terça-feira, setembro 27, 2005
segunda-feira, setembro 26, 2005
Sem saber porquê!
domingo, setembro 25, 2005
Sintoma (2): a Indústria Identitária
«É para oferecer?»
«Não. É para mim.»
sábado, setembro 24, 2005
terça-feira, setembro 20, 2005
As Ruínas de Babel
-Hoje atrasei-me, os melhores postes já devem estar ocupados.
Tantas conversas perdidas:"Os dias tão devagar, os anos tão depressa\ Linchtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser\ Sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?\ Sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?\ Acredito na poesia dos hotéis abandonados.\ Estou a ouvi-la muito mal.\ E se o pintasse?".
Dia e noite, os fios conduzem um fluxo de palavras:
-Se ouvissemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância.
O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
-Só conseguimos captar fragmentos e estes por serem enigmáticos ganham, aos nossos ouvidos, a nobreza e a imponência de ruínas de uma cidade perdida."
José Carlos Fernandes
sábado, setembro 17, 2005
O Impertinente
Primeiro tentou divulgar tamanha descoberta: podia ser que os outros reparassem no brilhantismo da coisa.
No entanto, viria a perceber que não existem bons intérpretes: nem para a mediocridade nem para o cinismo.
Depois veio o desencanto: se não existem bons intérpretes talvez não existam boas ideias.
Começou a dizer uns disparates pós-modernos sobre o fim da história e a fragmentação do self.
O resto já se adivinha: não existindo boas ideias talvez não existissem boas cabeças.
Daí à barbearia foi num instante: embora o barbeiro se tenha recusado a cortar-lhe a cabeça, ele fê-lo prometer que não lhe passaria um atestado de mediocridade.
quinta-feira, setembro 15, 2005
A vida e o ecrã: post scriptum
Não vejo interesse em comentar as idiossincrasias da narrativa ou a qualidade do enredo.
Prefiro antes realçar algo que é profundamente característico desta telenovela: a construção da tensão.
Os textos anteriormente publicados (da série "O TeleVisionário") referem-se à tentativa de captar parte dessa tensão que é, simultaneamente, constante e constitutiva da própria novela.
Trata-se, portanto, de um exercício livre com tudo o que daí advém.
Num segundo momento, procedeu-se à montagem de pequenos textos a partir dessas mesmas frases e expressões.
Procurei omitir qualquer referência a personagens: ela e ele são personagens-tipo no desenvolvimento da tensão.
Se cumpri o objectivo de retraduzir a tensão em moldes mais abstractos (porque necessariamente abstraídos do contexto narrativo em questão), só vós o podereis afirmar.
Este exercício parte de um pressuposto relativamente discutível: a tensão é inteligível mesmo fora do seu contexto de origem; possui significados que, embora nascendo desse contexto, ganham autonomia e inteligibilidade noutros campos de entendimento.
Em que medida o desenvolvimento da tensão é correlativo da dicotomia vida/ecrã?
Como é que a dicotomia vida/ecrã é conservada e ao mesmo tempo transgredida, por via da tensão?
quarta-feira, setembro 14, 2005
O TeleVisionário (3)
Ele qualquer dia vai encostar-te à parede
Devias ter-me perguntado
Eu é que não quero e ponto final
Disse que já tinha coisas combinadas
A vida não podem ser só brinquedos
Para mim é suficiente que ele queira
Não insistas
Onde é que tu vais?
Não me podes dizer assim em cima da hora
O meu problema é exactamente aquele que acabei de te dizer
Quanto mais chatices evitares melhor para ti
Vou reagir da forma como entendo que devo reagir
Nem parece uma Mulher: não sabe dar a volta a um Homem.
O TeleVisionário (2)
Nos tempos que correm todo o cuidado é pouco
Se fosse a ti levava armadura
Tu acalmas as coisas em casa e eu trato do resto
Ele vai abusar de ti até dizer chega
Não vou ficar parada a ver o barco afundar
Eu também fui apanhada de surpresa
Vais ceder à chantagem dele?
Esta não é a melhor maneira de fazer as coisas
No meu tempo as pessoas estavam sempre reunidas à noite
Se formos a pensar assim o mundo é um manicómio
E ninguém nos disse nada
Eu sempre disse que faltava pulso firme áquele puto.
terça-feira, setembro 13, 2005
O TeleVisionário: a vida e o ecrã
Agora estou a pensar no meu futuro
Não tarda nada estarei num lugar melhor
Fui interrompida por motivos de força maior
Terei de estar atenta
Terei de ter muito cuidado
Não ficarei tranquila sem saber o que se está a passar aqui
Até onde é que isto nos vai levar?
As coisas agora estão mais calmas
Ele tem de aprender a meter-se no lugar dele
Porque este é o meu lugar
Porque não irei embora tão cedo
Há oportunidades que só aparecem uma vez na vida.
Sem qualquer registo
quinta-feira, setembro 08, 2005
Sintoma
quarta-feira, setembro 07, 2005
Fragmentus Suburbia (3): ponto sem retorno
Sabiam-lhe tão bem as esperas.
«Demora-te!», disse-lhe um dia, em sussurro.
(...)
Todos os comboios vão dar a Roma. Até o dela.
terça-feira, setembro 06, 2005
A rua pouco escondida
Fragmentus Suburbia (2): efeito boomerang
segunda-feira, setembro 05, 2005
Fragmentus Suburbia (improviso)
domingo, setembro 04, 2005
Memórias poéticas (2)
sexta-feira, setembro 02, 2005
Laranja Cor de Sangue

"Está tão escuro lá fora que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece.
Nem nós mesmos.
Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.
Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.
É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio."
Charles Simic
Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (2ª Parte)
Luís Sepúlveda in O Velho que Lia Romances de Amor
Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (1ª Parte)
"O romance começava bem.
«Paul beijo-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos».
Leu a passagem várias vezes em voz alta.
Que raios seriam as gôndolas?
Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e, quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava «ardorosamente» a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.
Gostou do começo.
Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.
E quanto a beijar, como é que ele dizia? «Ardorosamente», como diabo seria isso?
Recordou-se de beijar muito poucas vezes Dolores Encarnación del Santíssimo Estupiñán Otavalo. Na melhor das hipóteses, terá havido uma dessas poucas ocasiões em que o fez assim, ardorosamente, como o Paul do romance, mas sem o saber. Em todo o caso, foram muitos poucos beijos, porque a mulher, ou respondia com atques de riso, ou fazia notar que podia ser pecado.
Beijar ardorosamente. Beijar. Só agora descobria que o fizera muito poucas vezes e apenas com a mulher, porque entre os xuar o beijo era um costume desconhecido.
Entre homens e mulheres existiam as carícias por todo o corpo, e não lhes importava se havia outras pessoas presentes. Nem no momento do amor se beijavam. As mulheres preferiam sentar-se em cima do homem argumentando que nessa posição sentiam mais o amor, e portanto os anents que acompanhavam o acto saíam muito mais sentidos."
[continua]