sábado, fevereiro 11, 2006

O TeleVisionário (5): quarto de hóspedes

Ela disse: "O mundo é um tê zero."

E depois foi para o quarto de hóspedes.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fragmentus Suburbia (10): atrasos.

Nem tudo está assim tão cornometrado e ligado como podemos pensar.
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".

Gramaticas

Os acentos a mim nao me comovem.

O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
.
Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

hUm

Ontem tinha tanta coisa para dizer. Ontem a noite tinha-me por inteiro na ponta da lingua!
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sintoma (9): autor e autoria

Pior do que ficar refém das próprias palavras:

...desconhecer o valor do seu resgate.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O Impertinente (7): desencontro

"Não saio daqui enquanto não escrever umas palavras."

Quando elas apareceram, ele já lá não estava.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Fragmentus Suburbia (9): prazo de validade

É preciso fugir.
É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.

No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Há um tempo para a fuga e um tempo para a permanência.
Tempos que se cruzam, sentimentos que coincidem.

A linha que vai dar à saída é a mesma que reencaminha para a entrada.
Por isso, é preciso saber esperar...
...enquanto é tempo.

Interrupção

- O seu bilhete, por favor?
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo por nossa conta.

Foto de Carlos Ramos

O frio do Inverno congelou as nossas lágrimas de saudades. O mar estava à nossa frente e o vento sussurrava poemas de amor. Ficámos a ver o Sol a desaparecer à medida que íamos fechando os olhos, à medida que o chão e o céu desapareciam, à medida que largávamos a tristeza que nos inundava o sangue. Havia qualquer coisa que nos percorria o corpo, qualquer coisa que ia das lágrimas à ponta dos pés.Pouco a pouco, o mundo ia-se tornando nosso, aquela paisagem ia-se tornando nossa. Os cabelos loiros de um pequeno príncipe apareceram no sítio onde o Sol se escondeu. Estava tudo por nossa conta e do pequeno príncipe... era só abrir as asas e voar.

terça-feira, janeiro 31, 2006

David Cronenberg na Cinemateca


Stereo: 5ª, 2 de Fevereiro, 19h30

Crimes of the Future
: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h

Shivers
: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30

Rabid
: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h

Naked Lunch
: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30

The Brood
: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30

Scanners
: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30

Videodrome
: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h

The Dead Zone
: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30

The Fly
: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h

Dead Ringers
: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30

M. Butterfly
: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h

Fast Company
: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30

Crash
: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h

eXistenZ
: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h

Spider
: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30

A History of Violence
(antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30

Sintoma (8): o trabalho poético de despoetização

Ela disse: "A vida não se confunde com a arte."

Em seguida, nasceram flores.

Ela debruçou-se para colher o poema.

domingo, janeiro 29, 2006

O Extravagante.

Num daqueles dias cheios de Sol, o Extravagante estava em casa farto de pensar de mais. Na verdade o facto do dia ser daqueles cheios de Sol é absurdamente insignificante para a narrativa deste pequeno excerto da vida quotidiana e "pacata" do Extravagante. Também não me interessa muito fazer a descrição fisica e psicológica do dito cujo, uma vez que assim posso tornar esta personagem imprevísivel e livre de qualquer responsabilidade moral.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.

sábado, janeiro 28, 2006

Educação televisiva (3)

A educação televisiva é feita de pequenas revelações.
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:

"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"

Educação televisiva (2)

A educação televisiva é feita de pequenos equívocos.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.

Educação televisiva (1)

A educação televisiva é feita de pequenas derrotas.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Músicas...

Preciso de silêncio total para escrever. Silêncio total, não! Preciso de ouvir os barulhos do vizinho tão entranhados em mim preciso de ouvir os carros que passam preciso de ouvir as conversas esvaziadas no espaço preciso de ouvir a trela irrequieta de cão ainda mais irrequieto preciso de ouvir o suspirar preciso de ouvir a gotejar preciso de ouvir o salto alto de coxa firme preciso de ouvir murmurar segredos preciso de ouvir o latejar de uma veia preciso de ouvir um cantarolar expoente de lirismo preciso de ouvir novos conselhos preciso de ouvir as pausas preciso de ouvir o coração derramando rios de emoções preciso de ouvir chuvas em transe preciso de ouvir chinquilhar o vidro e tremer a mesa preciso de ouvir o zumbido dos passos preciso de ouvir a máquina a funcionar. Enfim, preciso de silêncio total para escrever.



domingo, janeiro 22, 2006

O Impertinente (6): acto cívico

As votações democráticas prestam-se à encenação da vivência comunitária.
Veja-se, por exemplo, o caso de um rapaz profundamente imbuído do dever cívico, novamente lançado às feras em pleno recreio escolar.
De um momento para o outro vê-se cercado por figuras inesperadas que transportam consigo temíveis exigências performativas.
Após alguns instantes de mútua inquirição, compreendem que afinal vivem todos nas mesmas ruas, na mesma localidade, no mesmo microcosmos suburbano.
Gera-se uma familiaridade distanciada, impõe-se o menu do dia sem primar pela subtileza: "Então, votou bem?".

Entretanto, ela, do lado de lá, murmura-lhe um nome.
E sorri.

Mais tarde, em pleno acto cívico, a angústia eclode, imparável: "Como era mesmo o nome dela?".
Sofrendo pela ausência do substantivo próprio dela, mostrou-se incapaz de acertar no substantivo presidencial.
Quando se preparava para recolher os certificados de substância, a senhora da mesa pergunta-lhe: "Substantivo próprio, é o senhor?"
E foi então que ele se denunciou: "Não, sou o outro. Sou sempre o outro."

Conversas de café.

Eles os dois estavam sentados num café a conversar, falavam de tudo e mais alguma coisa, das coisas boas e das coisas más. Era uma conversa cheia de momentos de silêncio, durante os quais eles esperavam ouvir do outro aquilo que mais queriam ouvir.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Ler no nevoeiro

Perguntavas-me, ávido de novo conhecimento, se o nevoeiro, o mesmo de hoje, escondia segredos. Desconheço a minha resposta. Aliás, sou tão humano quanto tu para poder dizer-te algo de concreto e real a esse respeito. Sei que, enquanto a neblina passa, sinto-me a envelhecer nestas madeiras e que elas rangem as minhas feridas, mas vou sorrindo e sendo gentil. Sei que, enquanto a neblina passa, o mundo desafia-se a si próprio, faz paródias e tapa-se com um véu, um pano de fundo, onde navegam tempestades e recentes marinheiros que lutam pelas sobrevivências nas ondas terríficas.
Como a paisagem tem o nevoeiro, eu tenho o meu chapéu, a minha aba protectora de olhares furtivos e mastigadores de alma. No chapéu, enrolam-se os cabelos que desenham libélulas e anjos terriveis na minha cabeça e tecem camisolas de lã para aquecer os meus órgãos.
Uma vez, entrei nesse nevoeiro à procura de encantamentos e não de segredos. Nem me cheguei a perder, pois nunca soube onde estava. Lá, esbarrei contra uma máquina, o meu mecanismo desfiado em tiras de papel com poesia. Também, vi ninfas a amarem-se e a confundirem-se no branco evaporado da neblina.
Continuo sem saber a resposta à tua pergunta...segredos? Fiquei a saber um bocadinho mais, mas este será o meu segredo.

Uma questão de sorte.


Match Point, de Woody Allen

Poesia sem verso(s).

Porque por mais que nos queiramos esquecer da poesia, ela aparece sem avisar, não chega a deixar saudade.
Porque a poesia já não se faz em verso, não vou perder mais tempo a tentar descrevê-la.

domingo, janeiro 15, 2006

O Impertinente (5): vida interior

Tinha família, amigos, companheiro e trabalho bem remunerado.
Tinha cultura, ciência e também algum ócio.
Tinha talento, técnica e imensas capacidades.
Tinha loucuras, desvairos e um colchão de fazer inveja.
Tinha certezas, ocorrências e alguns esquecimentos.
Tinha saudades, comprimidos e bilhetes de avião.
Tinha seguro, conta bancária e défice orçamental.
Tinha convites, solidariedade e vida social.
Tinha gases, flores de estufa e natação ao fim-de-semana.
Tinha disciplina, hábitos e a novela das nove.
Tinha psicanalista, aulas de yoga e discussões com o vizinho.
Tinha piano, melancolia e umas mãos muito macias.
Tinha sonhos, utopias e uma certa inquietação.

(...)

Só não tinha vida interior.

Sintoma (7): verdade e discurso da verdade

"Estas queijadas são diferentes de todas as outras...porque são verdadeiras!"

O Mistério da Camioneta Fantasma.


Um espetáculo a não perder, mesmo!
Até dia 13 de Fevereiro, Sextas e Sábados às 21h no Teatro "A Barraca".
Encenação de Hélder Costa.
Entrada custa 6,25€ para menores de 25 anos.
"Seja teatreiro, seja um tipo porreiro!".

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Mundo é um Café.

Anda tudo tão desaparecido e tão cheio de pressa que mal vejo quem queria ver e o que queria ver. Fica tudo por meias palavras: "não te quero deixar ir porque ainda não te disse tudo, não vai demorar nada, só mais um minuto e não quero mais nada". Estava tudo preparado, as palavras e as frases muito bem pensadas. Mas há um olhar ou uma palavra a mais, a palavra chave já não abre a porta que devia abrir. Só precisava de tempo para me sentar e (re)pensar tudo, dar um abraço.
É preciso parar para matar as saudades e olhar nos olhos de toda a gente, reecontrar toda a gente, fazer do mundo um café, não faz mal que seja tudo por um minuto, não fazia mal que todos os dias acontecessem num só, assim nada ficava por dizer ou por ouvir, começar amores e acabar amores num só dia, ver o nascer e o por do Sol, dar um pézinho de dança, fazer um sorriso ou então ter o mais dramático desgosto de amor. Não é pedir muito, afinal era só um dia, era só tirar um dia para tudo isto, depois podia tudo voltar ao normal e ficar tudo por dizer. Mas enquanto esse dia não vem, tudo fica por dizer entre esse dia e todos os outros, neste pequeno café.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sintoma (6): a condição feminina


10, de Abbas Kiarostami

domingo, janeiro 08, 2006

Corpse Bride

"You may kiss the bride!"
Amor de vida e morte.
Um belo filme para ver à Tim Burton.


sexta-feira, janeiro 06, 2006

Poetas e Amantes (3)

Para ela, poetas apaixonados e amantes com pretensões poéticas são figuras tão desnecessárias como ridículas.

"Gosto de acreditar que os mais belos poemas de Amor se escrevem na sua total ausência.
E que os actos mais apaixonados são, evidentemente, desprovidos de qualquer romantismo poético."

Poetas e Amantes (2)

Sentir-se exclusivamente objecto de desejo ou objecto de inspiração.

"Eu mesma me certifico que nenhum deles se queira evadir da sua sua própria condição."

Poetas e Amantes

Aos poetas confiava as melhores palavras.
Aos amantes, os mais prolongados silêncios.

"Um poeta nunca é um bom amante.
De um amante nunca espero poesia."

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Memórias poéticas (6)

"Estou a ver as duas cabeças, de perfil, iluminadas pela luz de um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira: a cabeça de Jean-Marc, com a nuca num travesseiro; a cabeça de Chantal debruçada por cima dele a uns dez centímetros de distância.
Dizia ela: - Nunca mais tirarei os olhos de ti. Vou olhar para ti ininterruptamente.
E, depois de uma pausa: - Tenho medo quando o meu olho pisca. Medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana, outro homem.
Ele tentava erguer-se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Ela abanava a cabeça: - Não, só quero olhar para ti.
E depois: - Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite. Todas as noites."


Milan Kundera in A Identidade

Fragmentus Suburbia (8): direcções

Foto de Vicente

Pequenas ruas, pequenos dormitórios com nome de lar, comboios a chegar e a partir e a linha sempre a crescer em direcções opostas.
No meio disto tudo: pessoas. Pessoas que caminham por entre o betão armado em caminhos de ferro, enquanto o revisor Abílio entra na última carruagem e pede o bilhete ao cego que pede uma pequena esmola, não tinha reparado na placa que dizia: "BEGING IS NOT ALLOWED!"
Pouco a pouco tudo se vai enterrando, lentamente, nos esgotos deste ventre que nos gerou...

Estado em que se encontra este blogger

quarta-feira, janeiro 04, 2006

"Faz-me um filho."


Odete de João Pedro Rodrigues

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Oh Darling.

Estica o teu dedo magro de unhas bem arranjadas na direcção do interruptor do televisor, liga-o e põe a correr um DVD de um filme qualquer 100% "Some Like It Hot". Encosta-te confortavelmente contra o sofá, relaxa os músculos e pega na boquilha para fumares o teu cigarro, não leves pipocas, essas são para a ralé e tu estás no mais alto estatuto social, estás naquela posição em que toda a gente despreza até o próprio desprezo. Não queres saber de homens com pouco charme ou dinheiro. Só queres saber de jantares à luz das velas com jazz em música de fundo a ligar a entrada e o prato principal, oh darling, o jazz liga tudo, o jazz finge tudo.
Ah darling, a mim não me consegues fingir, tira a máscara de estilo que te tapa o rosto e vem para uma dessas ruas a subir (ou a descer), uma daquelas ruas com a lua a iluminar a passagem onde sempre sonhei fazer a declaração de amor mais simples e desprovida de estilo. Mas vem rápido, sabes bem a falta de paciência que eu tenho para estes assuntos oficiais em que tudo tem de ficar perfeito como naqueles filmes antigos que tu vês, onde tudo fica dito. Oh darling, faz-me esse favor e poderemos viver relativamente felizes para sempre.

sábado, dezembro 31, 2005

Das nossas palavras

Estas são, ainda, as minhas palavras.
Ontem tentaram convencer-me que já não eram minhas.
Chegará o tempo em que terei de renunciar às minhas palavras.

Entretanto, espero ansiosamente pelas tuas palavras.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Das sínteses originais (4): aristocrata

É muito instrutivo observarmos a entrada de um criado de mesa na sala de jantar do hotel. Quando transpõe a porta da sala de jantar, opera-se uma mudança súbita na sua pessoa. A posição dos ombros altera-se; todas as inferioridades e pressas e cóleras desaparecem num instante. E ele desliza pelo tapete, numa solene atitude sacerdotal. Lembro-me do nosso maître d'hôtel assistente, um italiano temperamental, parando à porta da sala de jantar para se dirigir a um aprendiz que partira uma garrafa de vinho. Erguendo o punho por cima da cabeça, punha-se a vociferar (felizmente a porta era mais ou menos à prova de som).
"Tu me fais - E atreves-te a dizeres-te criado de mesa, tu, meu filho da mãe? Tu, criado de mesa! Não tens categoria nem para varrer o chão da casa de putas da tua mãe. Maquereau!"
Por fim, quando as palavras lhe faltaram, virou-se para a porta; e, enquanto a abria, soltou ainda um último insulto como o Cavaleiro do Oeste no Tom Jones.
A seguir, entrou na sala de jantar e singrou através dela com a travessa na mão, com uma elegância de cisne. Dez segundos mais tarde, inclinava-se cheio de reverência diante de um cliente. E não podíamos deixar de pensar ao vê-lo inclinar-se e sorrir, com o seu sorriso de criado de mesa experimentado, que o cliente deveria, sem dúvida, sentir-se envergonhado ao ser servido por tão requintado aristocrata.


Down and Out in Paris and London (1951) de George Orwell

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

Das sínteses originais (3): intimidade

Os moradores apercebem-se de numerosos barulhos da vizinhança, que vão dos clamores habituais das festas de aniversário aos sons das práticas de rotina qualificadas. Os nossos interlocutores mencionam, por exemplo, o som dos aparelhos de rádio, o choro nocturno dos bebés, as tosses, os sapatos que se tiram ao deitar, as crianças que correm nas escadas ou nos quartos, as teclas do piano e os risos ou conversas em voz mais alta. No quarto do casal, os ruídos que chegam de casa do vizinho podem ser por vezes chocantes: "Até os ouvimos urinar no bacio; é insuportável. Terrível"; ou inquietantes: "Ouço-os quando brigam na cama. Uma pessoa pode estar com vontade de ler, ou outra de dormir. É muito incómodo ouvir estes barulhos quando se está deitado, por isso mudei a cama de sítio"... "Gosto de ler na cama e tenho o ouvido apurado, por isso incomoda-me ouvi-los falar"; ou um tanto inibidor: "Às vezes ouvimo-los dizer coisas do seu foro íntimo, como acontece, por exemplo, quando o marido diz à mulher que ela está com os pés frios. E isso faz-nos sentir que temos de dizer em segredo tudo o que for um pouco mais íntimo."


Living in Towns (1953) de Leo Kuper e outros

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Considerações de um homem sobre um sítio.

A Joana escreveu este texto para eu vos mostrar aqui. Qualquer que seja o seu pedido eu o converterei para sempre numa ordem. Oh rainha das unhas roídas! Estás mais que pronta para conquistar a Pena e o Mundo

Foto by Néni

Estimados ouvintes!

Sinto uma necessidade de me contemplar perante vós, pois já não tenho à vontade com a minha intimidade deformada por tantas vírgulas. Como tal, vou ser imprudente para não ser delicado e censurarei qualquer devaneio poético, rimado ou até, ligeiramente, pintor que a minha mente possa produzir.
Pressinto que qualquer coisa quer explodir dentro de mim. Talvez o coração ou um pulmão. Sim! Terei de cuspir os meus pulmões para não sufocar nos meus pensamentos. Deixá-los-ei sobre a mesa e regá-los-ei para não murcharem. Dar-lhes-ei uma vida independente e uma planta vermelha para enfeitar o seu corpo líquido. Porém, não pensais que sou um militante de pieguices compradas ou algum hipócrita insensível. Digo-vos que até sou sensível, por vezes, ridiculamente sensível. Também fui canalha e fraco ao ponto de chorar sobre os peitos de muitas mulheres. Vede como sou fraco! Por favor, aqui ao lado vai decorrer uma peça de teatro. Ide vê-la! Caríssimos espectadores, irá haver ficção, romance, personagens ideais. Ficção! Enquanto que, aqui, só posso dar-vos a minha bruta realidade...como me cansa a realidade.
De todas as viagens que fiz tantos dias, todos os dias, sempre ficou um ligeiro drama a abafar-me. Como daquela vez em que afoguei os meus canhões nas ruas onde sempre vivi. Decidi procurar um pouco de mim naqueles locais, no seu esplendor efémero e tranquilo de fim de tarde. Acho que me angustiei ainda mais; apaguei todos os meus murais projectados nos prédios e deixei-me a desesperar nalgumas escadas, esquecido de mim no chão. Aqui, estão sempre a ocorrer emergências. Será que vivemos em guerra com o sítio ou somos exército verde em marcha pelo bem?
Já não suporto a negação, aguda e afiada, deste sítio. A negação em tudo, um não mais que não, um não que enche-me a cabeça e explode em cem imagens distorcidas e inexprimíveis, levadas na euforia da desilusão. Aqui, ao inspirar, sinto o mundo a morrer na minha garganta muda perfazendo uma grande tragédia silenciosa e ficando tudo embargado nestas minhas palavras.
Até à próxima, atenciosa plateia.





Joana Guerra

terça-feira, dezembro 27, 2005

Da Suburbia à Farinha Amparo.

Quero ser rápido, o cenário não pode demorar a ser montado, pronto lá está ele: estou numa rua da nossa suburbia, está um dia cheio de luz que contrasta com o cizento da igreja. Desço a rua e sou acediado verbalmente por um homem que, ao que parece, procurava alguém que quisesse ter uma experiência nova no que toca a relações sexuais. Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
Agora, dentro do comboio, um homem de moletas pede-me desculpa por me estar a incomodar, pedindo ao mesmo tempo uma moedinha para poder comer qualquer coisa. Chego ao meu destino para um almoço num centro comercial, num daqueles restaurantes de fast food com uma bela companhia e encontros inesperados. Saímos dalí para um sítio onde se possa beber um chá ou um café quente, alí discutimos a revolta dos pastéis de nata e as piadas recorrentes da Farinha Amparo (pobre farinha que com tão pouca dignidade é referenciada nos nossos dias), damos o nosso show, e a Farinha Amparo sempre a bombar na conversa. Bem dita Farinha Amparo que tantas conversas desbloqueaste, tantas cartas de condução e outros brindes tu nos ofereceste. Amassado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade assim no fogão como no forno a lenha. Atchim.

O Impertinente (4): abundância

Acontecia-lhe, frequentemente, não ter palavras para descrever sentimentos.

Hoje
, faltando-lhe sentimentos, abundam as palavras.

domingo, dezembro 25, 2005

Das sínteses originais (2): estigma

"Dear Miss Lonelyhearts,

I am sixteen years old now and I dont know what to do and would appreciate it if you could tell me what to do. When I was a little girl it was not so bad because I got used to the kids on the block makeing fun of me, but now I would like to have boy friends like the other girls and go out on Saturday nites, but no boy will take me because I was born without a nose - although I am a good dancer and have a nice shape and my father buys me pretty clothes.
I sit and look at myself all day and cry. I have a big hole in the middle of my face that scares people even myself so I cant blame the boys for not wanting to take me out. My mother loves me, but she crys terrible when she looks at me.
What did I do to deserve such a terrible bad fate? Even if I did some bad things I didn't do any before I was a year old and I was born this way. I asked Papa and he says he doesn't know, but that maybe I did something in the other world before I was born or that maybe I was being punished for his sins. I dont believe that because he is a very nice man. Ought I commit suicide?

Sincerely yours,

Desperate"


Miss Lonelyhearts
(1962) de Nathanael West

citação encontrada em Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity de Erving Goffman

terça-feira, dezembro 20, 2005

Para quem gosta de Jazz e Poesia.


Compilação de poemas com o ritmo sincopado do jazz: do Almada ao Vinicius de Morais.
"Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse jazz!"
E. M. de Melo e Castro.

domingo, dezembro 18, 2005

Ópio.

Estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café sujo. Ele observa tudo o que se passa à sua volta, ao seu lado está um velho de barbas que esmaga um cigarro, já apagado, contra o tampo da mesa mesmo ao lado do cinzeiro cheio de outras tantas beatas, é um velho sem importância que espera que lhe caia o último dente que lhe resta nas gengivas. Na mesa em frente do Homem do Chapéu de Côco estava uma prostituta pouco elegante a fumar um cigarro pela sua boquilha de estimação. No lado oposto ao do velho estava um casal aos beijos em cima da mesa. No piano, o pianista tinha uma falta de ritmo angustiante e o piano tinha uma tecla que não tocava. O quadro estava pintado, a cena convidava a uma loucura, o suicídio quem sabe.
O Homem do Chapéu de Côco pega então no pó que lhe tinham vendido no beco antes de chegar ao café e expira-o da forma que lhe tinham aconselhado. Os seus olhos começaram a arder e antes que eles fechassem ele teve a visão mais romântica de toda a sua vida, passou uma vida inteira para ter aquela visão e foi mesmo nesse momento entre o ardor e o fechar dos olhos que ele se conseguiu declarar, mesmo antes de ser nada. Agora, sem sequer ver a luz ao fundo do túnel, ele não se sentia, não havia nada para recordar, nem aquele café que foi a sua última morada. Afinal, estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café imundo até que alguém, distraído, lhe pedisse bruscamente para se levantar.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

"Lost in Translation" (parte 2): o regresso a casa


Broken Flowers de Jim Jarmusch

domingo, dezembro 04, 2005

O mundo por umas mãos.


Ele saiu à rua para procurar umas mãos. Passava pouco da hora do jantar e ele só queria encontrar as mãos que tinha perdido para poder pintar o seu quadro. Afinal, ele era pintor e dava o mundo por umas mãos.

domingo, novembro 27, 2005

Sintoma (5): o pequeno harmónio


Punch Drunk Love de Paul Thomas Anderson

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memórias poéticas (5)

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

quarta-feira, novembro 23, 2005

Das despedidas

Tudo tem um timing poético: até as despedidas.
Os mais belos poemas são aqueles que nunca quisemos escrever:
não por falta de talento (quem não se julga competente para amar?);
talvez por falta de coragem (quem ousa enfrentar a tragicidade amorosa?).
A grandeza das despedidas é o maior dos poemas.
Por isso, amanhã quero ser o melhor dos poetas.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Sintoma (4): da (im)possibilidade comunicativa


3 Iron de Kim Ki-Duk

quarta-feira, novembro 16, 2005

Personagens inventadas.

Mr. Alzheimer sai à rua todas as manhãs para ir trabalhar, apanha o comboio até a estação sem nome. Até chegar ao trabalho ainda anda um bom bocado. Ele faz questão de passar pelos mesmos sítios todos os dias. À saída da estação de comboio está o jovem, desiludido, encostado a uma esquina à espera de alguém que não quer aparecer. Na praça mais a diante, em cima de um banco, está o revolucionário a espalhar os bilhetes de páginas em branco, ali mesmo ao lado está o circo do palhaço e da trapezista. O cabaret que funcionou durante a noite está ainda a por arrumar, já só falta sair o pianista que adormeceu em cima do piano depois das três garrafas de absinto, o programa da noite seguinte estava a ser mudado. Por último, ele passa pelo salão de baile abandonado de Madame Gabrielle, que agora é habitado por sem-abrigos.
Mr. Alzheimer trabalha na loja de brinquedos da cidade, é ele que faz os cavalos de madeira para os miudos brincarem. Ele lembra-se de cada expressão, de cada imagem que todos os dias o invadem. Ele fez o palhaço e trapezista em madeira e uma senhora com um ar mais ou menos francês que podia muito bem ser Madame Gabrielle.
No fim do dia, todos estão a descansar para iniciar a noite e é nesse momento que Mr. Alzheimer começa a divagar pelo mundo dos seus brinquedos e das personagens inventadas.

domingo, novembro 13, 2005

Fragmentus Suburbia (7): o bilhete

A vida sobre carris.
A morte em carrinhas funerárias.

A primeira é levada.
A segunda, carregada.
«E ele ainda pergunta se tenho bilhete

Fragmentus Suburbia (6): oportunidade

Ficar a ver comboios passar.
Uma vez lá dentro, ficar a ver passar a oportunidade de o ter perdido.
Ficar a ver-se passar.
Ficar a vê-la passar.
Perder a oportunidade perdida.
Perder-se.
Perdê-la (?)

segunda-feira, novembro 07, 2005

Lisbon revisited.


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhe a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

O Impertinente (3): o «caso» Nuno Ribeiro

Desde que tinha Ontologia ninguém lhe punha a vista em cima.

sábado, novembro 05, 2005

Das sínteses originais: a morte do «artista»

"Sabendo que os espectadores são capazes de ficar com uma má impressão a seu respeito, o indivíduo poderá sentir vergonha de um qualquer acto bem intencionado e honesto só pelo facto de o contexto do seu desempenho dar lugar a falsas impressões, que são más. Ao sentir essa vergonha injustificada, sentirá talvez que os seus sentimentos estão a ser observados; sentindo-se assim sob observação, poderá sentir que a sua aparência confirma as falsas conclusões formadas a seu respeito. Poderá então agravar a precaridade da sua posição empenhando-se em manobras defensivas, como as que empregaria caso fosse realmente culpado. Assim é possível que cada um de nós se transforme para si próprio, por momentos, na pior pessoa que podemos imaginar que os outros sejam capazes de imaginar que somos."
Erving Goffman
in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

sexta-feira, novembro 04, 2005

Fechado para obras: tempo e percepção

Ontem foi como se tivesse sido.
Amanhã será como se pudesse haver (?)

te espero.

terça-feira, novembro 01, 2005

Nostálgicos sem cura.

A noite nem prometia muito, afinal era só um concerto de um gajo que eu já tinha visto, mas ele continuava com tudo o que eu tinha gostado na primeira vez que o vi. Foi uma noite inteira de recordações, de memórias sem retorno. Mergulhamos pela noite, começando pelo subtil Antony e acabando em completa Al-gazarra por aquele Irish Pub de outras tantas recordações. Tudo demasiado depressa, como devia de ser sempre para não doer. A noite, a noite foi dominada pelos nostálgicos sem cura.

domingo, outubro 30, 2005

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos.


"O que eu preciso é de uma musa.
Mas essas já não existem.
Ouvi dizer que estavam em vias de extinção."
[Tomás]

Da série "Conhece-te a ti mesmo" (inspirado numa ideia original de João Pedro George)

Para Erving Goffman existem dois tipos de actores: aqueles que acreditam no seu desempenho ("sinceros") e aqueles que não acreditam na própria representação ("cínicos").

E você?
Já se (a)creditou?

Sociólogos

"Uma sensibilidade artística demasiado grande é um fenómeno doentio que não se pode generalizar sem perigo para a sociedade."
"A actividade estética só é sã se for moderada."
(Émile Durkheim)

Dos debates intermináveis (2): expressão e acção

"O aluno atento que quer estar atento, com os olhos cravados no professor, com os ouvidos bem alerta, cansa-se tanto a desempenhar o papel de aluno atento que acaba por não ouvir coisa nenhuma." (Jean-Paul Satre)

segunda-feira, outubro 24, 2005

O Impertinente (2)

Queria sentir-se suficientemente fora do mundo para poder contemplá-lo à distância, mas sempre suficientemente preso a ele para saber quando voltar.

domingo, outubro 23, 2005

Memórias poéticas (4)


The Kiss, Edvard Munch

sexta-feira, outubro 21, 2005

Democracia das Emoções

"To my wife: Sandy, Alexandra, Alex,
A. R. or whatever you are calling
yourself these days"

Jonathan H. Turner in The Structure of Sociological Theory

segunda-feira, outubro 17, 2005

Fotografias à chuva.

Começou a chover no palco da revolução, todos começamos a correr para nos abrigarmos, havia um pequeno quiosque que nos serviu de abrigo, mais à frente uma mulher vestida de vermelho continuava sentada na esplanada a ler um livro e o copo de leite vazio à sua frente. Os velhotes que estavam a jogar à bisca lambida também se foram abrigar no café mais próximo. Foi tudo tão cinematográfico, tão teatral, tão urgente. Numa manhã de Segunda-Feira, uma geração inteira ficou a lembrar a revolução encostada a um quiosque, enquanto os homens e as mulheres corriam, molhados, à chuva. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo sítio, sem qualquer hora marcada.

domingo, outubro 16, 2005

Sintoma (3): o lugar da espera

O lugar da espera nas narrativas amorosas é hoje compulsivamente desocupado.
Os amantes fogem das cadeiras, caminhando em círculos individuais.
Por vezes, param e olham uns para os outros.
Frequentemente, aceleram o ritmo e esticam as órbitas para pontos mais distantes.
Cada um quer chegar mais longe que o outro.
E é por isso que agora se conhecem mais estrelas do que antigamente.
Houve um tempo em que todos queriam o lugar da espera.
Hoje, sobrando cadeiras, sobram histórias para contar.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Auto-retrato (3)

Ele tinha um problema com a rotina: não achava que a rotina fosse, per si, um problema pertinente.

Fragmentus Suburbia (5): sustentáculo

Quem perde o ruído de fundo, perde toda a sustentabilidade emocional.
Ironicamente, a poluição sonora gera um pano de fundo indispensável para a continuação das actividade rotineiras.
A sua ausência, ainda que temporária, não deixa de ser um duplo obstáculo: à mobilidade dos transeuntes e às suas possibilidades de mobilização identitária.
Escusado será dizer que, após uma breve pausa, tudo volta à normalidade do isolamento da experiência.
Dentro de carruagens, como é óbvio.

terça-feira, outubro 11, 2005

Sin City.


"Walk down the right back alley in Sin City and you can find anything."

segunda-feira, outubro 10, 2005

"For how can a man deal with his pain without a plan!"


Fossanova, Belle Chase Hotel

domingo, outubro 09, 2005

sábado, outubro 08, 2005

Fragmentus Suburbia (4): adiamento

Não é que gostasse particularmente de ver passar comboios.
Talvez tivesse interiorizado, com excessivo voluntarismo, os rigores da espera.
Por isso, encontrava-o sempre à espera do próximo.

À espera daquele que não virá.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Na direcção certa


Era já fim do dia quando apanhei o comboio em Lisboa com direcção a Sintra, vinha acompanhado por uma amiga que saiu a meio da viagem. Tinha acabado as aulas e apetecia-me passear por Sintra, farto da confusão e da gritaria muda que ecoava na minha cabeça. Quando cheguei a Sintra encontrei um conhecido com uma viola na mão, não se lembrava do meu nome, provavelmente tinha tomado a sua última dose pouco tempo antes de me encontrar. Disse-me que ia ensaiar uma guitarradas para casa de um amigo em Lisboa. O seu olhar era disperso, notei que ele tentava a todo o custo não deixar passar a imagem de que estava pedrado. Disse-me que eu ia "numa boa direcção e que o crepúsculo estava muito bonito". Despedimo-nos com um valente aperto de mão. Ele podia estar todo janado, as drogas podiam ter-lhe subido à cabeça, mas a noção de beleza e a sensibilidade estavam todas lá, não faltava nada nas palavras dele, ou não fosse ele um artista, um músico muito talentoso com queda para o teatro. Ele tinha razão, o crepúsculo estava mesmo bonito.
Quanto a mim, fui em direcção ao crepúsculo e fiquei-me pela tilia a pensar em tudo e em nada, velha tilia de principes e pobres, ou até mesmo dos meninos que querem ser principezinhos. Eu era daqueles que queriam ser principezinhos. Fiquei ali até a noite chegar com o cheiro a comida dos pequenos restaurantes da vila.

terça-feira, outubro 04, 2005

Da Categoria: “amanhã é feriado!”

Querer saber tudo o que se passa, com o maior rigor e alcance possíveis.
Querer saber o estado do tempo, do trânsito, e da economia.
Não ter como saber.

Querer esquecer tudo o que passou, com a maior eficácia e celeridade possíveis.
Querer esquecer o aquecimento global, a sexualidade metalizada, e a arbitrariedade dos mercados.
Não ter como esquecer.

Querer adivinhar tudo o que está por vir, com o menor compromisso e responsabilidade possíveis.
Querer adivinhar o futuro da natureza, o porvir da mobilidade, e as possibilidades da competitividade nacional.
Não ter como adivinhar.

Sabendo que as conservas têm data de validade, não esquecer de verificar as mesmas, sob pena de ter que adivinhar as suas prováveis implicações intestinais.

Da Categoria: “máximas pseudo-filosóficas”

“Você não está num congestionamento; você é o congestionamento.”

sábado, outubro 01, 2005

Memórias poéticas (3)


Danae de Gustav Klimt

Auto-retrato (2)

Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento

Boris Vian

terça-feira, setembro 27, 2005

Anjos ao pôr do sol.


Foi há um ano que nos passeamos todos juntos pela Vila velha prevenidos com asas. Ensaios no largo da pequena igreja com vista para o mar, banhados pela luz dourada do Sol Poente. Ali estou eu e o anjo pÓ.
Os outros eram ainda mais bonitos.

segunda-feira, setembro 26, 2005

Sem saber porquê!

Sem saber porquê, aquele rapaz aceitou o raio do convite para ir dar uma volta. Ele nem sequer queria saber das manifestações que estavam a passar na rua, nem das reconstruções pós-modernas do Maio de 68. Em boa verdade, ele estava-se a cagar para tudo menos para o raio do convite para passear. Não queria saber de bandas mal paridas sem tempo para sofrer, nem de telemóveis, nem de internets, porque ele tinha todo o tempo para sofrer. Porque ele não queria que lhe dessem cabo do juizo, foi dar um passeio pelas ruas dos seus sonhos para saber que afinal tudo estava bem. Por cá, tudo estava por fazer.

domingo, setembro 25, 2005

Sintoma (2): a Indústria Identitária

A indústria emergente de decoração de interiores possui inúmeras congruências com a construção reflexiva do self.
Nesse sentido, a consciência dos actores assume particular preponderância: eles sabem bem ao que vão.
Todos revelam competência ao inscrever objectos e colecções nas suas possibilidades biográficas.
É certo que tudo isto é feito à revelia dos grandes capitalistas.
Chegará (?) o tempo em que estes, imbuídos do espírito que lhes é característico, tomarão as rédeas da indústria identitária.
Por enquanto, tudo se processa em moldes bem mais discretos:

«É para oferecer?»

«Não. É para mim.»

sábado, setembro 24, 2005

Humanos (e) Canídeos


Amores Perros de Alejandro González Iñárritu

terça-feira, setembro 20, 2005

As Ruínas de Babel

"Nos arrabaldes da cidade, entre o parque de perverções Mengel e uma fábrica de chapéus desactivada, um grupo de telefilólogos amadores entrega-se à escuta dos postes telefónicos:
-Hoje atrasei-me, os melhores postes já devem estar ocupados.
Tantas conversas perdidas:"Os dias tão devagar, os anos tão depressa\ Linchtenstein, disse? Não estou a ver quem possa ser\ Sabe quantos fusos horários existem na União Soviética?\ Sr. Zetetis? Tem notícias da expedição ao Polo Sul?\ Acredito na poesia dos hotéis abandonados.\ Estou a ouvi-la muito mal.\ E se o pintasse?".
Dia e noite, os fios conduzem um fluxo de palavras:
-Se ouvissemos estes diálogos na íntegra ficaríamos certamente desiludidos com a sua banalidade e irrelevância.
O zumbido de mil milhares de vozes, o cheiro intenso da madeira tratada.
-Só conseguimos captar fragmentos e estes por serem enigmáticos ganham, aos nossos ouvidos, a nobreza e a imponência de ruínas de uma cidade perdida."

José Carlos Fernandes

sábado, setembro 17, 2005

O Impertinente

Estava convencido que só havia uma coisa a fazer perante a mediocridade: ser cínico.
Primeiro tentou divulgar tamanha descoberta: podia ser que os outros reparassem no brilhantismo da coisa.
No entanto, viria a perceber que não existem bons intérpretes: nem para a mediocridade nem para o cinismo.
Depois veio o desencanto: se não existem bons intérpretes talvez não existam boas ideias.
Começou a dizer uns disparates pós-modernos sobre o fim da história e a fragmentação do self.
O resto já se adivinha: não existindo boas ideias talvez não existissem boas cabeças.

Daí à barbearia foi num instante: embora o barbeiro se tenha recusado a cortar-lhe a cabeça, ele fê-lo prometer que não lhe passaria um atestado de mediocridade.

quinta-feira, setembro 15, 2005

A vida e o ecrã: post scriptum

Porquê eleger uma telenovela portuguesa de horário nobre como objecto de interesse?
Não irei discorrer acerca da grande temática ("as telenovelas").
Não vejo interesse em comentar as idiossincrasias da narrativa ou a qualidade do enredo.
Prefiro antes realçar algo que é profundamente característico desta telenovela: a construção da tensão.
Os textos anteriormente publicados (da série "O TeleVisionário") referem-se à tentativa de captar parte dessa tensão que é, simultaneamente, constante e constitutiva da própria novela.
Trata-se, portanto, de um exercício livre com tudo o que daí advém.
Num primeiro momento, havia que fazer a recolha de algumas frases e expressões mais directamente implicadas na construção da tensão.
Num segundo momento, procedeu-se à montagem de pequenos textos a partir dessas mesmas frases e expressões.
Procurei omitir qualquer referência a personagens: ela e ele são personagens-tipo no desenvolvimento da tensão.
Se cumpri o objectivo de retraduzir a tensão em moldes mais abstractos (porque necessariamente abstraídos do contexto narrativo em questão), só vós o podereis afirmar.
Este exercício parte de um pressuposto relativamente discutível: a tensão é inteligível mesmo fora do seu contexto de origem; possui significados que, embora nascendo desse contexto, ganham autonomia e inteligibilidade noutros campos de entendimento.
A vida e o ecrã: será possível fazer poesia de um conjunto aparentemente desarticulado de frases e expressões?
Num último momento, como bem adivinham, já não se tratava somente de captar a tensão.
Em que medida o desenvolvimento da tensão é correlativo da dicotomia vida/ecrã?
Como é que a dicotomia vida/ecrã é conservada e ao mesmo tempo transgredida, por via da tensão?
Longe de corresponder a um intuito pseudo-científico, gostaria que este exercício fosse interpretado como um acto poético.
Um acto poético revelador das enormes possibilidades associadas à reflexão antropológica.
Haja alguém, quiça um Filósofo, capaz de empreender uma hermenêutica condizente com estas premissas.

quarta-feira, setembro 14, 2005

O TeleVisionário (3)

Quando eu tiver uma resposta digo-lhe
Ele qualquer dia vai encostar-te à parede
Devias ter-me perguntado
Eu é que não quero e ponto final
Disse que já tinha coisas combinadas
A vida não podem ser só brinquedos
Para mim é suficiente que ele queira
Não insistas

Onde é que tu vais?

Não me podes dizer assim em cima da hora
O meu problema é exactamente aquele que acabei de te dizer
Quanto mais chatices evitares melhor para ti
Vou reagir da forma como entendo que devo reagir

Nem parece uma Mulher: não sabe dar a volta a um Homem.

O TeleVisionário (2)

Eu sei muito bem como são essas coisas
Nos tempos que correm todo o cuidado é pouco
Se fosse a ti levava armadura
Tu acalmas as coisas em casa e eu trato do resto
Ele vai abusar de ti até dizer chega
Não vou ficar parada a ver o barco afundar
Eu também fui apanhada de surpresa

Vais ceder à chantagem dele?

Esta não é a melhor maneira de fazer as coisas
No meu tempo as pessoas estavam sempre reunidas à noite
Se formos a pensar assim o mundo é um manicómio
E ninguém nos disse nada

Eu sempre disse que faltava pulso firme áquele puto.

terça-feira, setembro 13, 2005

O TeleVisionário: a vida e o ecrã

É esta raiva que me dá vontade de viver
Agora estou a pensar no meu futuro
Não tarda nada estarei num lugar melhor
Fui interrompida por motivos de força maior
Terei de estar atenta
Terei de ter muito cuidado
Não ficarei tranquila sem saber o que se está a passar aqui

Até onde é que isto nos vai levar?

As coisas agora estão mais calmas
Ele tem de aprender a meter-se no lugar dele
Porque este é o meu lugar
Porque não irei embora tão cedo

Há oportunidades que só aparecem uma vez na vida.

Sem qualquer registo

Ao jantar, falamos sobre a guerra, falamos sobre a guerra que não fazia sentido. Ele dizia que falatava acreditar como se acreditou nos seus tempos de juventude, e nós ouviamos. Depois acreditamos nele quando ele disse que tinha esperança em nós...

quinta-feira, setembro 08, 2005

Sintoma

Ele estava convencido que o fim da grande lírica não era senão um mero sintoma do fim das grandes narrativas.

quarta-feira, setembro 07, 2005

Fragmentus Suburbia (3): ponto sem retorno

Ela acreditava em regressos.
Sabiam-lhe tão bem as esperas.
«Demora-te!», disse-lhe um dia, em sussurro.
(...)
Todos os comboios vão dar a Roma. Até o dela.

terça-feira, setembro 06, 2005

A rua pouco escondida

Naquela noite, fui por aquela rua. A rua até nem era muito escondida, mas alí parava tudo: mendigos, prostitutas, pedintes, sem abrigo... tudo. Naquela cidade de casas de bonecas ví um homem ser espancado com um ferro enquanto o electrico passava, enquanto a noite me cobria a pele, enquanto se fazia amor nas casas e nos bancos de jardim. Sentia-me finalmente no mundo, só aquilo me fez chegar ao mundo até o Sol aparecer e banhar a cidade de ouro.

Fragmentus Suburbia (2): efeito boomerang

Por imperativos de reestruturação identitária
ele reserva-se ao direito
de ficar por aqui.
(...)
"Não fique a ver os comboios a passar. Venha daí."
E foi.

Early Morning Blog

"Algumas gotas de chuva foram suficientes para restaurar a paz."
(Charles Simic)

segunda-feira, setembro 05, 2005

Fragmentus Suburbia (improviso)

Ele estava convicto que a metafísica do subúrbio dava «um ar da sua graça» sempre que um comboio fantasma atravessava a estação a toda a velocidade. Para todos os efeitos, pensava ele, tinha de haver alguma metafísica naquilo: não estando previsto nos horários, aquele comboio não estava previsto na vida de todos os dias. Soube-se, então, portador de um valioso segredo: talvez o subúrbio fosse um acontecer mais do que um acontecimento; e talvez todos pudessem participar da construção desse sentido. Assim, a condição suburbana traduziria uma subversão das categorias a partir das quais pensamos o subúrbio. Nesse movimento (para o qual alguns vanguardistas arriscariam a designação de pós-suburbanismo...) jogar-se-ia, não o retorno da certeza, mas sim o retorno da humanidade. Afinal de contas, o que é próprio dos Homens: suburbanos ou não.

domingo, setembro 04, 2005

Memórias poéticas (2)

"Sentado na cama, olhava para a mulher deitada a seu lado, que lhe apertava a mão a dormir. Sentia por ela um amor inexprimível. Nesse momento, ela devia estar com um sono muito leve porque abriu as pálpebras e olhou para ele com um ar assustado.
«Para onde é que estás a olhar?», perguntou ela.
Sabia que não devia acordá-la e que devia voltar a conduzi-la para o sono; tentou responder-lhe com palavras que lhe acendessem na cabeça a faúlha de um novo sonho.
«Estou a olhar para as estrelas, disse ele.
- Não me mintas, tu não estás a olhar para as estrelas, tu estás a olhar para baixo.
- Mas, como vamos num avião, as estrelas estão por baixo de nós.
- Ah!», disse Tereza. Apertou ainda com mais força a mão de Tomas e voltou a adormecer. Tomas sabia que, agora, Tereza estava a olhar pela janela de um avião que voava tão alto que ia por cima das estrelas."
Milan Kundera in A insustentável leveza do ser

sexta-feira, setembro 02, 2005

Laranja Cor de Sangue


"Está tão escuro lá fora que o fim do mundo pode estar próximo.
Convenço-me que vai chover.
Os pássaros no jardim estão silenciosos.
Nada é o que parece.
Nem nós mesmos.

Na nossa rua há uma árvore tão grande
Que podemos esconder-nos todos nas suas folhas.
Nem precisaremos de roupas.
Sinto-me velho como uma barata, disseste.
Imagino-me passageiro de um navio-fantasma.

Agora nem um suspiro lá fora.
Se alguém abandonou uma criança no nosso patamar,
Deve estar a dormir.
Tudo está a vacilar na borda de tudo
Com um sorriso polido.

É porque há coisas neste mundo
Sem qualquer solução, disseste.
Nesse instante ouvi a laranja cor de sangue
Rebolar pela mesa e com um baque
Cair no chão rachada ao meio."

Charles Simic

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (2ª Parte)

"Não. Os xuar não se beijavam.
Recordou-se também de que, em certa ocasião, vira um garimpeiro acasalando com uma jíbara, uma pobre mulher que deambulava por entre os colonos e os aventureiros implorando uma golada de aguardente. Quem tivesse vontade puxava-a de parte e possuía-a. A pobre mulher, embrutecida pelo álcool, não tinha consciência do que estavam a fazer com ela. Dessa vez, o aventureiro montou-a na areia e procurou-lhe a boca com a sua.
A mulher reagiu como uma besta. Tirou o homem de cima dela, arremessou-lhe um punhado de areia para os olhos e desatou a vomitar com um nojo indissimulável.
Se beijar ardorosamente era isso, então o Paul do romance não passava de um porco."

Luís Sepúlveda in O Velho que Lia Romances de Amor

Dos relativismos culturais: beijar «ardorosamente» (1ª Parte)

"O romance começava bem.
«Paul beijo-a ardorosamente enquanto o gondoleiro, cúmplice das aventuras do amigo, fingia olhar noutra direcção e a gôndola, equipada com macios coxins, deslizava tranquilamente pelos canais venezianos».
Leu a passagem várias vezes em voz alta.
Que raios seriam as gôndolas?
Deslizavam por canais. Devia tratar-se de botes ou canoas, e, quanto àquele Paul, era óbvio que não se tratava de um tipo decente, já que beijava «ardorosamente» a rapariga na presença de um amigo, e ainda para mais cúmplice.
Gostou do começo.
Pareceu-lhe acertado que o autor definisse os maus com clareza desde o princípio. Dessa maneira evitavam-se complicações e simpatias imerecidas.
E quanto a beijar, como é que ele dizia? «Ardorosamente», como diabo seria isso?
Recordou-se de beijar muito poucas vezes Dolores Encarnación del Santíssimo Estupiñán Otavalo. Na melhor das hipóteses, terá havido uma dessas poucas ocasiões em que o fez assim, ardorosamente, como o Paul do romance, mas sem o saber. Em todo o caso, foram muitos poucos beijos, porque a mulher, ou respondia com atques de riso, ou fazia notar que podia ser pecado.
Beijar ardorosamente. Beijar. Só agora descobria que o fizera muito poucas vezes e apenas com a mulher, porque entre os xuar o beijo era um costume desconhecido.
Entre homens e mulheres existiam as carícias por todo o corpo, e não lhes importava se havia outras pessoas presentes. Nem no momento do amor se beijavam. As mulheres preferiam sentar-se em cima do homem argumentando que nessa posição sentiam mais o amor, e portanto os anents que acompanhavam o acto saíam muito mais sentidos."

[continua]