel e uma fábrica de chapéus desactivada, um grupo de telefilólogos amadores entrega-se à escuta dos postes telefónicos:
-Hoje atrasei-me, os melhores postes já devem estar ocupados.
Tantas conversas perdidas:"Os dias tão devagar, os anos tão depressa\ Linchtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser\ Sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?\ Sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?\ Acredito na poesia dos hotéis abandonados.\ Estou a ouvi-la muito mal.\ E se o pintasse?".
Dia e noite, os fios conduzem um fluxo de palavras:
-Se ouvissemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância.
O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
-Só conseguimos captar fragmentos e estes por serem enigmáticos ganham, aos nossos ouvidos, a nobreza e a imponência de ruínas de uma cidade perdida."

José Carlos Fernandes

sábado, setembro 17, 2005

O Impertinente

Estava convencido que só havia uma coisa a fazer perante a mediocridade: ser cínico.
Primeiro tentou divulgar tamanha descoberta: podia ser que os outros reparassem no brilhantismo da coisa.
No entanto, viria a perceber que não existem bons intérpretes: nem para a mediocridade nem para o cinismo.
Depois veio o desencanto: se não existem bons intérpretes talvez não existam boas ideias.
Começou a dizer uns disparates pós-modernos sobre o fim da história e a fragmentação do self.
O resto já se adivinha: não existindo boas ideias talvez não existissem boas cabeças.

Daí à barbearia foi num instante: embora o barbeiro se tenha recusado a cortar-lhe a cabeça, ele fê-lo prometer que não lhe passaria um atestado de mediocridade.

quinta-feira, setembro 15, 2005

A vida e o ecrã: post scriptum

Porquê eleger uma telenovela portuguesa de horário nobre como objecto de interesse?
Não irei discorrer acerca da grande temática ("as telenovelas").
Não vejo interesse em comentar as idiossincrasias da narrativa ou a qualidade do enredo.
Prefiro antes realçar algo que é profundamente característico desta telenovela: a construção da tensão.
Os textos anteriormente publicados (da série "O TeleVisionário") referem-se à tentativa de captar parte dessa tensão que é, simultaneamente, constante e constitutiva da própria novela.
Trata-se, portanto, de um exercício livre com tudo o que daí advém.
Num primeiro momento, havia que fazer a recolha de algumas frases e expressões mais directamente implicadas na construção da tensão.
Num segundo momento, procedeu-se à montagem de pequenos textos a partir dessas mesmas frases e expressões.
Procurei omitir qualquer referência a personagens: ela e ele são personagens-tipo no desenvolvimento da tensão.
Se cumpri o objectivo de retraduzir a tensão em moldes mais abstractos (porque necessariamente abstraídos do contexto narrativo em questão), só vós o podereis afirmar.
Este exercício parte de um pressuposto relativamente discutível: a tensão é inteligível mesmo fora do seu contexto de origem; possui significados que, embora nascendo desse contexto, ganham autonomia e inteligibilidade noutros campos de entendimento.
A vida e o ecrã: será possível fazer poesia de um conjunto aparentemente desarticulado de frases e expressões?
Num último momento, como bem adivinham, já não se tratava somente de captar a tensão.
Em que medida o desenvolvimento da tensão é correlativo da dicotomia vida/ecrã?
Como é que a dicotomia vida/ecrã é conservada e ao mesmo tempo transgredida, por via da tensão?
Longe de corresponder a um intuito pseudo-científico, gostaria que este exercício fosse interpretado como um acto poético.
Um acto poético revelador das enormes possibilidades associadas à reflexão antropológica.
Haja alguém, quiça um Filósofo, capaz de empreender uma hermenêutica condizente com estas premissas.

quarta-feira, setembro 14, 2005

O TeleVisionário (3)

Quando eu tiver uma resposta digo-lhe
Ele qualquer dia vai encostar-te à parede
Devias ter-me perguntado
Eu é que não quero e ponto final
Disse que já tinha coisas combinadas
A vida não podem ser só brinquedos
Para mim é suficiente que ele queira
Não insistas

Onde é que tu vais?

Não me podes dizer assim em cima da hora
O meu problema é exactamente aquele que acabei de te dizer
Quanto mais chatices evitares melhor para ti
Vou reagir da forma como entendo que devo reagir

Nem parece uma Mulher: não sabe dar a volta a um Homem.

O TeleVisionário (2)

Eu sei muito bem como são essas coisas
Nos tempos que correm todo o cuidado é pouco
Se fosse a ti levava armadura
Tu acalmas as coisas em casa e eu trato do resto
Ele vai abusar de ti até dizer chega
Não vou ficar parada a ver o barco afundar
Eu também fui apanhada de surpresa

Vais ceder à chantagem dele?

Esta não é a melhor maneira de fazer as coisas
No meu tempo as pessoas estavam sempre reunidas à noite
Se formos a pensar assim o mundo é um manicómio
E ninguém nos disse nada

Eu sempre disse que faltava pulso firme áquele puto.

terça-feira, setembro 13, 2005

O TeleVisionário: a vida e o ecrã

É esta raiva que me dá vontade de viver
Agora estou a pensar no meu futuro
Não tarda nada estarei num lugar melhor
Fui interrompida por motivos de força maior
Terei de estar atenta
Terei de ter muito cuidado
Não ficarei tranquila sem saber o que se está a passar aqui

Até onde é que isto nos vai levar?

As coisas agora estão mais calmas
Ele tem de aprender a meter-se no lugar dele
Porque este é o meu lugar
Porque não irei embora tão cedo

Há oportunidades que só aparecem uma vez na vida.

Sem qualquer registo

Ao jantar, falamos sobre a guerra, falamos sobre a guerra que não fazia sentido. Ele dizia que falatava acreditar como se acreditou nos seus tempos de juventude, e nós ouviamos. Depois acreditamos nele quando ele disse que tinha esperança em nós...

domingo, setembro 11, 2005

Filmology II – on Elia Kazan’s A Streetcar Named Desire (1951)

No bairro francês de New Orleans tudo era cópia de qualquer parte de Paris, com a diferença de que os Champs Elysées podiam perfeitamente ser ruelas estreitas e escuras e sujas; mas a rainha do quarto de hóspedes dos fundos mantinha as tiaras e os mantos e as peles trancados no baú, just in case…
Blanche recebia o correio porque acabava sempre por ficar sozinha em casa. ‘you know those rainy days, when an hour is no longer an hour but a piece of eternity in your hands?’, ela soprava ao rapaz, com o jornal do dia e as cartas para a irmã e para o cunhado na mão, ‘who knows what to do with that?’ Ele fez que não com a cabeça e com o olhar.
Ela pelo menos sabia; conhecia bem a morte e não se deixava nunca apanhar à luz dos candeeiros, ainda que no nevoeiro se ouvisse, distante, “Flowers, flowers for the dead.”
‘Death; the opposite is desire’, papéis da venda da casa da família no fundo da mala, ninguém ali entendeu o alcance do que a rainha Blanche quis dizer quando perguntou ao rapaz da estação de New Orleans pelo eléctrico chamado desejo.
“Flowers, flowers for the dead.”

sábado, setembro 10, 2005

Filmology I - a view on Jean Renoir's The River (1951)

'I’m no longer a stranger', o capitão John disse, na cabana dos pescadores, enquanto percebia que, assim de repente, talvez não fizesse mal que provavelmente fosse desaparecer no Rio muito antes dos poemas da rapariga de vestido azul. Quatro mil anos, lhes deu ele, quatro mil anos, 'Just think, Harriet…'
Do lado da imortalidade, talvez a contemplação fosse excessiva, abraçou-o ela, como quem diz muito obrigada mas adeus para sempre, para sempre, que é sabido não ser própria do criador a imortalidade da sua obra. 'Captain John, I love you.'
'Just think, Harriet, four thousand years...'
“A god’s love made her a goddess.”

quinta-feira, setembro 08, 2005

Sintoma

Ele estava convencido que o fim da grande lírica não era senão um mero sintoma do fim das grandes narrativas.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Fragmentus Suburbia (3): ponto sem retorno

Ela acreditava em regressos.
Sabiam-lhe tão bem as esperas.
«Demora-te!», disse-lhe um dia, em sussurro.
(...)
Todos os comboios vão dar a Roma. Até o dela.

terça-feira, setembro 06, 2005

A rua pouco escondida

Naquela noite, fui por aquela rua. A rua até nem era muito escondida, mas alí parava tudo: mendigos, prostitutas, pedintes, sem abrigo... tudo. Naquela cidade de casas de bonecas ví um homem ser espancado com um ferro enquanto o electrico passava, enquanto a noite me cobria a pele, enquanto se fazia amor nas casas e nos bancos de jardim. Sentia-me finalmente no mundo, só aquilo me fez chegar ao mundo até o Sol aparecer e banhar a cidade de ouro.

Fragmentus Suburbia (2): efeito boomerang

Por imperativos de reestruturação identitária
ele reserva-se ao direito
de ficar por aqui.
(...)
"Não fique a ver os comboios a passar. Venha daí."
E foi.

Early Morning Blog

"Algumas gotas de chuva foram suficientes para restaurar a paz."
(Charles Simic)

segunda-feira, setembro 05, 2005

Fragmentus Suburbia (improviso)

Ele estava convicto que a metafísica do subúrbio dava «um ar da sua graça» sempre que um comboio fantasma atravessava a estação a toda a velocidade. Para todos os efeitos, pensava ele, tinha de haver alguma metafísica naquilo: não estando previsto nos horários, aquele comboio não estava previsto na vida de todos os dias. Soube-se, então, portador de um valioso segredo: talvez o subúrbio fosse um acontecer mais do que um acontecimento; e talvez todos pudessem participar da construção desse sentido. Assim, a condição suburbana traduziria uma subversão das categorias a partir das quais pensamos o subúrbio. Nesse movimento (para o qual alguns vanguardistas arriscariam a designação de pós-suburbanismo...) jogar-se-ia, não o retorno da certeza, mas sim o retorno da humanidade. Afinal de contas, o que é próprio dos Homens: suburbanos ou não.

domingo, setembro 04, 2005

Memórias poéticas (2)

"Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a mão a dormir. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento, ela devia estar com um sono muito leve porque abriu as pálpebras e olhou para ele com um ar assustado.
«Para onde é que estás a olhar?», perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la e que devia voltar a conduzi-la para o sono; tentou responder-lhe com palavras que lhe acendessem na cabeça a faúlha de um novo sonho.
«Estou a olhar para as estrelas, disse ele.
- Não me mintas, tu não estás a olhar para as estrelas, tu estás a olhar para baixo.
- Mas, como vamos num avião, as estrelas estão por baixo de nós.
- Ah!», disse Tereza. Apertou ainda com mais força a mão de Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava a olhar pela janela de um avião que voava tão alto que ia por cima das estrelas."
Milan Kundera in A insustentável leveza do ser

sexta-feira, setembro 02, 2005

Laranja Cor de Sangue


"Está tão escuro lá fora que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece.
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio."

Charles Simic

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (2ª Parte)

"Não. Os xuar não se beijavam.
Recordou-se também de que, em certa ocasião, vira um garimpeiro acasalando com uma jíbara, uma pobre mulher que deambulava por entre os colonos e os aventureiros implorando uma golada de aguardente. Quem tivesse vontade puxava-a de parte e possuía-a. A pobre mulher, embrutecida pelo álcool, não tinha consciência do que estavam a fazer com ela. Dessa vez, o aventureiro montou-a na areia e procurou-lhe a boca com a sua.
A mulher reagiu como uma besta. Tirou o homem de cima dela, arremessou-lhe um punhado de areia para os olhos e desatou a vomitar com um nojo indissimulável.
Se beijar ardorosamente era isso, então o Paul do romance não passava de um porco."

Luís Sepúlveda in O Velho que Lia Romances de Amor

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (1ª Parte)

"O romance começava bem.
«Paul beijo-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos».
Leu a passagem várias vezes em voz alta.
Que raios seriam as gôndolas?
Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e, quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava «ardorosamente» a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.
Gostou do começo.
Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.
E quanto a beijar, como é que ele dizia? «Ardorosamente», como diabo seria isso?
Recordou-se de beijar muito poucas vezes Dolores Encarnación del Santíssimo Estupiñán Otavalo. Na melhor das hipóteses, terá havido uma dessas poucas ocasiões em que o fez assim, ardorosamente, como o Paul do romance, mas sem o saber. Em todo o caso, foram muitos poucos beijos, porque a mulher, ou respondia com atques de riso, ou fazia notar que podia ser pecado.
Beijar ardorosamente. Beijar. Só agora descobria que o fizera muito poucas vezes e apenas com a mulher, porque entre os xuar o beijo era um costume desconhecido.
Entre homens e mulheres existiam as carícias por todo o corpo, e não lhes importava se havia outras pessoas presentes. Nem no momento do amor se beijavam. As mulheres preferiam sentar-se em cima do homem argumentando que nessa posição sentiam mais o amor, e portanto os anents que acompanhavam o acto saíam muito mais sentidos."

[continua]