terça-feira, julho 27, 2010

Ouves o comboio a passar? O chão estremece porque a linha fica mesmo encostada ao prédio. Por baixo fica um teatro enfiado no subsolo. Os projectores estão cheios de pó, já não iluminam nada, nem sequer as tábuas podres do palco. Uma vez bati com o pé num deles, fiquei com o dedo pequeno inchado durante semanas. Tu deste risadas enormes, dás sempre.
Nessa altura ainda me descalçava, tinha essa coragem. Agora tenho medo que os meus pés fiquem cheios de pó. Tenho medo de perder o brilho e ficar cozido debaixo deste Sol embaciado.
Agora estou a estalar os dedos para fazer tempo. Quero que te vás embora com o pó, por isso vou sacudindo o pouco que já tenho nas mãos.
Cada vez que o comboio passa e faz tremer a casa, vou ficando com mais pó sobre o meu corpo.
Não é que me importe, mas tenho medo de ficar cego.

sexta-feira, julho 23, 2010

A terrivel tragédia do Semicontente (3)

O Semicontente não gosta de ser ele próprio.
Com tanto amor sente-se hiper-ventilado e ele não consegue viver só do ar.

segunda-feira, julho 19, 2010

fim.

Hoje acaba um ciclo, há uma certa felicidade à porta do precipício, à porta dos céus.
Mas também fica a sensação de angústia, a sensação de ruína de onde vamos erguer a nossa própria cidade.

segunda-feira, julho 12, 2010

Hoje olhei para trás e vi um robot enorme.
Não era deslumbrante, mas tinha o olhar luminoso dos embriagados.

domingo, julho 11, 2010

Estou no fim, isto assusta-me porque quer dizer que se aproxima um início.
Ámen!

quinta-feira, julho 08, 2010

felizmente.


Nunca fui à India.
Nunca fui a um concerto dos Radiohead.
Nunca fui à Lua.
Nunca chafurdei na lama.
Nunca caí de um décimo andar.
Nunca fiz o pino durante duas horas.
Nunca andei numa vespa.
Nunca mergulhei no Mar Vermelho.
Nunca cantei uma canção de amor a ninguém.
Nunca disse nada bonito ao meu cão.
Nunca morri por amor. (juro)
Nunca fiz dança clássica.
Nunca experimentei heroína.
Nunca dei a volta ao mundo.
Nunca gostei de pó.
Nunca suportei cheiro a lixo.
Nunca vivi na cidade.
Nunca me mascarei de gueixa.
Nunca fui presidente da república.
Nunca parti um prato na cabeça de alguém.
Nunca tive jeito para testes.
Nunca vi o meu esqueleto.
Quando ficar sem tempo, há-de ser para sempre.

domingo, julho 04, 2010

Homem!
Das cinzas queres ser um osso.
Um osso pode ligar muitos ossos e agarrar muita carne, muitos ossos prendem tendões.
Liberta os tendões dos ossos e cobre a pele de cinzas.
Não te esqueças das papoilas que nascem dos sovacos.
Coça as papoilas com as unhas que a carne segura.
Suja as unhas de terra e levanta a pele das cinzas.
Tenta não ser cadáver antes de o seres e pode ser que haja esperança.
Descansa Homem e roga a Deus por margaridas no teu Inverno.

quinta-feira, julho 01, 2010

Ando a desenvolver um gostinho pela insensibilidade.
Ouve! Cuidado comigo.

quarta-feira, junho 30, 2010

recta final.

Hoje passei o dia inteiro acordado. Passei o dia todo sozinho e fartei-me de escrever.
O dia da estreia está próximo, as noites sem dormir começam a entrar em contagem crescente.
Qualquer coisa próxima do pânico instala-se num sítio do meu corpo que desconheço, mas que me incomoda muito.

segunda-feira, junho 28, 2010

Eu quero ser uma polaca.

sexta-feira, junho 25, 2010

Já me aconteceu ser oportuno por ficar calado.
Mas foi só uma vez, de resto...

terça-feira, junho 22, 2010

isto.

Cá nos encontramos outra vez neste recanto escuro, onde ninguém nos ouve por causa do silêncio.
O meu corpo está mais fraco, oxalá não dure muito mais tempo. As minhas noites são em branco e não quero dar este tempo por perdido. As cartas de amor já não me fazem cócegas, e a fé nas pessoas já a vejo ao longe. Se esticar o braço não chego a lado nenhum, mas provavelmente não me livrarei de o enfiar no traseiro do Todo Poderoso.
Detesto ter de viver com a frustração (se calhar é a mulher da minha vida e eu não sei) porque ela só me dá chatices. Hoje tive uma chatice, perguntaram-me se eu tinha autorização para entrar na minha própria casa. Era um homem velho e com uma verruga no nariz, um inútil. Queria ver até que ponto o aborreceria se lhe rebentasse a verruga com uma agulha de coser.
Hoje ainda não fui capaz de dizer uma verdade. Já fui ao médico tentar perceber o que se passa, ele disse-me para lá voltar se os meus tomates começassem a inchar, ficámos assim.
Tenho muitas coisas para fazer, coisas pesadas, coisas que me fazem ficar cada vez mais marreco. Falta-me coluna vertebral, falta-me coragem, falta-me vontade, falta-me convicção. Felizmente conto sempre com a minha amiga, a frustração, e também com as minhas pernas e os meus braços. Ando ver se arranjo trabalho para a cabeça, não está fácil: demasiada oferta.
Quando acordo belisco-me na esperança de adormecer até ao dia seguinte, mas isto parece não ter fim.

domingo, junho 20, 2010

Espera!

Não me apetece mandar sms às pessoas que quero encontrar.
Tenho medo de as não encontrar por acaso.

quinta-feira, junho 17, 2010

Christmas card from a hooker in Minneapolis.

hey Charley I'm pregnant
and living on 9-th street
right above a dirty bookstore
off cuclid avenue
and I stopped taking dope
and I quit drinking whiskey
and my old man plays the trombone
and works out at the track.

and he says that he loves me
even though its not his baby
and he says that he'll raise him up
like he would his own son
and he gave me a ring
that was worn by his mother
and he takes me out dancin
every saturday night.

and hey Charley I think about you
everytime I pass a fillin' station
on account of all the grease
you used to wear in your hair
and I still have that record
of little anthony & the imperials
but someone stole my record player
how do you like that?

hey Charley I almost went crazy
after mario got busted
so I went back to omaha to
live with my folks
but everyone I used to know
was either dead or in prison
so I came back in minneapolis
this time I think I'm gonna stay.


hey Charley I think I'm happy
for the first time since my accident
and I wish I had all the money
that we used to spend on dope
I'd buy me a used car lot
and I wouldn't sell any of em
I'd just drive a different car
every day dependin on how
I feel.

hey Charley
for chrissakes
do you want to know
the truth of it?

I don't have a husband
he don't play the trombone
and I need to borrow money
to pay this lawyer
and Charley, hey
I'll be eligible for parole
come valentines day.

Tom Waits

quarta-feira, junho 16, 2010

A terrível tragédia do Semicontente (2).

O Semicontente confessa que as metáforas sempre o ajudaram a dizer a verdade, mas nunca o livraram do confronto com a realidade.
O Semicontente sabe que as metáforas silênciam os gritos da guerra, mas nem por isso ela se torna menos dolorosa.
O Semicontente vê tudo a desmoronar-se... em câmara lenta.
O Semicontente fica-se pelas metáforas.
Boa Noite Berlim.
Sem Registo, agora também para Anónimos.

terça-feira, junho 15, 2010

audição\intuição

Hoje fui a uma audição para uma peça de teatro. Foi muito engraçado e até teve direito a contracena com outros candidatos. Bem, no fim o encenador disse-nos: “de vocês todos só vai ser escolhido um, e essa escolha vai corresponder a uma intuição minha, mais nada. Porque já tenho uma imagem do espectáculo.”

Desde esse momento, deixei de confiar nas intuições dos outros.

domingo, junho 13, 2010

Gosto daquela ficção que nos conta verdade.

O Extravagante (8) - O Fim.

O Extravagante estava à mesa do jantar com a mulher. Toda a vida viveram juntos.
Ela dizia-lhe que ele só sabia incomodar as pessoas e que estava na altura de voltarem para casa. O Extravagante bateu com a mão na mesa, gritou, e com as poucas forças que lhe faltavam Ele disse: Eu só quero que ninguém me chateie.
A mulher calou-se, o velho Extravagante estava fraco e o seu fim estava próximo. A mulher perguntou-lhe se podia ir dormir, Ele não respondeu. Foi nesse momento que o Extravagante percebeu que estava a desenvolver um certo desprezo pelo próximo. Não fazia isto por mal, fazia mesmo por necessidade.
Um dia conheci este Extravagante, não era mau, só não tinha a certeza de gostar de pessoas.

sábado, junho 12, 2010

independência, força, manifesto

Já há muito tempo que não te via, e ainda bem. Ainda bem que este tempo todo passou. Lembras-te da última vez que estivemos juntos? Cheirava a salão de baile.
No ínicio de cada baile entravam sempre as bailarinas que sabiam dançar. Lembro-me tão bem das sapatilhas rotas que elas usavam. Eu ria-me sempre quando entrava a bailarina gorda, sempre com o dedo grande do pé à mostra. Ela era enorme. Lembras-te?
Passaram-se anos e tu estás igual. As tuas mãos ainda têm o mesmo tamanho. Fico muito contente por não me ter cruzado contigo durante todos estes anos, não queria passar estes anos todos a conter as minhas gargalhadas.
Sabes, tenho muita vontade de me rir das tuas piadas, mas não te quero habituar mal. Rir-me do que tu dizes é demasiado perigoso e passar por perigos é sempre uma chatice. Chego a morder o lábio para não me rir. Estás a ver? Comecei a sangrar, este tipo de coisas não se faz com sorriso na cara.
O mais fácil era tu transformares-te em nuvem, não olho para o céu assim tantas vezes. Assim era mais fácil do que andar para aqui a morder o lábio.
Vou contar-te um segredo: tenho medo do céu, tenho medo que seja muito diferente da minha casa; a minha casa é feia e tu és bem capaz de ter sido a coisa menos tosca que por lá andou.


(ando à espera que estas coisas me aconteçam a mim e deixem de ser ficção)

quinta-feira, junho 10, 2010

No outro dia, conheci uma rapariga com os olhos enormes, daqueles que nos engolem à primeira vista.

quarta-feira, junho 09, 2010

O meu confronto com a realidade está a ficar cada vez mais violento.
Salvem-me\te\nos.

segunda-feira, junho 07, 2010

a melhor montra era o meu elevador.

Outro dia entrei no elevador e o espelho estava desfeito em cacos no chão. Como bom cidadão que sou, sai do elevador e não avisei ninguém. Tive a leve impressão de que poderia ser acusado de ter partido o espelho.
A verdade é que nesse dia não me importei com o facto de o espelho estar partido. Mas agora, passadas duas semanas, o meu coração não aguenta a falta daquele espelho. Cada vez que saio de casa, tenho a sensação de estar desajeitado. A luz da minha casa de banho não me favorece tanto como a luz cinematográfica do elevador.
Na hora da passagem do leito para o confronto com a realidade, era aquele espelho que me sussurrava ao ouvido: “és o maior”. Agora tenho de me contentar com as montras reflectoras que vou encontrado nas ruas.
O meu ego anda instável com esta situação. E até tenho medo do novo espelho que "eles" vão lá pôr.

domingo, junho 06, 2010

seitan.

Fui a Coimbra, já não ia lá para cima de um ano. Contra tudo o que eu esperava\desejava, fomos a um restaurante biológico. Da lista, o bife de seitan com molho de pimenta parecia-me o mais próximo de um petisco da Portugália. Pedi então essa substância a que "eles" chamam seitan.
Devo dizer que a minha expectativa quanto à virilidade daquele bife era pouca. Não me desiludiu e até me surpreendeu. Para já, olhei para ele e quase me pareceu uma bela i
entremeada com um coirato bastante convidativo. Depois, o molho de pimenta fazia lembrar os melhores molhos das clássicas cervejarias. Finalmente, é importante referir o enjoo tremendo que aquilo me provocou: algo digno, até agora, das grandes feijoadas.

quinta-feira, junho 03, 2010

Acção de rua.

O céu é o limite, Dínamo.

segunda-feira, maio 31, 2010

as coisas que eu odeio (I)

Odeio filas de trânsito quando EU tenho pressa.
Odeio não perceber o que os outros dizem.
Odeio não perceber o que eu digo.
Odeio ter de rir sem vontade.
Odeio que me batam nas costas.
Odeio comprometer-me ao fim de semana.
Odeio peles nas unhas.
Odeio cortar o dedo numa brincadeira estupida.
Odeio quando não se riem das minhas piadas hilariantes.
Odeio estar a apaixonado.
Odeio não estar apaixonado.
Odeio não comandar uma conversa.
Odeio que se riam de mim.
Odeio sentir os boxers enfiados no rabo.
Odeio não poder fazer a esparregata.
Odeio ter de voltar a casa com a porta do comboio escancarada à espera que eu entre.
Odeio querer ser criativo e não ter ideias.
Odeio que os outros me vejam chorar.
Odeio perceber que o melhor da turma não sou eu.
Odeio beijar miúdas e perceber que o bigode delas me pica mais a mim, do que o meu lhes pica a elas.
Odeio casas com muita mobília. (cria pó)

to be continued...
Hoje, finalmente, posso dizer que algumas coisas começaram a correr bem. É melhor começar a tomar os comprimidos da expectativa.

domingo, maio 30, 2010

sms\livro

Estava a ler um sms no telemóvel ao mesmo tempo que lia um livro. Foi incrível a passagem de um suporte para o outro, tive a sensação de estar a ler um sms quando voltei ao livro. No livro dizia qualquer coisa como: “espero que não me interpretes mal!”. Ora isto fez-me\deu-me um friozinho na barriga, porque tinha acabado de receber uma mensagem a dizer: “perdes-te a oportunidade de me ver bêbeda” (?????)… será que isto é uma mensagem do divino?
Pois eu digo, do divino não será, mas lá que há coisas que uma pessoa fica à rasca, lá isso há!

sexta-feira, maio 28, 2010

Hoje disseram-me que, quando escrevemos, as emoções não interessam.
Se querem saber: eu também acho. (snif)

quinta-feira, maio 27, 2010

sobre aquela coisa que nós gostamos muito.

"Há sempre algo no teatro de que não gosto, porque o teatro é o contrário da vida; no entanto volto sempre a ele e amo-o, porque é o lugar onde posso dizer: isto não é vida."

Bernard-Marie Koltès

quarta-feira, maio 26, 2010

O mestre.

O mundo à minha volta está a dar o peido mestre.
E eu continuo firme.

segunda-feira, maio 24, 2010

ontem.

E agora a poesia está.
E agora estamos todos poéticos.
E agora estou.
Não quero saber do luar, só do que está debaixo dele.
Quero ver uma imagem e fazer parte dela.
Posso ser um filho morto, caído de cabeça pendurada, ao colo de uma mãe. Matrona que a natureza escolheu. Mãe dos guerreiros sem armas de metal. Mãe árvore que testemunha o círculo (quase) perfeito, círculo que nos devolve a vida enquanto os ramos se cansam.
E agora os filhos morrem nas palavras e vivem nas entre-linhas.
E agora estamos cada vez mais cheios de recordações e vazios de espirito.
E agora fechamos o parêntesis.
E agora?

quarta-feira, maio 19, 2010

esta é do João César Monteiro

"Cheira-me a carne humana, é um cheiro acre, não sei se gosto."

domingo, maio 16, 2010

dasse.

Ontem amolguei um carro e nem tive coragem para fugir.
Ando a perder qualidades.
(suspiro)

sábado, maio 15, 2010

uff

Odeio ter a batata quente de ter de desbloquear uma conversa.

quarta-feira, maio 12, 2010

rent a life.

Quero esconder-me num buraco, mas a vontade de o cavar é pouca.
Alguém o pode cavar por mim? Sim?
Alguém quer viver a minha vida?
O aluguer não é muito caro.
Agora a sério.

sábado, maio 08, 2010

Mein Liebster Fiend

Vi um documentário sobre um homem de olhos grandes: Klaus. O homem era amigo do realizador. Quase irmãos de amor e de ódio. Cada frase do realizador conseguia definir o homem que Klaus era. A definição era dada pelo seu próprio contrário, como se o mal fosse a escrita que definia o bem. Havia uma forma de falar tão despojada neste realizador, um descuido e um rancor que era brutalmente comovedor. Se digo despojada digo directamente subtil, tal como as coisas subtis devem ser: secas e ressoantes. As coisas que Werner dizia de Klaus eram terriveis. Parecia que Klaus era um monstro e era isso que nos fazia acreditar nele como ser... humano.
No final, podemos escolher a melhor parte, a parte da borboleta que sempre voou nas entrelinhas do discurso desajeitado de dois irmãos. É desta maneira que te vou recordando. Esta borboleta aparece também entre as gotas da chuva, não se molha, e nós demoramos tempo a encontrá-la. A borboleta fica suspensa para sempre e nós achamos que isso é pouco.

sábado, maio 01, 2010

Quem?

Então, não é assim que se faz.
Não tenho idade para saber como se faz.
Mas tens idade para fazer pouco de mim.
És um romântico.
Um quê?
Um romântico...
Tu não falas assim comigo.
Assim como?
Assado.
E cozido.
Porque é que falas por metáforas?
Porque é que cantas aquilo que não podes?
Diz-me lá para eu ir dar uma volta. A ver se eu vou.
E se não me contasses essas histórias todas. Sobre a escola. E o teu eu.
Eu... quem?
Aquele que não fala. Sabes?
Hm...
Vai pedir ajuda a outro. Sim? Alguém com paciência... de santo. António.
As tuas.
As minhas?
Coisas.
E o silêncio? Onde é que...
Onde?
Onde fica?
Ali ao ao fundo.
Não sou daqueles.
Que vão?
Ah sim, sou dos que vou indo.
Vou até ao fim do cu do Judas.
Como é que sabes onde fica o cu do Judas?
Jesus disse-me.
Quem?
Jesus, o que morreu na cruz. Alta.
Coitado. O que é que ele fez?
Judiarias.
Para saber onde é o cu do Judas, não dever ter feito boa coisa.
És um herege.
Um quê?
Um herege.
Ah, um herege. Qual é o problema?
É que... eu não sei quem foi Jesus.
Sei melhor quem foi o meu pai.
Acho que acredito mais no meu pai do que em Jesus.
Quem é o teu pai?
É o...
Ah!
Calma. Não fales assim do meu pai.
Sei lá quem foi o teu pai.
O meu pai era um travesti.
Um quê?
Um herege.

quarta-feira, abril 21, 2010

Descobertas recentes (2)

As descobertas recentes hão-de se tornar descobertas antigas.

Depois desta, este blog suporta tudo.

Descobertas recentes (1)

Tenho um problema de continuidade desde que nasci.

quinta-feira, abril 15, 2010

descobertas antigas

Felizmente descobri, há já algum tempo, que não sou nada de especial.

segunda-feira, abril 12, 2010

A terrivel tragédia do Semicontente

O Semicontente precisava de um upgrade. Para o upgrade ser eficaz, o Semicontente precisava de transitar.
Então foi viajar.
O Semicontente gosta de lugares de transição. Nunca sabe o que vai acontecer.
Segurança no esquecimento.
É seguro que o semicontente se apaixone, porque tudo fica ali, onde os que sabem não sabem que o Semicontente sabe que é imortal.
O Semicontente fecha-se na bolha da transição, fecha-se na semi-partida e na semi-chegada.
O Semicontente esqueceu-se que a bolha do esquecimento rebenta.
O Semicontente apaixonou-se pela transição rompida pelas lágrimas.
O Semicontente está pronto para o download.
O Semicontente lembrou-se.

sábado, abril 10, 2010

Gosto de usar os meus pensamentos como roupa interior.

quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O que me chateia nas mortes é perceber que vou ter menos uma pessoa que viverá mais do que eu. Para me reconfortarem, as pessoas dizem-me que ficam as boas memórias. Agora eu pergunto: o que é que vou fazer com essas memórias?

As memórias não atenuam o sofrimento caseiro, aquele que entala as entranhas e que nos dá um nó na respiração.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Sem causa.

O Jorge ia a passar e viu uma mota do outro lado do passeio. A primeira ideia que tem é a de roubar a mota, é a primeira e a única ideia. Ele rouba a mota e vai dar uma volta pela Amadora, mas a Amadora está diferente de fora continua o mesmo amontoado de prédios, por dentro parece uma vila rústica do interior, com pracetas e coretos. Ele anda pela vilazinha cheio de medo que alguém o apanhe com a mota roubada. Anoitece e ele ainda está às voltas com a mota até que chega a um beco onde se encontram carros estacionados, estaciona aí a mota.
No outro dia de manhã as ruas estão agitadas, de um lado manifestações, do outro polícia de choque pronta para avançar para cima da multidão. Jorge passa pelo meio, não está em nenhum dos lados. Olha fixamente um polícia que também olha nos olhos, Jorge tem a certeza de que aquele polícia sabe que foi ele que roubou a mota no dia anterior, mas o polícia desvia o olhar e comenta com outro: “hoje estamos a ser muito ameaçados.”. Jorge fica mais aliviado e continua andar, a Amadora está outra vez a parecer-se com uma vila rústica e vê muitas caras conhecidas que o ignoram. Ele tem dois guarda-chuvas e alguém o puxa pelo que tem na mão direita. A pessoa que o puxou é uma professora da sua escola com quem nunca tinha privado. Falam-se como se conhecessem desde sempre. Falam da revolução da qual Jorge não sabia nada ainda à um minuto, mas naquele momento consegue discorrer um discurso sobre a revolução. A professora ri-se e diz-lhe que ele é um rebelde sem causa. Jorge fica perplexo com ele mesmo a professora olha-o com um ar constrangedor. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Ela diz-lhe que para a próxima não é preciso roubar a mota.

domingo, janeiro 24, 2010

cinzento.

Às duas da tarde de domingo levantei-me. Tomei banho numa água amarela porque tinha faltado a água durante a noite e o gás não funcionava: água fria. Vesti-me, pus os cremes e sai de casa para ir almoçar ao café que ficava ainda um bocado longe de casa.

A caminho do café passei pela estação que estava deserta, não se via ninguém. A atmosfera estava muito cinzenta. O cinzento já é uma cor deslavada, mas este cinzento era mais deslavado do que os outros cinzentos. A bilheteira tinha as persianas corridas. Havia uma poça no chão que reflectia o céu cinzento, mas houve qualquer coisa vermelha que passou repentinamente pelo reflexo e eu nem vi o que era. Continuei o meu percurso agora subia a rua principal que segue até a rotunda. Passei por um jardim com dois bancos vazios e uma menina de saia e colants, tinha uma casaco azul e estava a rir-se para mim. Deu-me vontade de chorar, mas consegui conter as lágrimas. Subi mais um bocado a rua, cheguei ao café, peguei num tabuleiro. A rapariga que me atendeu estava vestida da mesma forma que a menina do jardim e o sorriso tinha envelhecido.

sábado, dezembro 05, 2009

O Grito

No século XVIII o Grito era um assassino. Um dia ele matou a avó e a mãe, só não matou o pai e o irmão porque eles tinham morrido na guerra. O Grito não percebia porque é que matava tanta gente, no fundo ele só espetava facas nos corpos das pessoas e isso deixava-o transtornado: “uma faca no corpo será razão para as pessoas morrerem?” pensava ele.

Como estava a ficar bastante aborrecido com esta história, Grito foi entregar-se as autoridades, dizendo que queria ser preso. Grito é então encarcerado na prisão mais segura da cidade. Não tinha ninguém com quem dividir a cela, todos os dias a mesma comida.

Agora o Grito queria arranjar maneira de se safar da prisão, mas não conseguia arranjar maneira, até que se lembrou de uma ideia que lhe parecia brilhante: espetar uma faca no corpo e fingir-se de morto. Então, um dia ele guardou as facas do almoço e do jantar, espetou a primeira faca na perna, mas achou um disparate morrer por causa de uma faca espetada na perna. Pensou noutra alternativa: espetar uma faca no coração, a partir daqui, ele achou que duas facas espetadas no corpo eram uma razão bastante convincente para alguém morrer.
O Grito gritou. Fim da história e o Grito morreu até hoje.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Manifesto Subúrbia

Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
No comboio encontro um cego de muletas que me pede uma esmola: “peço desculpa por estar a incomodá-lo, mas o senhor tem uma moeda que me dê para comprar o meu almoço?”
Eu digo-lhe que não tenho dinheiro, que a vida esta difícil para todos e que ele vá chatear outro…
Vou para o centro, as pessoas querem sempre ir para o centro. Porque é que as pessoas querem sempre ir para o centro? No centro sinto que não pertenço a lado nenhum.
No fim do dia, na estação terminal do centro, o frio gela-me os ossos e eu entro no comboio. O comboio chega ao subúrbio. Saio do comboio e oiço o comboio a partir como uma veia que leva o sangue a todas as casas destes pulmões podres. Subo a rua que dava para minha casa. Faz muito tempo que eu não pensava nisto tudo.
Foi no meio destas recordações, destas entranhas que o tempo parou. Volto a olhar para o céu e recordo o tempo em que eu tinha vontade, o tempo em que eu era espontâneo, o tempo em que tinha convicções, o tempo em que era virgem, o tempo em que eu era um mensageiro do belo em terra de feios.

sábado, novembro 22, 2008

fácil

Hoje descobri que um sms pode estragar um dia inteiro de expectativa.
Hoje descobri que com um telemóvel é muito mais fácil fugir.

quarta-feira, novembro 19, 2008

fim do mundo (pelo menos para ele).

O cenário desta história é o mais quotidiano possivel: corredor em hora de ponta.
Quando eles se cruzaram, ela sorrio para ele. Ele ficou apaixonado. Ele não sabia que o sorriso era venenoso. Ele bebeu o sorriso de uma só vez. Foi o fim... do mundo.

domingo, outubro 19, 2008

ilhas.

Podia falar-vos sobre a minha vida, mas isso era muito enfadonho, não era?
Obrigado à academia.

sábado, setembro 27, 2008

!?

Existem aqueles que vivem nas alturas, existem aqueles que vão até às alturas e existem aqueles que ficam a meio.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Necessidades (3)

Preciso de olhar para a direita e dizer: já sei o teu nome.

quarta-feira, setembro 03, 2008

dorme.

Regressamos ao dormitório da vida. Os raios de sol são escassos mas fortes. Ficamos embriagados pela sonolência, e o resto são ilusões, são sonhos. Gritamos que esta vida não chega e dormimos sobres os nossos próprios cadáveres.
S.O.S suburbia. Alguém à escuta?

sábado, agosto 23, 2008

Necessidades (2)

Preciso de estar em estado de graça. (é pedir muito?)

sexta-feira, agosto 22, 2008

Necessidades (1)

Preciso de uma piscina para mergulhar de cabeça.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Ao império dos corpos queimados.

Um corpo dividido em três partes. Um corpo de ódio, amor e solidão. Corpo de rei e de escravo.
O corpo queria escolher ser sempre rei, mas o escravo também é rei.
A guerra dos reis que queriam escravizar os outros reis começou, e os corpos ainda não eram nascidos.
Queriam ser absolutos, porque não sabiam lidar com o escravo que existia dentro de cada um.
E assim nasceu Hitler... sózinho com o seu escravo, num campo de concentração a fumar cachimbos de corpos queimados.

domingo, julho 06, 2008

Folia - Tu és Isso



Texto: Paulo Borges; Encenação/Direcção Artística: Rui MárioDramaturgia: Paulo Borges, Teatro TapaFuros; Direcção Musical/ Arranjos: Pedro Hilário; Direcção de Actores: Samuel Saraiva; Cenografia/ Adereços: Carlos Ramos; Vídeo: Samuel Saraiva; Desenho de Luz: José Miguel Antunes, Mário Trigo; Design / Web: Pedro Marques; Fotografia: Sérgio Santos Figurinos: Elisabete Figueira, Pedro Marques; Interpretação: Anabela Faustino, Filipa Duarte, João Rafael, José Redondo, Mário Trigo, Nuno Pinheiro, Paulo Cintrão, Rute Lizardo, Samuel Saraiva; Figuração/Teatro Reticências: Ana Rita Neves, Ana Trindade, Bárbara Carlos, Carolina Salles, Catarina Salgueiro, Catarina Trindade, David Severino, Inês Amaro, Marco Silvestre, Mário Portelinha, Nidia Roque, Pedro Manaças; Músicos: Alexandre Leitão, António Neves, Jorge Domingues, Miguel Costa; Montagem Vídeo/Soldado: Rui Zilhão; Vozes Off: Adele Sidaru, Jorge Telles de Menezes, Inês Figueira, Natacha Quaresma, Paulo Borges, Ricardo Ventura, Rui Lopo, Rui Mário, Vanessa Muscolino; Costureiras: Dília Queiroz, Adélia Canelas; Luminotécnia: Fábio Ventura, Gonçalo Africano; Apoio à Montagem: Emanuel Ventura, Marco Silvestre, Pedro Manaças; Limpeza: D. Lizete; Direcção de Cena: Sónia Tobias; Frente de Sala: Filipa Tobias, Tânia Tobias; Produção Executiva: Catia Martin; Direcção de Produção: Marco Martin
3 de Julho a 14 de Setembro 5ª a Sábado - 22h Domingos - 20h
Quinta da Regaleira - Sintra

sábado, junho 21, 2008

por incrível que pareça...

Os portões majestosos guardavam os segredos que conhecia, mas não me lembrava.
Fez-se a luz da saudade.

domingo, abril 20, 2008

O Extravagante (7) - choque

Ela: Já não se pode confiar em ninguém neste mundo!
Extravagante: Olhe, mude de mundo...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Os Olhos do MUndo e a Fortuna


SINOPSE
Fortune and Men’s Eyes (título retirado do Soneto XXIX de Shakespeare) é uma peça crua e amarga sobre a degradação e a brutalidade física e moral num reformatório masculino. O protagonista é SMITTY, que cumpre uma pena de seis meses por um delito menor. A peça foca a sua transformação de um ser humano essencialmente não criminoso e até um pouco naïf num prisioneiro empedernido, que acaba por se tornar ainda mais insensível e cínico do que os companheiros de cela. Os companheiros de cela são três: ROCKY, oportunista, manhoso e gabarolas; QUEENIE, agressivamente “bicha” quando lhe convém, que manobra o sistema iníquo do reformatório em seu proveito; e LEO (“Mona Lisa”), um rapaz meigo que aprendeu a separar corpo e consciência para ir sobrevivendo. A interacção destes personagens cria a dinâmica da peça, uma tensão sombria que resulta na corrupção final de Smitty.

Texto: John Herbert Adaptação\Encenação: José Henrique Neto
Assistência de Encenação: Paulo Brito Execução Cenográfica: Carlos Ramos
Interpretação: João Vicente, José Henrique Neto, José Redondo, Luís Lobão, Tomás Alves
Produção: Edipoética
ESPAÇOKARNART, Rua da Escola de Medicina Veterinária 21, 1000-127 Lisboa
Reservas:
966864730
918991330
grupo373@gmail.com
grupo373.blogspot.com

quarta-feira, janeiro 02, 2008

ouvir...

"No palco, na maioria dos casos, apenas assumimos um ar de ouvir com atenção."

Constantin Stanislavski

quinta-feira, setembro 20, 2007

Valete Fratres!

Para sempre, um enorme amor nos iluminará os corações, para sempre em Folia!, agora um enorme vazio, sem saber muito para quem nos havemos de virar.
Se calhar estamos no começo de uma transformação no mais íntimo de nós.
Se calhar estamos no começo de uma revolução.

terça-feira, agosto 28, 2007

Depois dos porcos que falam...

Sempre ouvi falar de gajos de meia idade que afogam as mágoas com bebidas alcoólicas.
Durante meses, sempre que chegava a casa a altas horas da noite, deparava-me com o meu vizinho do 4º andar a cair de bêbedo pelas escadas e sempre a queixar-se da vida com um discurso que mostrava uma suspensão temporal na vida deste individuo.
Depois de me ter cruzado com este homem para aí umas vinte vezes, comecei a perguntar-me se depois de terem inventado um porquinho chamado Babe e que sabe falar, não teriam também inventado uma mágoa chamada Vanda e que sabe nadar.
Cuidado meus amigos: afoguem as vossas mágoas antes que elas aprendam a nadar!

Sexto

Este elevador é a minha amnésia.

segunda-feira, agosto 20, 2007

....

Desta vez fica só para mim.
Dancemos.

segunda-feira, agosto 13, 2007

O velho é que sabia.

Que, palhaços do circo do Senhor,
sejamos loucos do mais belo siso
transformando em jogo a nossa dor
e a dádiva das lágrimas em riso.

Agostinho da Silva

Folia!

Texto: Paulo Borges

Encenação: Rui Mário

Pelo Teatro TapaFuros

Quinta da Regaleira - Sintra
de 5 de Julho a 16 de Setembro
5ª a Sáb.: 22h Dom.: 20h


«A noite abre-se em luz. Nocturno cantado em voz de árvore, de atento mocho. Vozes muitas que anseiam paz. Vozes do mundo, no mundo... Folia nos ilumina, folia nos inflama! Flama de cor a romper solidão, a romper surdos gritos. Dos caminhos da Terra surgem homens e mulheres que sentiram uma voz que chama, em chama. Arde-lhes no peito. É o tempo? Os portões abrem-se, a mansão tem muitas portas, luz habita os salões e ri do serão... Esta a luz que vestirão. Homens e mulheres da Terra, convidados para a festa da Luz, convidados em mistério.» Rui Mário

Texto: Paulo Borges; Encenação/Direcção Artística: Rui Mário; Dramaturgia: Paulo Borges, Teatro TapaFuros; Direcção Musical/ Arranjos: Pedro Hilário; Direcção de Actores: Samuel Saraiva; Interpretação: Carla Dias, Filipe de Araújo, João Vicente, Paulo Cintrão, Mário Trigo, Rute Lizardo, Samuel Saraiva, Vera Fontes; Músicos: Alexandre Leitão, António Neves, Jorge Domingues, Miguel Costa; Cenografia/Adereços: Rui Zilhão; Coreografia: Mercedes Prieto; Vozes Off: Elisabete Figueira, Jorge Telles de Menezes, Inês Figueira, Natasha Quaresma, Paulo Borges, Ricardo Ventura, Rui Lopo; Desenho de Luz: José Miguel Antunes, Mário Trigo; Design / Web: Pedro Marques; Fotografia: Sérgio Santos; Figurinos: Elisabete Figueira, Pedro Marques; Costureiras: Ana Tobias, Doroteia Tobias; Luminotécnia: Fábio Ventura, Facas Valente, João Rafael, Laura Scheidecker; Apoio à Montagem: Emanuel Ventura, Gonçalo Africano; Direcção de Cena: Marco Martin, Rui Mário, Sónia Tobias; Frente de Sala: Ana Rita Neves, Catarina Trindade, Inês Amaro, Joana Martins, Maria Silva, Tânia Tobias; Produção Executiva: Sónia Tobias; Direcção de Produção: Marco Martin

quinta-feira, abril 05, 2007

Naquele lado da rua

Do outro lado da rua, um louco suicidava-se do rés do chão enquanto um velho cego passava e bengaleava contra sacos de plástico.
Cada vez mais, os calções dos miúdos colavam às pernas por causa do calor e continuavam a jogar à bola.
Na esquina, um pássaro acabava de levantar vôo enquanto a comida passava, levantada do chão pelos braços gordos de uma mulher com pressa de chegar à hora do almoço.
Do mesmo lado da rua, o sol batia contra o vidro reflectindo espirais multicolores para o espaço.
Um louco suicidava-se do rés do chão com esperança da morte e de que ninguém abrisse a porta do quarto. Um louco suicidava-se na encenação da queda no meio do passeio. Eu assistia à queda e ao calor que lhe aparava a roupa. Ele revolvia os braços e as pernas numa agitação cada vez mais rápida até que bateu no chão. E morreu!
E só depois gritei e vi o sangue a espalhar-se pela rua. Alguém abrira a porta do seu quarto e fechara a janela e o sangue já chegava ao lado da minha rua. O louco estava morto. Causa da morte: a sua personagem.

terça-feira, março 20, 2007

Naquele caminho que me perdeu

Sei as poças daqui. Sei os seus lugares indevidos e os seus humores de catástrofe. Mas não sabia que a chuva vinha de mim. Que havia sempre o outono em cada àrvore. Que a pressa era tão lenta como a queda de uma folha de um ramo alto. Sabia que não existiam anjos, mas homens e mulheres que voam. Não sabia que, afinal, tenho uma certeza: as casas. Trepava uma para ver o fim do mar, para ver como era ser longe. E era longe e não acabava no meu olhar. O silêncio dos telhados terminava na ponta dos meus dedos roídos e, nós, quedos perante uma imensidão que nos engolia. Eu preferia adormecer rocha, para quando o tempo devorar, eu permanecer matéria. Ou levantar-me falésia para ter o doce do mar a lavar-se em mim. Do alto, vi o meu coração pendurado por uma mola no estendal. A secar. Ainda a bombar sangue do nada. Menos um peso. Menos um coração. Para quê se me faz frio? Antes as minhas mãos com asas.
Antes que descesse para a escada, pensei no salto grande que teria de dar se quisesse pousar de pé. Tive de pensar no balanço e deixar que o meu corpo rompesse as minhas roupas e saltasse. Lá foi ele, entre a vertigem e os prédios. Cá de cima, ouvi um baque. Não! Um Bach que saiu-me monstro das mãos. Por instantes, tive de repetir o meu pensamento para coordenar-me no meio dos gestos que fazia horrorizada. Afinal, o destino poderia não ter fim. Tive de calar-me para que pudesse ouvir que ainda pisava o telhado, mas o meu corpo lá em baixo! Mas o meu corpo aberto para que todos vissem como eu era, para que todos vissem a minha beleza liquidada no chão. Para que todos vissem o coração que me faltava e que estava pendurado num estendal a secar.

sexta-feira, março 16, 2007

em cena.

" A revolução é a máscara da morte."
de 15 de Março a 2 de Junho 5ª, 6ª e Sábado 21h30
Anfiteatro da Cantina Velha da U.L.
Metro da Cidade Universitária

Ficha Técnica

Actores: Ana Gil, Joana Guerra, João Vicente, Madalena Palmeirim, Susana Gaspar, Nuno Matos, Soraia Granja, Laura Tomás, Reinaldo Almeida, Flávio Nunes, Miguel Silveira Encenação: Ávila Costa Tradução: Anabela Mendes Assistência de Encenação: Miguel Fonseca e Ricardo Silva Dramaturgia: Anabela Mendes, Ávila Costa, Rui Teigão, Ricardo Silva, Miguel Fonseca e gtl Produção: Rui Teigão e gtl Desenho de Luz: Ávila Costa Banda-Sonora: João Santos Design: João Vicente Operador de Luz: Pedro Marques Operador de Som: João Santos Figurinos e Slides: Eduardo Guerra e Luísa Seixas Técnicos de Luz: Pedro Sousa e Paulo Oliveira

Agradecimentos: Dr. Luís Fernandes, Dra. Valentina Matoso, Dra. Isabel Bruxo, Sasul, Aeflul, RUL, FCG, Profª. Anabela Mendes, Profª. Vera San Payo de Lemos, Profª. Maria João Brilhante, CET, Prof. Fernando Guerreiro, Luís Miguel Cintra, Teatro da Cornucópia, Amélia Barriga, Profª. Manuela Ribeiro Sanches, Isabel Aires, Sofia Meireles.



sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Fragmentus Suburbia (14): entranhas.

Porque o rapaz foi para a cidade no primeiro comboio, deixou de recordar os subúrbios, aquele, o da sua infância. O desafio era outro, o da faculdade. A realidade crua do lápis e da caneta que constroem a vigas secas de betão. Uma realidade que ainda não lhe está nas entranhas, qualquer coisa de repulsa. Afinal, o rapaz só queria regressar para a pureza deste espirito.
A cidade faz esquecer as origens, até ao momento em que nos esmaga na hora de apanhar o comboio de volta para casa. Foi isso que o rapaz sentiu, que já não pertencia a lado nenhum, mas quando o frio da noite gela os ossos na estação terminal da cidade, os olhos enchem-se de lágrimas porque ele recorda-se que nas entranhas há qualquer coisa que viveu, qualquer coisa que ele recordava como um palco onde as luzes dos projectores fulminavam as vidas das donas de casa que estão no comboio.
O comboio chega ao subúrbio, o rapaz sai da estação, pensou em alguma coisa como "apesar de tudo, estava mais quente dentro do comboio". Sobe a rua que dava para sua casa, ouve o comboio a partir com o seu som gasto e velho como uma veia que leva o sangue a todas as casas.
Faz muito tempo que ele não pensava nisto tudo, como um relâmpago lembrou-se dos poetas que conhecera e que lhe falavam de um salão de baile e de um teatro que ficava por baixo de uma igreja. Foi no meio destas entranhas, destes pulmões podres, que ele voltou a olhar para trás no cimo da rua, para ter a certeza de que ainda sabia onde espreitava a lua.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Os dias de amanhã

Hoje sou só eu e os trigos
diamante pedra em cristal pistola a assobiar

Se fosse sempre só eu
e tantos em mim e tanta emoção em tudo

Se eu fosse só poucos passos
em labirinto desmanchado
seria encontrada facilmente

Se eu afogasse na corrida
não seria
não seria apenas como o esforço que ser eu requer
não seria a torrente na brisa
e penas de pássaro a disfarçar o crime

Espero que o mundo não me acabe na mão

Como corpo com torneiras
e ponteiro partido a apontar para a hora
vagueio fora de mim
sempre em direcção errada
como um peito na mão

Danço demasiado no deserto
Por isso, desapareço
e espaireço dentro do rio
onde tenho quatro braços para ser mais rápida
e ir com os barcos
e dar volta ao mundo

Deixas-me sempre sozinha na estação
Por isso, fico sempre a brincar com o cão
e, juntos, coçamos as nossas pulgas

Espero que o teu comboio parta
para não achares mal que vá beber com os marinheiros às riscas
e que parta um copo antes de comprar o bilhete

Colo-me sempre ao poste enquanto tu já descansas
Sempre morei longe e tenho de ir para longe, todos os dias

Moro num sítio feio com bela gente
que percebe o tempo
que, para além da beleza, percebe a fealdade
e percebe a margem das coisas
a separação união

Moro em mim onde quer que esteja
sem o cobertor e com moeda no bolso

Afinal, aprendi a vaguear sozinha
Afinal, suo muito das mãos para conseguir agarrar sempre o cabo

E, quando volto para casa, à noite,
posso chorar no comboio porque
sei que não me vão roubar...o coração.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Flor em Inverno

As sementes nascem no duro ventre
e os pássaros morrem em pleno vôo
enquanto descaíam-se sobre si mesmos
e afligiam-se em vergonhas tão inocentes

Se a flor falasse em beleza
as suas pétalas não seriam mais como dedos de anjo
Se a flor vencesse a tempestade
deixaria de ser caule de lua
Se a flor não baloiçasse na brisa espontânea
não vestiria saias
Se a flor fosse grande
teria pé de criança sobre erva

Se eu florisse cada instante
e sempre pedisse o meu sol ao céu
e criasse espinho de pequena
não poderia ter lâmina

nem ser perdida

ter o meu canteiro
ser flor com pólen
para retirarem-no de mim
e espalhá-lo sobre meu solo
para sentir sempre doce

segunda-feira, dezembro 04, 2006

2ª interrogação de amor

Tenho dentes de cavalgada
E esfera armilar em fogo
agarrada às minhas mãos

Sou sangue em fervura
em ebulição esquecida
Posso apagar simplesmente?
Ser um ponto que morreu no passeio?

Já não sei o que foi de ti
Onde é que tu andas?
Na minha mente?
Estás longe, cada vez mais longe...

Já és um amargo na boca
Já perdi os dias e nem me interessa saber quantos foram
Pois, agora, regulo-me pelo meu tempo
Sei-o melhor

Tão cedo? Uma lembrança?
Afinal, parece simples.

É só apanhar os vestígios que, às vezes,vêm agarrados à roupa
É só diluir o pensamento cronometrado para o passado
para saber que ele não está aqui, agora
É só afastar a mão do corpo à procura dum poro
ainda em transe de prazer
É só esperar até deixar de esperar
É só deixar de ansiar nos órgãos, no dentro, no fora,
nos cabelos, nos braços, no corpo inteiro
É só deixar de imaginar casas de banho
É só deixar-me de vestir de leopardo para não poder atacar-te mais.

Afinal, parece simples.

Pobre coxa depenada
Sem pio
Ficaram as tuas plumas a curtir no ar
E eu, prostrei-me contra um tronco, bêbada, sem ti, cabrão.

domingo, dezembro 03, 2006

Urgência em ser burro.

Às vezes o actor tem de ser burro, às vezes precisa de pôr duas palas nos cantos dos olhos para se libertar, para não saber de nada, para ser burro de carga, daqueles que ainda não aprendeu o caminho de regresso a casa.

quarta-feira, novembro 29, 2006

mãos começadas.

Foto de Carlos Ramos

"Não, vão a pé, vão a pé que lhes faz bem, como outro homem qualquer..."

Rui Mário.

quarta-feira, novembro 22, 2006

........

De todos aqueles gestos que davam signos e daquelas frases de amor em corpo de ódio fingido, só uma ficou cá bem no fundo. Nessa frase dizias: "...para sempre!". E eu acreditei... em corpo de ódio.

domingo, novembro 19, 2006

Aquilo que podia muito bem ser.

Peguei no pincel embriagado de acrílico, aquele instrumento era o prolongamento de uma mão sem habilidades, tosca e sem vigor. De todas as coisas que tinha visto naquele dia, o que mais me impressionou foi aquele menino do documentário com a espingarda na mão.
Olhei para o papel grosso que estava na parede, e destas minhas mãos crescidas sairam meninos pretos de África com carrinhos de rolamentos e trotinetas nas mãos.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Violoncelo

O meu violoncelo tem o pranto que me pertence. O meu violoncelo tem as torrentes de amores e pássaros desonrientados. Mesmo sem cordas, o meu violoncelo continua a ranger a dor na madeira. E, cada corda, é açucar a jorrar da fonte. O meu violoncelo tem saudades de mim, toca por mim quando não me consigo levantar do chão e dá-me uma sonata de presente.
Não precisas falar de ti porque hoje vi-te a tocar. Transpiravas que nem a pele dourada de cavalo sobre o campo, desenfreado e selvagem. Murmuravas uma respiração tão silenciosa como a pausa da tua música. Ouvi-te, ouvi as tuas mãos, os teus dedos, os teus pulsos. Ouvi o grito a sair do teu estômago e a amarrar-se nas tuas cordas vocais até sufocar. O que ouvi foi lindo. Fixei-me na cadeira e voei até junto de ti. Irrompi nas tuas notas como véu ao vento, como liberdade total para estar onde quisesse. Viajámos juntas até onde a imaginação não criara ainda uma imagem.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Só porque não falava de amor há muito tempo.

" - De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se de outro amor. Do que dói."

Luis Sepúlveda in O velho que lia romances de amor

sábado, novembro 04, 2006

Texto de transbordação psicológica.

Em caixa preta, de tábuas de madeira pintadas de preto. Uma luz fraca ilumina a plateia de cadeiras vermelhas. Um movimento que diz já estar farto de esperar, outro que crê num único Deus. Parcelas para dentro, outras para fora.
Todos os elementos nascem de saturação, de transbordação, de tudo aquilo que os olhos já não conseguem guardar. Deitei-me só mais uma vez naquele chão pintado, só para sentir o rasto de cheiro que as tábuas iam deixando. As vozes desencontram-se afinadas. O senhor do cabelo pequeno brinca com a menina dos olhos grandes. Mutação completa de anjos em diabos, e de grandes em médios e pequenos.
A coisa acende-se, ilumina-se, prontifica-se. Ninguém separa esta unidade.

domingo, outubro 22, 2006

não gosto de acordar na incerteza
para a contagem decrescente ou crescente.

As ambulâncias já vêm a caminho
com as sirenes a anunciarem um desastre
que me amarrará à cama
em silêncio devoto
e com o sentimento a furar os lençóis, a suar pelos braços,
pelo peito, pela barriga

Quando comer nem vou conseguir mastigar nem saborear
de tão ferida que está a minha língua, a minha garganta
arrebentada pelas explosões, o meu maxilar
deslocado pelo vento
em crise nas ruas vazias.

Quero que o vazio se penetre
nos teus cabelos e te arranque as raízes do cérebro
até os olhos serem apenas duas órbitas em flutuação permanente
Para que o vazio seja tanto que não haja espaço
para o sonho, para o pesadelo. Só o vazio
na sua contemplação oca onde não há esferas nem
quadrados com ângulos nem gemido
apenas um furo onde o
fim é sempre o início,
o iníco sem chão nem
escadas para subir ou descer

Apenas a morte
a morte parada a preencher todos os lugares
a morte para a próxima passagem
onde a dor é tanta que o coração bate mais para saltar do peito

Dá-me um beijo de boa noite
para poder adormecer

sexta-feira, outubro 20, 2006

O meu Guerra clandestino

Às vezes, sou guerreiro fugido do campo de batalha para me render, no campo, à árvore grande, espada de osso contra espada de madeira. Fico aliviada daquele som de bomba, da pólvora espalhada nos rostos dos atiradores e do cheiro a agonia.
Por outro lado, sinto que a Guerra é só minha, aquelas são as minhas estratégias e eu sou o comandante passado a ferro. Mas, afinal, nada me pertence. Só o meu coração, semeado, lavrado, colhido, comido nas trincheiras de Guerra.
Os pelotões avançam até ao fim da linha, mas o inimigo já partiu. Já se sente a saudade da paz, dos passos até à cafetaria para tomar qualquer coisa que se assemelhe com o doce.
Eu. Chamo-me Joana. E Guerra. E amor. Sou isto e mais coisas como as coisas que nâo têm nome. Nesta Guerra, sinto a dádiva da loucura a invadir-me o corpo, a queimar-me o anti corpo. Quem sou eu? Eu sei. O que sou eu? Não sei: mesa de cabeceira, bicho do mato, transe de passagem? Sou Guerra. Sou Guerra. Não consigo medir a densidade, mas sinto-me densa como badalo de sino a chocar no metal. Não consigo medi-la nos meus pulsos nem vê-la na minha barriga, mas sinto os pesos de nuvem.
Acordei e tinha um homem ao meu lado. Era um soldado a esvaír-se em sangue. O seu camuflado era agora um invólucro a chupar sangue. “De que te valeu essa luta?”, perguntei-lhe. “Eu ainda estou vivo. Ainda hei-de lutar mais”. “Não. Estás enganado. Tu já morreste há muito tempo. Dentro de mim”.

quarta-feira, outubro 18, 2006

?

Não me apetece mais nada. Não me apetece mais ninguém. Só tu me apeteces.
Era tão bom que viesses em caixas de bombom para comer-te aos poucos: deixar que o chocolate derretesse lentamente na boca num prazer lento afundado na poltrona.
Era tão bom que fosses lápis para escrever-te nas paredes de minha casa, no meu corpo, sem vírgulas nem pontos final.
Era tão bom que fosses reticências para prolongarmos o que quisessemos, aquilo que não tivesse significado exacto e que não dissesse nada aos outros. Só nosso.
Era tão bom que fosses o botão da minha camisa para desapertar-te quando me apetecesse e dar-te a liberdade do ar a passar entre as linhas cosidas.
Era tão bom que fosses corda de violoncelo para exercitar-te, fazer música de ti, fazer amor musical contigo e acariciar-te num dó vibrado.
Era tão bom se fôssemos simples de amar.

domingo, outubro 15, 2006

Paris Je t'aime.

"Vem! Eu sei um atalho."

quinta-feira, outubro 12, 2006

As ruas são os meus papéis de lustro coloridos e aguarentos em que passeio as minhas saias e esvoaço na suas rodas vivas de movimentos dançantes. Nas ruas encontro o meu ser espalhado nos livros, nos reflexos dos vidros, nas montras garridas e nos tecidos aveludados, nas músicas sem música, mas com dó e piedade. Na matéria desabafo-me. Ao encontrar-te, meu anjo, sei que fui bruta, mas estava assim, amarga e dura.

quarta-feira, outubro 11, 2006

A CURA

Porque é que tenho baratas na cabeça? Elas não deveriam estar aqui. Elas deveriam estar na cave ou a passear por cima do falecido vizinho. Mas elas estão aqui, na minha cabeça, a sugarem-me pedaços de cérebro, como se eu fosse o seu caixote de estimação. Sinto as patas a andarem, a pararem, a moverem-se como se houvesse muito sítio para onde ir na minha cabeça. Já as apanhei nos meus pensamentos, nas minhas memórias.
Já tenho baratas nos olhos. Às vezes, deixo de ver porque uma barata resolveu vir espreitar. Deixei de conduzir, mas, agora, posso beber mais. Pedi a um amigo para me espezinhar a cabeça, para matar essas filhas da puta insensíveis. Porquê a minha cabeça quando há aí tanto cabrão? O meu cabelo está diferente, claro que está. As baratas estão na minha cabeça e o cabelo cresce aí. Agora tenho cabelo preto como corvo ou como BARATA. Pintaste o cabelo? Não, já disse que não foda-se! Tenho baratas em mim. Elas violaram-me, eu sei que sim. Não, não foi um sonho, foi uma tortura, baratas gigantes, com mil patas cada uma, com olhos de sangue e antenas.
Apanhei um táxi porque chovia e já tinha as calças molhadas até aos joelhos. Apanhei um daqueles táxis da Avenida Principal que dá para todo o lado e todo o lado vai lá dar. Apanhei o táxi e cheirava a mofo, humidade, coisa estranha. O taxista, bigodeiro, porreiro, abafava com a mão qualquer coisa ao seu lado. Espreitei do banco de trás. Era uma cabeça. Cabeça feminina, lábios vermelhos, grandes brincos prateados e uma pastilha elástica na boca. Cheirava a mentol, era isso. De mofo a mentol. Perguntei-lhe que fazia ali aquela cabeça. Respondeu-me que barafustara com o preço que tinha a pagar e ele não foi de maneiras e zás cortou-lhe a cabeça. Eu disse-lhe que havia pessoas que não sabiam pagar por aquilo que usufruem. É que sabia que aquilo ia dar uma trabalheira ao homem para limpar, então, apaziguei-lhe a mente dizendo-lhe que ele fez o que tinha a fazer. Mesmo em crise os táxis são táxis. São pretos e verdes ou amarelos. Prefiro os pretos e verdes. Bem, ali estava a cabeça e ainda resmungava. Impressionante. Chata do caraças. Se fosse eu, já a tinha dado aos miúdos para eles jogarem à bola.
Queria livrar-me das baratas. Então, fui até ao Cais do Sodré. Pensei: “Aqui há muita gente com doenças, mais barata menos barata não lhes deve fazer diferença”. Já me tinham dito que era assim que se fazia. Espetei-me por um bar adentro. Pedi um shot. Outro. Outro. Outro. Outro Já nem sabia a quantas ia, com quem falava mas acho que falava com alguém e que arrebentei contra o balcão e vi sangue e dentes e cabelos. Arrebentei contra garrafas, peguei noutras, esbofeteei gajas que se metiam em cima de mim, esfolei as bochechas de uma boneca loira, andei à porrada vezes e vezes na mesma noite e já ninguém me apalpava, rasguei e dancei em cima de mesas partidas com bêbados a cuspiram e a vomitarem o alcoól do almoço, do lanche e do jantar! Lixei a minha cara e fiquei uma merda, merda durante duas semanas. Numa noite, não fui mulher, não fui homem, fui BARATA. Adeus amigas!

sexta-feira, setembro 29, 2006

Interrogando o Sr. Verme.

Então é este o paraíso dos tontos?
O baile de gala metafísico?
O grosso dicionário de páginas em branco?
A bolha de sabão de lavanda flutuando para o infinito
Desde o telhado do palácio dos confetti?

Só em si tenho fé, Sr. Verme.

Charles Simic.

terça-feira, setembro 26, 2006

Ão Ão

Eu sigo as modas. A minha moda é não ter moda. Caso contrário, ainda me acusam de ser neo-qualquer coisa. Eu tenho modo. E isso basta-me.

Não percebo é como é que a moda das coleiras passou porque vocês são todas umas gandas cadelas.

segunda-feira, setembro 11, 2006

Palco de espectros.

Foto de Gonçalo Morais

Debaixo de um céu escuro, no meio dos mistérios do nevoeiro, um palco grande ilumina-se. Um sorriso, um olhar, uma risada, a fúria de uma morte ou de uma loucura.
As personagens enchem o palco cheio do pó das estrelas. O arco espelha o rosto de dois irmãos, dois animais que se preparam para atacar em contra luz. O público dá a primeira risada quando o cómico dá a deixa, ou então chora quando o príncipe enlouquece ou então quando o coração sai destroçado.
Em cima de geometria andam as personagens, numa corte de espelhos que reflectem na floresta encantada e atrás das torres do castelo. Há qualquer coisa que não pode ser magia. Os dedos, o nariz e as orelhas caem no chão.
O primeiro projector acende. Qualquer coisa vindas das entranhas chama por nós, a ansiedade é enorme, a palavra fica gigante e os olhos, as mãos e os pés também.
A personagem entra, a personagem sai, a personagem agradece. A personagem morre. Tudo volta ao inicio.
Palco de espectros, palco vazio.

sábado, setembro 02, 2006

às vezes tem de ser...

- Então do que falávamos? Enquanto engoli este cigarro, tossi e não te ouvi....diz lá. Volta lá ao início.
- O início? Olha, agora é difícil, já estava a caminhar para o fim. Bem, nada de especial. Aliás, nada de especial é fraco...falava da memória dos tempos.
- Ah, esses. Epá! Estás nostálgico e já não tenho grande pachorra para isso. Só quando estou bêbado e mesmo assim desatino com certas pessoas que pensam que as suas memórias são superiores às dos outros. Chiça! Já experimentei uma boa pontaria, marota, para pontos fracos do corpo...mas não resultou. Sei lá: distrair com um riso, com uma blasfémia...apalpar e ser bruto, ao menos assim calam-se, sentem-se ofendidos e vão-se embora...

quarta-feira, agosto 30, 2006

Coisas da Mafalda I

Pergunta o Miguelinho:
Que é que te parece que se tem de fazer para que os outros percebam que se é um bom tipo?

Responde o Manuelinho:
Olha, Miguelinho, o que deves fazer é que os outros apenas julguem que és um bom tipo...
porque se chegam a perceber, estás tramado!

segunda-feira, agosto 28, 2006

Vamos!

Large fallen Horse, Robert Doisneau

Vamos! Levanta-te, não te armes em rebelde sem causa, deixa o raio da bebida de lado. Põe-te de pé!
Olha à tua volta, estão todos a olhar para ti e tu deitado, já em pânico, fazes figura de cavalo morto. Pega nos CD's que trazias na mochila, provavelmente estão partidos, mas pelo menos mete-os a tocar num caixote do lixo. Acerta em todos os buracos que encontrares nessa calçada, especialmente aqueles que têm água lá dentro.
Vamos! Ainda não terminamos esta conversa surda de animais.

sexta-feira, agosto 25, 2006

Gosto do amor e de todas as formas físicas que o permitem exprimir-se.

P.S. cit. do livro Play a Fair Love, de Potion Lady, ed. Kiss me or Die. Trad. Joana Guerra

segunda-feira, agosto 14, 2006

Padeço de saudade múltipla. Se o céu ainda não me esmagou é porque tenho espirro de ferro que o mantém longe. Tenho o quarto desarrumado e pó em várias formas. Tenho livros abertos e só lhes cuspo mais desprezo. Tenho um spray para pintar nas paredes e só consegui pintar as minhas bochechas. Se o coração falasse...o meu diria muitos arrotos. Como tal rei em cima de uma fonte. Um arroto como onda de mar que veio acima e desfez-se em som.

Meu reino

Ao cair do pedestal levarei comigo as ninfas e as guardiãs dos meus cabelos de rainha. Nesse dia, como noutros, vou saltar no meio das gaivotas e cantar com elas a minha liberdade e o meu glorioso passo. Aí, também irei ser rainha dos pássaros. Irei ser coroada no cimo da árvore mais frondoso da floresta e levada nas asas brancas das aves reais para o meu trono de pétalas. Assim, ficará completo o meu reino. Quando os céus forem meus ordenarei sempre sol, luz límpida e cristalina para aquecer as águas onde se banham as aprendizes jovens, deixando-as prosseguir na sua poesia de auréolas e príncipes. Agora, sou a rainha do meu reino incompleto. Quero o meu melro e o meu pardal para me cantarem músicas nas noites prateadas cheias de pós exuberantes a pairarem no ar.


Um riacho.

Um sítio, uma memória, duas pedras demasiado grandes para estarem dentro de uma só cabeça.
É preciso voltar a essas pedras para elas desaparecerem.
A verdade, é que os sítios só são especiais pelas memórias: lembrar que havia um riacho seco numa praia no meio das dunas, basta haver qualquer coisa boa nesse sítio para o riacho se encher de água doce.
Lembro-me que havia um riacho, não me lembro se tinha água ou não, mas lembro-me do riacho.

segunda-feira, agosto 07, 2006

Lá vou eu.

Fui malhar para uma praia deserta!

quinta-feira, agosto 03, 2006

De mal a pior...

Quando escrevo, escrevo sempre pela mesma razão. O que hoje difere das outras vezes, é que hoje estou sem inspiração.
Dou a felicidade a quem adivinhar essa razão.