Os olhos dentro das minhas órbitas começam a ficar embaciados. Não se conseguem voltar para si próprios, vão ficando mais cansados. Eles que saiam das órbitas, eles que me tragam coisas novas. Eu fico bem sózinho, a sério. Sem olhos, quero ficar uns tempos sem olhos e sem ouvidos. Não aguento as expectativas dos sentidos. Os meus sentidos induzem-me sempre ao erro, não quero. À medida que os meus olhos vão ficando calcificados nas minhas órbitas, vou ficando também com menos certezas.
Adoro não ter certezas.
Adoro escrever textos originais e textos como este...
Calcificados.
Tempo, não voltes para trás e se vires que te puxam para trás, não te esqueças de dar o esticão que rebenta com o cordão de ouro mole.
sábado, agosto 28, 2010
domingo, agosto 22, 2010
já estive lá.
Hoje cheguei a casa e não gostei de chegar a casa, porque era a minha casa. Senti-me preso, aliás, eu estou preso à minha própria vida. Nem deixo que ela respire e ela não deixa que eu próprio respire. Tudo acontece rápido e tudo fica a meio, nada acaba, tudo não se transforma, tudo fica simplesmente a meio.
A liberdade que eu pensava que tinha fica a meio.
Os meus pensamentos ficam a meio.
Eu fico a meio, quando o que realmente quero é ficar no meio e não sair de lá.
Vou voltar a comer Cerelac e puxar pelas minhas memórias afectivas do tempo em que eu era o centro do mundo.
sexta-feira, agosto 20, 2010
um dia atrás do outro.
Ando a pensar mudar de mundo, mas não consigo arranjar nenhum que fique em conta.
A solução pode muito bem ser enterrar a cabeça na areia.
Mas prefiro pensar que melhores dias virão.
Vou continuar a tomar banho todos os dias.
Seja o que Deus quiser.
(desculpem)
Seja o que eu quiser.
A solução pode muito bem ser enterrar a cabeça na areia.
Mas prefiro pensar que melhores dias virão.
Vou continuar a tomar banho todos os dias.
Seja o que Deus quiser.
(desculpem)
Seja o que eu quiser.
sábado, julho 31, 2010
enorme.
Engasgo-me no que quero realmente dizer porque o chão tem demasiados sulcos. Cada tropeço é uma ferida que fica para sempre. A ferida não se fecha sem um bela despedida, é daquelas que abre com o tempo. Agora está na altura de estancá-la por muito tempo, se calhar até para sempre. Está na altura de fazer o pino e ver se as mesas da minha sala caem em direcção ao tecto.
Espero conseguir desaparecer tão bem como tu fazes, começar do zero. Quero sacudir as mãos e ver que me livrei de mim. Pelo menos o bocado de mim que agarro nas minhas mãos. O bocado que és tu e que nunca há-de ser mais ninguém.
Há um fosso enorme entre nós os dois. Por mais que salte caio sempre. Agora já não quero saltar, bati demasiadas vezes com a cabeça e devo estar a perder a lucidez. A lucidez não me faz muita falta, o problema são os galos na cabeça.
Claro que não percebes que isto é para ti.
Agora só o vento... adeus.
Não, não é assim.
Espero conseguir desaparecer tão bem como tu fazes, começar do zero. Quero sacudir as mãos e ver que me livrei de mim. Pelo menos o bocado de mim que agarro nas minhas mãos. O bocado que és tu e que nunca há-de ser mais ninguém.
Há um fosso enorme entre nós os dois. Por mais que salte caio sempre. Agora já não quero saltar, bati demasiadas vezes com a cabeça e devo estar a perder a lucidez. A lucidez não me faz muita falta, o problema são os galos na cabeça.
Claro que não percebes que isto é para ti.
Agora só o vento... adeus.
Não, não é assim.
terça-feira, julho 27, 2010
pó
Ouves o comboio a passar? O chão estremece porque a linha fica mesmo encostada ao prédio. Por baixo fica um teatro enfiado no subsolo. Os projectores estão cheios de pó, já não iluminam nada, nem sequer as tábuas podres do palco. Uma vez bati com o pé num deles, fiquei com o dedo pequeno inchado durante semanas. Tu deste risadas enormes, dás sempre.
Nessa altura ainda me descalçava, tinha essa coragem. Agora tenho medo que os meus pés fiquem cheios de pó. Tenho medo de perder o brilho e ficar cozido debaixo deste Sol embaciado.
Agora estou a estalar os dedos para fazer tempo. Quero que te vás embora com o pó, por isso vou sacudindo o pouco que já tenho nas mãos.
Cada vez que o comboio passa e faz tremer a casa, vou ficando com mais pó sobre o meu corpo.
Não é que me importe, mas tenho medo de ficar cego.
Nessa altura ainda me descalçava, tinha essa coragem. Agora tenho medo que os meus pés fiquem cheios de pó. Tenho medo de perder o brilho e ficar cozido debaixo deste Sol embaciado.
Agora estou a estalar os dedos para fazer tempo. Quero que te vás embora com o pó, por isso vou sacudindo o pouco que já tenho nas mãos.
Cada vez que o comboio passa e faz tremer a casa, vou ficando com mais pó sobre o meu corpo.
Não é que me importe, mas tenho medo de ficar cego.
sexta-feira, julho 23, 2010
A terrivel tragédia do Semicontente (3)
O Semicontente não gosta de ser ele próprio.
Com tanto amor sente-se hiper-ventilado e ele não consegue viver só do ar.
Com tanto amor sente-se hiper-ventilado e ele não consegue viver só do ar.
segunda-feira, julho 19, 2010
fim.
Hoje acaba um ciclo, há uma certa felicidade à porta do precipício, à porta dos céus.
Mas também fica a sensação de angústia, a sensação de ruína de onde vamos erguer a nossa própria cidade.
Mas também fica a sensação de angústia, a sensação de ruína de onde vamos erguer a nossa própria cidade.
segunda-feira, julho 12, 2010
domingo, julho 11, 2010
quinta-feira, julho 08, 2010
felizmente.
Nunca fui à India.
Nunca fui a um concerto dos Radiohead.
Nunca fui à Lua.
Nunca chafurdei na lama.
Nunca caí de um décimo andar.
Nunca fiz o pino durante duas horas.
Nunca andei numa vespa.
Nunca mergulhei no Mar Vermelho.
Nunca cantei uma canção de amor a ninguém.
Nunca disse nada bonito ao meu cão.
Nunca morri por amor. (juro)
Nunca fiz dança clássica.
Nunca experimentei heroína.
Nunca dei a volta ao mundo.
Nunca gostei de pó.
Nunca suportei cheiro a lixo.
Nunca vivi na cidade.
Nunca me mascarei de gueixa.
Nunca fui presidente da república.
Nunca parti um prato na cabeça de alguém.
Nunca tive jeito para testes.
Nunca vi o meu esqueleto.
Quando ficar sem tempo, há-de ser para sempre.
domingo, julho 04, 2010
Homem!
Das cinzas queres ser um osso.
Um osso pode ligar muitos ossos e agarrar muita carne, muitos ossos prendem tendões.
Liberta os tendões dos ossos e cobre a pele de cinzas.
Não te esqueças das papoilas que nascem dos sovacos.
Coça as papoilas com as unhas que a carne segura.
Suja as unhas de terra e levanta a pele das cinzas.
Tenta não ser cadáver antes de o seres e pode ser que haja esperança.
Descansa Homem e roga a Deus por margaridas no teu Inverno.
Das cinzas queres ser um osso.
Um osso pode ligar muitos ossos e agarrar muita carne, muitos ossos prendem tendões.
Liberta os tendões dos ossos e cobre a pele de cinzas.
Não te esqueças das papoilas que nascem dos sovacos.
Coça as papoilas com as unhas que a carne segura.
Suja as unhas de terra e levanta a pele das cinzas.
Tenta não ser cadáver antes de o seres e pode ser que haja esperança.
Descansa Homem e roga a Deus por margaridas no teu Inverno.
quinta-feira, julho 01, 2010
quarta-feira, junho 30, 2010
recta final.
Hoje passei o dia inteiro acordado. Passei o dia todo sozinho e fartei-me de escrever.
O dia da estreia está próximo, as noites sem dormir começam a entrar em contagem crescente.
Qualquer coisa próxima do pânico instala-se num sítio do meu corpo que desconheço, mas que me incomoda muito.
O dia da estreia está próximo, as noites sem dormir começam a entrar em contagem crescente.
Qualquer coisa próxima do pânico instala-se num sítio do meu corpo que desconheço, mas que me incomoda muito.
segunda-feira, junho 28, 2010
sexta-feira, junho 25, 2010
terça-feira, junho 22, 2010
isto.
Cá nos encontramos outra vez neste recanto escuro, onde ninguém nos ouve por causa do silêncio.
O meu corpo está mais fraco, oxalá não dure muito mais tempo. As minhas noites são em branco e não quero dar este tempo por perdido. As cartas de amor já não me fazem cócegas, e a fé nas pessoas já a vejo ao longe. Se esticar o braço não chego a lado nenhum, mas provavelmente não me livrarei de o enfiar no traseiro do Todo Poderoso.
Detesto ter de viver com a frustração (se calhar é a mulher da minha vida e eu não sei) porque ela só me dá chatices. Hoje tive uma chatice, perguntaram-me se eu tinha autorização para entrar na minha própria casa. Era um homem velho e com uma verruga no nariz, um inútil. Queria ver até que ponto o aborreceria se lhe rebentasse a verruga com uma agulha de coser.
Hoje ainda não fui capaz de dizer uma verdade. Já fui ao médico tentar perceber o que se passa, ele disse-me para lá voltar se os meus tomates começassem a inchar, ficámos assim.
Tenho muitas coisas para fazer, coisas pesadas, coisas que me fazem ficar cada vez mais marreco. Falta-me coluna vertebral, falta-me coragem, falta-me vontade, falta-me convicção. Felizmente conto sempre com a minha amiga, a frustração, e também com as minhas pernas e os meus braços. Ando ver se arranjo trabalho para a cabeça, não está fácil: demasiada oferta.
Quando acordo belisco-me na esperança de adormecer até ao dia seguinte, mas isto parece não ter fim.
domingo, junho 20, 2010
Espera!
Não me apetece mandar sms às pessoas que quero encontrar.
Tenho medo de as não encontrar por acaso.
Tenho medo de as não encontrar por acaso.
quinta-feira, junho 17, 2010
Christmas card from a hooker in Minneapolis.
hey Charley I'm pregnant
and living on 9-th street
right above a dirty bookstore
off cuclid avenue
and I stopped taking dope
and I quit drinking whiskey
and my old man plays the trombone
and works out at the track.
and he says that he loves me
even though its not his baby
and he says that he'll raise him up
like he would his own son
and he gave me a ring
that was worn by his mother
and he takes me out dancin
every saturday night.
and hey Charley I think about you
everytime I pass a fillin' station
on account of all the grease
you used to wear in your hair
and I still have that record
of little anthony & the imperials
but someone stole my record player
how do you like that?
hey Charley I almost went crazy
after mario got busted
so I went back to omaha to
live with my folks
but everyone I used to know
was either dead or in prison
so I came back in minneapolis
this time I think I'm gonna stay.
hey Charley I think I'm happy
for the first time since my accident
and I wish I had all the money
that we used to spend on dope
I'd buy me a used car lot
and I wouldn't sell any of em
I'd just drive a different car
every day dependin on how
I feel.
hey Charley
for chrissakes
do you want to know
the truth of it?
I don't have a husband
he don't play the trombone
and I need to borrow money
to pay this lawyer
and Charley, hey
I'll be eligible for parole
come valentines day.
Tom Waits
quarta-feira, junho 16, 2010
A terrível tragédia do Semicontente (2).
O Semicontente confessa que as metáforas sempre o ajudaram a dizer a verdade, mas nunca o livraram do confronto com a realidade.
O Semicontente sabe que as metáforas silênciam os gritos da guerra, mas nem por isso ela se torna menos dolorosa.
O Semicontente vê tudo a desmoronar-se... em câmara lenta.
O Semicontente fica-se pelas metáforas.
Boa Noite Berlim.
O Semicontente sabe que as metáforas silênciam os gritos da guerra, mas nem por isso ela se torna menos dolorosa.
O Semicontente vê tudo a desmoronar-se... em câmara lenta.
O Semicontente fica-se pelas metáforas.
Boa Noite Berlim.
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