
sexta-feira, abril 21, 2006
quinta-feira, abril 20, 2006
Estórias d' Anjos
"Um Anjo conheci, vivia longe mas perto, habitava aquele lugar vazio, o lugar da alma e por isso a alma era tudo o que havia no mundo. Era paz e árvore e luz eléctrica e flor. Era céu e terra e mar. Era palavra."
Rui Mário
segunda-feira, abril 17, 2006
O Extravagante (4)
Ele sabe que o que está na moda é o absurdo e o anacrónico. Tudo está fora do seu sítio, e fica bem. Fica bem dizer que se gosta de bandas desenhadas absurdas, que se gosta de artistas absurdos. Ele sabe isso e quer mudar, mas mudar modas não é para todos, e Ele sabe que é difícil fazer com que as coisas tenham sentido: "Cada coisa no seu lugar"-pensou Ele.
É que para Ele, ser absurdo é demasiado fácil. Ele foi dormir com este pensamento na cabeça, apaga a luz do quarto e deita-se na cama para acordar no dia seguinte, antes do amanhecer.
Ah, é verdade! Alguém que apague a luz da cozinha.
É que para Ele, ser absurdo é demasiado fácil. Ele foi dormir com este pensamento na cabeça, apaga a luz do quarto e deita-se na cama para acordar no dia seguinte, antes do amanhecer.
Ah, é verdade! Alguém que apague a luz da cozinha.
Fechado para obras (3): sentido prático e dissolução biográfica
"MANUAL PRÁTICO DO SENTIDO PRÁTICO DO MUNDO".
À medida que ia lendo, as páginas eram consumidas pelo sentido prático da leitura: quando colocou o livro na estante só sobrava a capa; quando voltou a pegar na capa só sobrava o título; quando releu novamente o título, a biblioteca de uma vida inteira tinha desaparecido.
Democracia das Emoções (12): fazer história
Ele decidiu ignorar a história anterior ao encontro de ambos.
Ela decidiu acreditar no momento histórico do encontro de ambos.
Fazer amor é fazer história.
Ela decidiu acreditar no momento histórico do encontro de ambos.
Fazer amor é fazer história.
sábado, abril 15, 2006
Sintoma (16): paliativos

A problemática do trânsito intestinal ocupa um lugar cada vez mais importante no espaço mediático: sucedem-se os anúncios televisivos com promessas de alívio e satisfação imediatos.
Tal como para o trânsito rodoviário, chegará o tempo das rubricas matinais para o trânsito intestinal: todos os dias um convidado diferente e um funcionamento intestinal único.
Brevemente, os debates da nação serão substituídos por seminários públicos de gastrenterologia, os profissionais do sector serão premiados em galas anuais, a indústria farmacêutica tomará conta do mundo a partir das insuficiências intestinais de cada consumidor.
Num futuro próximo, ninguém conseguirá escapar à hegemonia dos paliativos intestinais: até os mais desfavorecidos terão direito a umas drageias made in China.
Mas, apesar de tudo, ficará a faltar um derradeiro passo para o fim da história: quando a produção de paliativos intestinais for definitivamente convertida em produção de paliativos existenciais.
Haverá estômago que resista?
Tal como para o trânsito rodoviário, chegará o tempo das rubricas matinais para o trânsito intestinal: todos os dias um convidado diferente e um funcionamento intestinal único.
Brevemente, os debates da nação serão substituídos por seminários públicos de gastrenterologia, os profissionais do sector serão premiados em galas anuais, a indústria farmacêutica tomará conta do mundo a partir das insuficiências intestinais de cada consumidor.
Num futuro próximo, ninguém conseguirá escapar à hegemonia dos paliativos intestinais: até os mais desfavorecidos terão direito a umas drageias made in China.
Mas, apesar de tudo, ficará a faltar um derradeiro passo para o fim da história: quando a produção de paliativos intestinais for definitivamente convertida em produção de paliativos existenciais.
Haverá estômago que resista?
quinta-feira, abril 13, 2006
O Extravagante (3)
Ele estava sentado numa namoradeira, num daqueles sítios antigos com um palácio antigo mesmo ao lado. Enquanto ouvia as máquinas fotográficas dos turistas a disparar, apontava as ideias que lhe vinham à cabeça num daqueles cadernos cheio de folhas brancas.
Uma mulher estrangeira pede-Lhe que tire uma foto com o palácio a fazer de cenário. Quando Ele se vira para a namoradeira onde estava sentado vê que agora esta está ocupada por dois namorados.
Chateado com toda aquela falta de sorte e inspiração, Ele atira o seu caderno ao ar que se desfaz em mil folhas soltas. Aquele par de namorados lembrou-Lhe de que havia uma Revolução sem causa para preparar.
O Impertinente (19): medo
Morria de medo de ficar sem nada para dizer.
Quando acordou disseram-lhe que nunca esteve vivo.
Quando acordou disseram-lhe que nunca esteve vivo.
terça-feira, abril 11, 2006
O Impertinente (18): inadaptado
Embora ele esteja particularmente atento às letras minúsculas do amor...
...no pós-romantismo só existem slogans em LETRAS GARRAFAIS.
...no pós-romantismo só existem slogans em LETRAS GARRAFAIS.
segunda-feira, abril 10, 2006
sábado, abril 08, 2006
quarta-feira, abril 05, 2006
Democracia das Emoções (11): encontro
Ele passou os últimos anos a fugir de mulheres grávidas.
Ela passou os últimos meses à procura de um pai.
Ontem encontraram-se: contra todas as possibilidades objectivas.
Ela passou os últimos meses à procura de um pai.
Ontem encontraram-se: contra todas as possibilidades objectivas.
segunda-feira, abril 03, 2006
Democracia das Emoções (10): consciência e acção
Ela disse: "Existe entre nós um fosso intransponível."
Depois tirou-lhe a gravata.
Depois tirou-lhe a gravata.
domingo, abril 02, 2006
Sintoma (15): condição pós-romântica e estatuto das metáforas
A condição pós-romântica pode ser definida a partir do estatuto das metáforas.
Durante algum tempo, a metáfora do jogo era utilizada para definir o envolvimento amoroso.
Hoje, a metáfora do amor é utilizada para definir o jogo, a performance, e a estratégia.
Afirmar que o amor é um jogo equivale a cair num lugar comum.
Mais apropriada é a seguinte afirmação: não há jogador que despreze a componente emocional.
O amor só se tornou num jogo na medida em que a contaminação metafórica venceu o princípio da realidade.
Por outras palavras, a metáfora converteu a realidade.
Chegará o tempo em que a realidade deixará de ser metáfora.
Chegará o tempo em que os amantes deixarão de ser jogadores.
Mas, até lá, já muito se terá jogado.
E muito se terá perdido.Para sempre?
Durante algum tempo, a metáfora do jogo era utilizada para definir o envolvimento amoroso.
Hoje, a metáfora do amor é utilizada para definir o jogo, a performance, e a estratégia.
Afirmar que o amor é um jogo equivale a cair num lugar comum.
Mais apropriada é a seguinte afirmação: não há jogador que despreze a componente emocional.
O amor só se tornou num jogo na medida em que a contaminação metafórica venceu o princípio da realidade.
Por outras palavras, a metáfora converteu a realidade.
Chegará o tempo em que a realidade deixará de ser metáfora.
Chegará o tempo em que os amantes deixarão de ser jogadores.
Mas, até lá, já muito se terá jogado.
E muito se terá perdido.Para sempre?
sábado, abril 01, 2006
Sintoma (14): disfunção eréctil

Embora para alguns seja parte da solução, na propaganda médica contemporânea, a disfunção eréctil é parte do problema.
Quando o corpo deixa de estar à altura daquilo que lhe é exigido, tanto o diagnóstico como o tratamento se impõem com as garantias científicas do necessário e do incontornável.
Disfunção eréctil e medicação compulsiva são duas componentes do mesmo sistema de controlo social: a colonização médica-científica de todos os parâmetros da existência humana.
Por outro lado, tanto o diagnóstico como o tratamento parecem evocar aquilo que julgávamos em vias de extinção: a sexualidade falocêntrica e a ditadura das emoções.
A cumpulsividade sexual é reactualizada através dos comprimidos azuis.
E estes são o suporte material da calamidade pós-romântica: quando o princípio da performatividade unidimensional se sobrepõe a tudo o resto.
Todos os caminhos vão dar ao falo: em nome da técnica, da ciência, e de um certo estilo de vida, somos capazes de perpetuar o vazio, o absurdo, o inumano.Haverá sexualidade que resista?
Quando o corpo deixa de estar à altura daquilo que lhe é exigido, tanto o diagnóstico como o tratamento se impõem com as garantias científicas do necessário e do incontornável.
Disfunção eréctil e medicação compulsiva são duas componentes do mesmo sistema de controlo social: a colonização médica-científica de todos os parâmetros da existência humana.
Por outro lado, tanto o diagnóstico como o tratamento parecem evocar aquilo que julgávamos em vias de extinção: a sexualidade falocêntrica e a ditadura das emoções.
A cumpulsividade sexual é reactualizada através dos comprimidos azuis.
E estes são o suporte material da calamidade pós-romântica: quando o princípio da performatividade unidimensional se sobrepõe a tudo o resto.
Todos os caminhos vão dar ao falo: em nome da técnica, da ciência, e de um certo estilo de vida, somos capazes de perpetuar o vazio, o absurdo, o inumano.Haverá sexualidade que resista?
quinta-feira, março 30, 2006
Tu cidade
Quero agarrar-me a esta cidade e marchar pelo rio adentro, ter a audácia de destruir ondas e partir barcos. Quero estar de vigília e perder-me no grito das gaivotas ao fim de tarde, gritar também eu, gritar o meu sangue. Quero ser guitarra, corda suada e batida, corda desnudada e amaciada. Trazes a minha tristeza dentro de ti, meu testemunho pedonal, meu lamento profundo, meu suspiro escondido no bolso pela mão cobarde. Agora, perdes-me em tuas ruas porque é isso que te peço. É isso que te suplico quando canso-me nas calçadas e esfolo-me nas lamas obscuras que tens. Abres-me a liberdade, porém desgastas-me contra as pedras sujas. Não é justo quando me dás espaço e eu corro, corro, corro enquanto tropeço nos sonhos, nas encruzilhadas, tantas e embaraçadas que não sei, não sei por onde seguir...quero ir até ao rio e ser gaivota para denunciar a tempestade na terra. Dá-me o teu mistério para que te conheça sem fim.
quarta-feira, março 29, 2006
Fragmentus Suburbia (11): amor próprio
É incrível como a pressa de chegar pode dar lugar ao auto-abandono.
O sentimento contagiante de transitoriedade tudo trespassa: até a urgência.
E quando olhas lá para fora, esqueces-te.Haverá amor (próprio) que resista à hora de ponta?
O sentimento contagiante de transitoriedade tudo trespassa: até a urgência.
E quando olhas lá para fora, esqueces-te.Haverá amor (próprio) que resista à hora de ponta?
O Impertinente (16): projecção e auto-desconhecimento
Ele disse: "Quando vou ao mar descubro sempre novas coisas sobre mim."
Quando voltou a si, descobriu que nunca tinha ido ao mar.
Quando voltou a si, descobriu que nunca tinha ido ao mar.
terça-feira, março 28, 2006
Vizinhos.
Eles gritavam à hora do jantar.
Eles nunca tinham lido um poema de amor.
Eles nem sequer tinham posto a máscara antes de começar a falar.
Eles nunca tinham lido um poema de amor.
Eles nem sequer tinham posto a máscara antes de começar a falar.
segunda-feira, março 27, 2006
Anuncio de Jornal
Alma minha gentil, que te partiste, trespassa corpo inocuo e perdido.
Em razoavel estado, usado 4 anos apenas, em felicidade extrema.
Com acentuada dificuldade em arrancar. A precisar de afinacao no engasgamento da palavra, (como aquelas que se fazem aos pianos) e introducao de objectivos principalmente na area futura.
Um ano de garantia, (valida durante o periodo equivalente ao horoscopo 2006, propicio a mudancas).
Documentos em ordem, legalizado, e acessivel.
Manutencao capilar pouco frequente, higiene dentaria em dia, mudanca de ares feita a pouco tempo.
Contactar o proprio, com jeitinho e educacao (para nao assustar).
Em razoavel estado, usado 4 anos apenas, em felicidade extrema.
Com acentuada dificuldade em arrancar. A precisar de afinacao no engasgamento da palavra, (como aquelas que se fazem aos pianos) e introducao de objectivos principalmente na area futura.
Um ano de garantia, (valida durante o periodo equivalente ao horoscopo 2006, propicio a mudancas).
Documentos em ordem, legalizado, e acessivel.
Manutencao capilar pouco frequente, higiene dentaria em dia, mudanca de ares feita a pouco tempo.
Contactar o proprio, com jeitinho e educacao (para nao assustar).
sábado, março 25, 2006
Democracia das Emoções (9): consequências da intimidade
Ele engolia todas as palavras que não conseguia escrever.
Ela escrevia todas as palavras que não conseguia engolir.
Ela escrevia todas as palavras que não conseguia engolir.
No final, ele ficou com as páginas em branco e ela com os analgésicos para as dores de barriga.
Sintoma (13): a ideologia da medicação
Ela disse: "É preciso respeitar os ritmos biológicos do corpo humano."
Depois receitou-lhe uns comprimidos: para que as intermitências do bailado não comprometam o próprio bailarino.
Depois receitou-lhe uns comprimidos: para que as intermitências do bailado não comprometam o próprio bailarino.
terça-feira, março 21, 2006
"Era Uma Vez Um Dragão"
Texto: António Manuel Couto Viana
Interpretação: Daniel Figueiredo, João Vicente, José Redondo
Dias 25 e 26 de Março (Sábado e Domingo) pelas 16h30 no Espaço TapaFuros (Estúdio Doiséme) em Mem-Martins. Entrada Gratuita.
Um espetáculo a não perder... MESMO.
sexta-feira, março 17, 2006
quinta-feira, março 16, 2006
O Impertinente (14): fé e salvação
Ele não acreditava em super-heróis...
...até ao dia em que precisou de ser salvo.
...até ao dia em que precisou de ser salvo.
quarta-feira, março 15, 2006
O Impertinente (13): fora do tempo
Não era particularmente azarado ou especialmente sortudo: apenas não reclamava os prémios a tempo.
terça-feira, março 14, 2006
Fragmentus Suburbia (10): pendularidade e desresponsabilização
Tens razão:
Dentro de um comboio suburbano, conceptualizar a urgência pode ser uma tarefa tão desgastante como inútil.
Dentro de um comboio suburbano, conceptualizar a urgência pode ser uma tarefa tão desgastante como inútil.
domingo, março 12, 2006
O Extravagante (2)
Ele tem vindo a desenvolver um fetiche pelos telefones das casas alheias, Ele acha que os telefones dizem muito sobre uma pessoa.
Quando Ele encontra um telefone igual ao que tem em casa, tem orgasmos múltiplos e rejubila de felicidade.
O que Ele precisa é de uma mulher ou então de revistas porno que o façam tornar num homem de barba rija.
O que Ele mais detesta são telefones sem fios.
Quando Ele encontra um telefone igual ao que tem em casa, tem orgasmos múltiplos e rejubila de felicidade.
O que Ele precisa é de uma mulher ou então de revistas porno que o façam tornar num homem de barba rija.
O que Ele mais detesta são telefones sem fios.
sábado, março 11, 2006
O Impertinente (12): sexualidade, teorização e risco
Há quem transforme grandes edifícios teóricos em episódios sexuais arrojados.
E há quem converta a sexualidade episódica numa fabulação teórico-especulativa.
Ele usa perservativo.
E há quem converta a sexualidade episódica numa fabulação teórico-especulativa.
Ele usa perservativo.
O Impertinente (11): impostos e impostores
De minimalismo em minimalismo, acabaria por se tornar num minimalismo dele próprio.
Embora se tenha esforçado, ainda pertence ao mesmo escalão do IRS.
Embora se tenha esforçado, ainda pertence ao mesmo escalão do IRS.
sexta-feira, março 10, 2006
quinta-feira, março 09, 2006
O Personagem Dançante
Sentaste-me à tua frente. Vi que havia um copo de vinho abandonado em cima da mesa. Senti-me seduzida pela sua cor quente e picante. De súbito, profetizei uma noite de sabores apaladados. Entre nós havia uma mesa e na mesa havia uma vela semi queimada semi não queimada. No meio de nós havia as palavras. Aliás, foi por causa disso que estava ali, naquela noite. Por causa das PALAVRAS. Assim, leste versos de um qualquer livro de poesia, de um autor que não me lembro, de um autor que conheço, mas não me lembro, de um autor que desconhecia e continuo a não saber o nome, mas sei os seus versos e, isso, acho que faria o poeta feliz. Na tua poesia, não tua, mas tão tua, tão aguçada nos teus lábios, tão acutilante nas pausas líricas, perdi os sentidos, não encontrei sentido nos versos, não encontrei o meu sentido, mas ouvi o desejo de beleza dos poemas, ouvi a Vida primitiva dos ritmos da linguagem. E bastou-me. Entretanto, já nem ligava ao escorpião que vagueava sobre as minhas mãos pousadas na mesa. Acho que lhe quis dar um pouco de açucar, mas o inútil recusou...pena a tua...que não tens penas...pensei que o dito escorpião já me deveria ter atacado com o seu veneno para solucionar aquela noite, mas ele estava incansável nas suas danças exóticas com as suas patas estranhas...eventualmente, acabei por desprezá-lo e fiquei a ouvir poesia.
Democracia das Emoções (8): cumplicidade e comunicação
Ele encontrou a forma mais silenciosa de o dizer.
Ela descobriu a maneira menos barulhenta de o ouvir.
Durante o sono, todos somos cúmplices: das formas de o dizer e das maneiras de o ouvir.
Ela descobriu a maneira menos barulhenta de o ouvir.
Durante o sono, todos somos cúmplices: das formas de o dizer e das maneiras de o ouvir.
Democracia das Emoções (7): a divisão do trabalho conjugal
Ainda que apenas ela tenha coragem para o dizer, só ele terá a cobardia de o conseguir ouvir.
Democracia das Emoções (6): mínimo denominador comum
Apesar de pertencerem a mundos diferentes...
...utilizam o mesmo ecoponto.
...utilizam o mesmo ecoponto.
terça-feira, março 07, 2006
A Naifa (novo álbum).
domingo, março 05, 2006
Sobre as memórias.
Ele só tinha uma esperança: não deixar morrer as memórias que tinha encontrado naquele lugar. Era crucial reavivar as memórias ou deixá-las de vez. Nesse lugar, onde a música faz de nostalgia, ele deixou cair as memórias da mesma maneira que as tinha agarrado: a dançar. Ele voltou ao lugar para ter a certeza de que aquilo tudo não passava de um sonho e por lá deixou as memórias boas e más. Ali, onde se faziam rodas, misturavam-se os pós magicos que as cinzas iam soltando.
Cinzas de mil memórias, à espera que a senhora da limpeza as leva-se como se fossem as cinzas de serpentinas caídas no chão.
E foi assim que ele se tornou Pós-Romântico.
Cinzas de mil memórias, à espera que a senhora da limpeza as leva-se como se fossem as cinzas de serpentinas caídas no chão.
E foi assim que ele se tornou Pós-Romântico.
sábado, março 04, 2006
Subsidiarismo (3)
Caso o Poeta se mostre relutante em abraçar o interesse público, eis a solução infalível: subsidiar a aquisição de telemóvel e/ou subsidiar os desencontros amorosos entre moços e moças disponíveis, interessantes, sem doenças e/ou deformidades manifestas e/ou latentes.
Subsidiarismo (2)
Tendo em conta o teor e a recorrência das confissões que Pedro Mexia recebe via sms, creio que já se justificava um subsídio ou, na melhor das hipóteses, um cargo na função pública.
Subsidiarismo
Quando «o mercado» não funciona, há que exaltar o subsidiarismo: eis uma fórmula que ganha eficácia à medida que o mercado vai falhando.
sexta-feira, março 03, 2006
quinta-feira, março 02, 2006
O Impertinente (10): alheamento
Ele disse: "A capacidade de ouvir conversas alheias é inversamente proporcional à capacidade de escutar o nosso próprio alheamento."
Quando olhou em redor, reparou que só havia uma cadeira desocupada: a dele.
Quando olhou em redor, reparou que só havia uma cadeira desocupada: a dele.
O Impertinente (9): resumo
Ela disse: "Como vês, a minha vida não se resume só a ti."
Embora não o pudesse adivinhar, aquela frase resumia toda a sua vida sentimental.
Embora não o pudesse adivinhar, aquela frase resumia toda a sua vida sentimental.
terça-feira, fevereiro 28, 2006
Democracia das Emoções (5): recomeço
- Onde é que tinhamos ficado?
- No fim.Depois tiraram as máscaras: um ao outro.
- No fim.Depois tiraram as máscaras: um ao outro.
Democracia das Emoções (4): lágrimas
Ela disse: "Talvez seja da falta de lágrimas."
E foi então que as lágrimas secaram por completo.
E foi então que as lágrimas secaram por completo.
domingo, fevereiro 26, 2006
sábado, fevereiro 25, 2006
Sintoma (12): pós-romântismo e memória poética
"Surpreende-me!": eis o slogan que ameaça tomar conta da vivência amorosa.
Houve um tempo em que nada disto fazia sentido: as promessas eram outras.
Talvez por isso o desencantamento pós-romântico não seja de fácil aceitação.
Há quem diga que o sonho de uma nova ordem amorosa está enterrado.
Enquanto permanecer a desordem real e/ou cognitiva apenas resta uma esperança.
Ironicamente, o pós-romântismo está condenado a revisitar as ruínas do romântismo.
E todos nós, sem excepção, estamos condenados a revisitar os lugares onde fomos felizes.
Houve um tempo em que nada disto fazia sentido: as promessas eram outras.
Talvez por isso o desencantamento pós-romântico não seja de fácil aceitação.
Há quem diga que o sonho de uma nova ordem amorosa está enterrado.
Enquanto permanecer a desordem real e/ou cognitiva apenas resta uma esperança.
Ironicamente, o pós-romântismo está condenado a revisitar as ruínas do romântismo.
E todos nós, sem excepção, estamos condenados a revisitar os lugares onde fomos felizes.
Sintoma (11): ditadura do humor e verdade amorosa
A prevalência do riso sobre o sorriso nas narrativas amorosas é um dado incontornável da vivência contemporânea.
A ditadura do humor institui um estado permanente de calamidade pós-romântica: os amantes esforçam-se arduamente na busca da verdade humorística.
Um esforço identitário e relacional que transforma radicalmente as regras do jogo: a verdade amorosa já não é o que era.
Fazer rir.
Ter piada.
Poderá o casal pós-romântico aspirar à auto-compreensão das suas convulsões emocionais?
Com uma pitada de humor, tudo é possível: até a mais desencantada das ilusões.
A ditadura do humor institui um estado permanente de calamidade pós-romântica: os amantes esforçam-se arduamente na busca da verdade humorística.
Um esforço identitário e relacional que transforma radicalmente as regras do jogo: a verdade amorosa já não é o que era.
Fazer rir.
Ter piada.
Poderá o casal pós-romântico aspirar à auto-compreensão das suas convulsões emocionais?
Com uma pitada de humor, tudo é possível: até a mais desencantada das ilusões.
Sintoma (10): comédia romântica
O Amor está a tornar-se um lugar desnecessariamente complicado: entre a ditadura do humor e os disparates pós-românticos, todos somos estranhos e auto-suficientes.
sexta-feira, fevereiro 24, 2006
Carta aberta a um Jornal, escrita por um simples que ate le umas coisas...
"Mandala dispensou dois manipuladores"
A principio, confesso, a confusao gerou-se porque li mal o titulo.
Para mim "Mandela dispensou dois manipuladores" soava-me bem, soava-me familiar, soava-me heroico. Mandela, aquela Pessoa de um outro planeta distante habitado por uma estranha especie de "Homens Justos", ou la como se chamam essas coisas, teria dispensado dois acessores manipuladores que o teriam querido afastar da sua luta pelo seu povo nos fins do Apartheid, com propostas aliciantes cheias de dinheiro Branco ou cargos na Onu. E este caso so agora se vinha a conhecer visto Mandela, fazendo jus aos seus super-poderes de "Homem-Bom", ou la como se chamam essas coisas, ter guardado segredo para salvaguardar as familias dos tristes manipuladores de um ataque em furia do seu povo,verdadeiro amante do Presidente Mandela. Incrivel! Que homem!
...
Mas depois continuei a ler a noticia. Afinal foram os manipuladores de marionetas (a recibos verdes) que foram dispensados por uma empresa de manipuladores de marionetas chamada Mand(a)la...
.
Fiquei triste, pois. Por um lado tiraram-me a alegria de ver uma noticia com um pouquinho da virtuosidade de outros tempos, de outros homens. Pensei, por um instante que "era agora, pode ser que inspire alguem!"
Por outro lado revelaram-me que ate os mestres da manipulacao (e seus assistentes) estao presos a recibos verdes. O que apenas revela que por detras de um manipulador ha ainda outro manipulador, este ultimo ainda mais chefe. E por detras deste ainda estara outro. E por ai adiante...
No fim quem se lixa e sempre a marioneta, que se nao esta caida no meio do desterro, esta estupidamente obediente a ditar as estupidezes dos manipuladores.
..
Depois de tanto estremuchamento logo de manha, senti-me tao Cunhal que nao consegui tomar o pequeno-almoco descansado. Tive de dizer a Madalena para me levar a sandes de salmao e trufas e para me trazer uma caneca de cevada e uma torradita. Passei a manha toda com ares de pobreza...
..
Caro Editor,
Peco, encarecidamente, que tenha mais cuidado na hora de publicar titulos que possam levar a segundas interpretacoes socialmente conscientes.
Nao cai nada bem, principalmente na hora do mata-bicho.
Cumprimentos Cordiais
A principio, confesso, a confusao gerou-se porque li mal o titulo.
Para mim "Mandela dispensou dois manipuladores" soava-me bem, soava-me familiar, soava-me heroico. Mandela, aquela Pessoa de um outro planeta distante habitado por uma estranha especie de "Homens Justos", ou la como se chamam essas coisas, teria dispensado dois acessores manipuladores que o teriam querido afastar da sua luta pelo seu povo nos fins do Apartheid, com propostas aliciantes cheias de dinheiro Branco ou cargos na Onu. E este caso so agora se vinha a conhecer visto Mandela, fazendo jus aos seus super-poderes de "Homem-Bom", ou la como se chamam essas coisas, ter guardado segredo para salvaguardar as familias dos tristes manipuladores de um ataque em furia do seu povo,verdadeiro amante do Presidente Mandela. Incrivel! Que homem!
...
Mas depois continuei a ler a noticia. Afinal foram os manipuladores de marionetas (a recibos verdes) que foram dispensados por uma empresa de manipuladores de marionetas chamada Mand(a)la...
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Fiquei triste, pois. Por um lado tiraram-me a alegria de ver uma noticia com um pouquinho da virtuosidade de outros tempos, de outros homens. Pensei, por um instante que "era agora, pode ser que inspire alguem!"
Por outro lado revelaram-me que ate os mestres da manipulacao (e seus assistentes) estao presos a recibos verdes. O que apenas revela que por detras de um manipulador ha ainda outro manipulador, este ultimo ainda mais chefe. E por detras deste ainda estara outro. E por ai adiante...
No fim quem se lixa e sempre a marioneta, que se nao esta caida no meio do desterro, esta estupidamente obediente a ditar as estupidezes dos manipuladores.
..
Depois de tanto estremuchamento logo de manha, senti-me tao Cunhal que nao consegui tomar o pequeno-almoco descansado. Tive de dizer a Madalena para me levar a sandes de salmao e trufas e para me trazer uma caneca de cevada e uma torradita. Passei a manha toda com ares de pobreza...
..
Caro Editor,
Peco, encarecidamente, que tenha mais cuidado na hora de publicar titulos que possam levar a segundas interpretacoes socialmente conscientes.
Nao cai nada bem, principalmente na hora do mata-bicho.
Cumprimentos Cordiais
quarta-feira, fevereiro 22, 2006
Deve ser mesmo da idade.
Engraçado como nos queremos sempre mais velhos e mais sábios do que realmente somos. Eu estava mesmo convencido de que sabia tudo sobre o Universo, no entanto sobre mim sabia muito pouco. Foi então que, um dia, ao expor o assunto me disseram que isso passava - "é da idade!" - diziam eles.
Pois eu estava mesmo convencido que não me havia de surpreender com mais nada a não ser comigo próprio, mas realmente há sempre alguém que aparece para nos surpreender e tornar esta vida bem mais interessante. Foi então que mandei tudo às ortigas e fui dormir uma sesta, à espera de acordar com um telefonema com uma declaração de amor.
Pois eu estava mesmo convencido que não me havia de surpreender com mais nada a não ser comigo próprio, mas realmente há sempre alguém que aparece para nos surpreender e tornar esta vida bem mais interessante. Foi então que mandei tudo às ortigas e fui dormir uma sesta, à espera de acordar com um telefonema com uma declaração de amor.
terça-feira, fevereiro 21, 2006
Educação paralela
As matérias foram aprendidas ou despejadas para o fundo de pó das coisas inúteis. Os apontamentos, desorganizados e desapontados na arca, foram escritos sob o comando do chefe. Positivas que foram negativas...sempre negativas! No final, fiquei a saber nada...é certo, uns reis e duas guerras. A tarefa de me educar está caducada. Agora, só resta acarretar as consequências daquilo que sou, pois já fui educada: a música ensinou-me a escutar as pormenores e a dançar nos contratempos, as histórias e a poesia deram-me raízes de deusa e sonhos de criança, a serra soprou-me gritos de folhas e alquimizou-me em mistério, os loucos despiram-se da sua pele e gritaram-me a essência do imaginário profano e insano, um beijo encheu-me o coração e fez-me perceber as palavras amorosas abandonadas nos becos, as conversas aborreceram-me ou deram-me mundos fundos de selvas e savanas, o sábio olhou-me e não disse nada enquanto escrevia um novo livro. Jogo os meus cartões da sorte, com positivas ou negativas, sem números, cálculos e contas. Se me apetecer, desta vez, três mais três será sete.
As matérias foram aprendidas ou despejadas para o fundo de pó das coisas inúteis. Os apontamentos, desorganizados e desapontados na arca, foram escritos sob o comando do chefe. Positivas que foram negativas...sempre negativas! No final, fiquei a saber nada...é certo, uns reis e duas guerras. A tarefa de me educar está caducada. Agora, só resta acarretar as consequências daquilo que sou, pois já fui educada: a música ensinou-me a escutar as pormenores e a dançar nos contratempos, as histórias e a poesia deram-me raízes de deusa e sonhos de criança, a serra soprou-me gritos de folhas e alquimizou-me em mistério, os loucos despiram-se da sua pele e gritaram-me a essência do imaginário profano e insano, um beijo encheu-me o coração e fez-me perceber as palavras amorosas abandonadas nos becos, as conversas aborreceram-me ou deram-me mundos fundos de selvas e savanas, o sábio olhou-me e não disse nada enquanto escrevia um novo livro. Jogo os meus cartões da sorte, com positivas ou negativas, sem números, cálculos e contas. Se me apetecer, desta vez, três mais três será sete.
segunda-feira, fevereiro 20, 2006
Mestres.
"Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta o universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravara letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."
José de Almada Negreiros
Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."
José de Almada Negreiros
sexta-feira, fevereiro 17, 2006
Democracia das Emoções (3): jet lag
Ele chega antes dela partir.
Ela parte antes dele chegar.
Às vezes apanham o mesmo avião.
Ela parte antes dele chegar.
Às vezes apanham o mesmo avião.
quinta-feira, fevereiro 16, 2006
Desabafo politico-sentimental de um simples que ate le umas coisas.
Nos tempos que correm sinto-me, a maior parte das vezes, extremamente desvalorizado...
Ando desinvestido.
Evoluindo negativamente num cenario de crise, globalizada em cada pedaco de mim. Aos poucos, sinto que a minha alma deixa de ser competitiva, deixada perdida por tantos objectivos dispersos, abandonada algures entre a curva descendente da minha motivacao.
Sinto que me descapitalizo. O meu corpo, pouco produtivo, nao aguenta mais o dia-a-dia de competitividade entre a minha sede e o meu figado. Bebo mais do que aquilo que posso pagar e confesso que, nas noites em que me sinto mais so, antes de adormecer, penso acabar com tudo isto e apresentar falencia tecnica, moral e amorosa.
Nunca conseguirei, estou certo. Custa-me demais o esforco que tenho dispender para contornar a minha burocracia catolica.
Nos (poucos) momentos de empreendedorismo, publicito-me pelas ruas da amargura. Fico na espectativa de que alguem, especialmente bonito, me lance, (de caras, estilo ora toma!) uma OPA, de preferencia nao muito hostil.
Ando desinvestido.
Evoluindo negativamente num cenario de crise, globalizada em cada pedaco de mim. Aos poucos, sinto que a minha alma deixa de ser competitiva, deixada perdida por tantos objectivos dispersos, abandonada algures entre a curva descendente da minha motivacao.
Sinto que me descapitalizo. O meu corpo, pouco produtivo, nao aguenta mais o dia-a-dia de competitividade entre a minha sede e o meu figado. Bebo mais do que aquilo que posso pagar e confesso que, nas noites em que me sinto mais so, antes de adormecer, penso acabar com tudo isto e apresentar falencia tecnica, moral e amorosa.
Nunca conseguirei, estou certo. Custa-me demais o esforco que tenho dispender para contornar a minha burocracia catolica.
Nos (poucos) momentos de empreendedorismo, publicito-me pelas ruas da amargura. Fico na espectativa de que alguem, especialmente bonito, me lance, (de caras, estilo ora toma!) uma OPA, de preferencia nao muito hostil.
Picardias!
Ele, no seu jeito altivo do costume, retirou o cachimbo da boca e proferiu o pensamento do dia, diante do ouvinte ausente:
"A constância só é boa para os ridículos"
.
..
Depois, deixou-se ficar...
"A constância só é boa para os ridículos"
.
..
Depois, deixou-se ficar...
terça-feira, fevereiro 14, 2006
Corações de papel.
Hoje, mais do que corações de papel a serem distribuidos na rua, havia flores e velhinhos convecidos de que tinham as namoradas mais bonitas do mundo.
Democracia das Emoções (2): entrar e sair
Ela limpa os pés antes de entrar.
Ele limpa os pés antes de sair.
Às vezes trocam.
Ele limpa os pés antes de sair.
Às vezes trocam.
segunda-feira, fevereiro 13, 2006
Fechado para obras (2): imunidade e felicidade
A imunidade é um privilégio: "o privilégio de estar isento de algo a que os outros estão sujeitos".
Talvez a imunidade à felicidade seja o maior dos privilégios: estar sujeito à felicidade dos outros pode ser muito pouco satisfatório para a felicidade pessoal.
E talvez o maior dos privilégios seja, afinal de contas, apenas o melhor diagnóstico da infelicidade pessoal.
Talvez a imunidade à felicidade seja o maior dos privilégios: estar sujeito à felicidade dos outros pode ser muito pouco satisfatório para a felicidade pessoal.
E talvez o maior dos privilégios seja, afinal de contas, apenas o melhor diagnóstico da infelicidade pessoal.
domingo, fevereiro 12, 2006
Diário de um simples que até lê umas coisas-1
"I believe that, through the act of living, the discovery of oneself is made concurrently with the discovery of world around us, wich can mould us. A balance must be established between these two worlds - the one inside us and the one outside us. As the result of a constant reciprocal process, both these worlds come to form a single one. And it is this world that we must communicate." Henri Cartier Bresson.Querido Diário
A príncipio esta frase deixou-me estúpido. Não estava nada à espera, devo confessar, de ler uma coisa que me dissesse tanto, escrita por um fotógrafo. Não é de esperar que os fotógrafos escrevam coisas que nos toquem tanto. Ainda por cima uma frase saída da Enciclopédia das Filosofias Baratas. Não estava à espera mas tocou-me.
Há que respeitar o senhor. Há que sempre respeitar um senhor que tira fotografias como este senhor as tirava. São olhos de outro mundo, sensíveis a uma luz própria, que vêem um outro mundo (não obstante ser também o nosso) onde não nos quisemos dar ao luxo de entrar.
É o mundo da Magnum.
Por vezes gostava de ser aquele soldado espanhol morto na guerra civil. Só para poder entrar pela lente do Robert Capa, só para poder ser tornado em sais de prata, tornado contraste entre preto e branco, só.
Como isso já não é possível, espero ao menos ganhar o Euromilhões.
sábado, fevereiro 11, 2006
sexta-feira, fevereiro 10, 2006
Fragmentus Suburbia (10): atrasos.
Nem tudo está assim tão cornometrado e ligado como podemos pensar.
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".
Gramaticas
Os acentos a mim nao me comovem.
O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
.
Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.
O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
.
Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.
quinta-feira, fevereiro 09, 2006
hUm
Ontem tinha tanta coisa para dizer. Ontem a noite tinha-me por inteiro na ponta da lingua!
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....
quarta-feira, fevereiro 08, 2006
Sintoma (9): autor e autoria
Pior do que ficar refém das próprias palavras:
...desconhecer o valor do seu resgate.
...desconhecer o valor do seu resgate.
terça-feira, fevereiro 07, 2006
O Impertinente (7): desencontro
"Não saio daqui enquanto não escrever umas palavras."
Quando elas apareceram, ele já lá não estava.
Quando elas apareceram, ele já lá não estava.
sexta-feira, fevereiro 03, 2006
Fragmentus Suburbia (9): prazo de validade
É preciso fugir.
É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.
No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Há um tempo para a fuga e um tempo para a permanência.É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.
No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Tempos que se cruzam, sentimentos que coincidem.
A linha que vai dar à saída é a mesma que reencaminha para a entrada.
Por isso, é preciso saber esperar...
...enquanto é tempo.
Interrupção
- O seu bilhete, por favor?
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.
quarta-feira, fevereiro 01, 2006
Tudo por nossa conta.
O frio do Inverno congelou as nossas lágrimas de saudades. O mar estava à nossa frente e o vento sussurrava poemas de amor. Ficámos a ver o Sol a desaparecer à medida que íamos fechando os olhos, à medida que o chão e o céu desapareciam, à medida que largávamos a tristeza que nos inundava o sangue. Havia qualquer coisa que nos percorria o corpo, qualquer coisa que ia das lágrimas à ponta dos pés.Pouco a pouco, o mundo ia-se tornando nosso, aquela paisagem ia-se tornando nossa. Os cabelos loiros de um pequeno príncipe apareceram no sítio onde o Sol se escondeu. Estava tudo por nossa conta e do pequeno príncipe... era só abrir as asas e voar.
terça-feira, janeiro 31, 2006
David Cronenberg na Cinemateca

Stereo: 5ª, 2 de Fevereiro, 19h30
Crimes of the Future: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h
Shivers: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30
Rabid: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h
Naked Lunch: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30
The Brood: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30
Scanners: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30
Videodrome: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h
The Dead Zone: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30
The Fly: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h
Dead Ringers: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30
M. Butterfly: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h
Fast Company: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30
Crash: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h
eXistenZ: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h
Spider: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30
A History of Violence (antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30
Crimes of the Future: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h
Shivers: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30
Rabid: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h
Naked Lunch: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30
The Brood: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30
Scanners: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30
Videodrome: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h
The Dead Zone: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30
The Fly: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h
Dead Ringers: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30
M. Butterfly: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h
Fast Company: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30
Crash: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h
eXistenZ: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h
Spider: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30
A History of Violence (antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30
Sintoma (8): o trabalho poético de despoetização
Ela disse: "A vida não se confunde com a arte."
Em seguida, nasceram flores.
Ela debruçou-se para colher o poema.
Em seguida, nasceram flores.
Ela debruçou-se para colher o poema.
domingo, janeiro 29, 2006
O Extravagante.
Num daqueles dias cheios de Sol, o Extravagante estava em casa farto de pensar de mais. Na verdade o facto do dia ser daqueles cheios de Sol é absurdamente insignificante para a narrativa deste pequeno excerto da vida quotidiana e "pacata" do Extravagante. Também não me interessa muito fazer a descrição fisica e psicológica do dito cujo, uma vez que assim posso tornar esta personagem imprevísivel e livre de qualquer responsabilidade moral.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.
sábado, janeiro 28, 2006
Educação televisiva (3)
A educação televisiva é feita de pequenas revelações.
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:
"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:
"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"
Educação televisiva (2)
A educação televisiva é feita de pequenos equívocos.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.
Educação televisiva (1)
A educação televisiva é feita de pequenas derrotas.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.
quinta-feira, janeiro 26, 2006
Músicas...
Preciso de silêncio total para escrever. Silêncio total, não! Preciso de ouvir os barulhos do vizinho tão entranhados em mim preciso de ouvir os carros que passam preciso de ouvir as conversas esvaziadas no espaço preciso de ouvir a trela irrequieta de cão ainda mais irrequieto preciso de ouvir o suspirar preciso de ouvir a gotejar preciso de ouvir o salto alto de coxa firme preciso de ouvir murmurar segredos preciso de ouvir o latejar de uma veia preciso de ouvir um cantarolar expoente de lirismo preciso de ouvir novos conselhos preciso de ouvir as pausas preciso de ouvir o coração derramando rios de emoções preciso de ouvir chuvas em transe preciso de ouvir chinquilhar o vidro e tremer a mesa preciso de ouvir o zumbido dos passos preciso de ouvir a máquina a funcionar. Enfim, preciso de silêncio total para escrever.
domingo, janeiro 22, 2006
O Impertinente (6): acto cívico
As votações democráticas prestam-se à encenação da vivência comunitária.
Veja-se, por exemplo, o caso de um rapaz profundamente imbuído do dever cívico, novamente lançado às feras em pleno recreio escolar.
De um momento para o outro vê-se cercado por figuras inesperadas que transportam consigo temíveis exigências performativas.
Após alguns instantes de mútua inquirição, compreendem que afinal vivem todos nas mesmas ruas, na mesma localidade, no mesmo microcosmos suburbano.
Gera-se uma familiaridade distanciada, impõe-se o menu do dia sem primar pela subtileza: "Então, votou bem?".
Entretanto, ela, do lado de lá, murmura-lhe um nome.
E sorri.
Mais tarde, em pleno acto cívico, a angústia eclode, imparável: "Como era mesmo o nome dela?".
Sofrendo pela ausência do substantivo próprio dela, mostrou-se incapaz de acertar no substantivo presidencial.
Quando se preparava para recolher os certificados de substância, a senhora da mesa pergunta-lhe: "Substantivo próprio, é o senhor?"
E foi então que ele se denunciou: "Não, sou o outro. Sou sempre o outro."
Veja-se, por exemplo, o caso de um rapaz profundamente imbuído do dever cívico, novamente lançado às feras em pleno recreio escolar.
De um momento para o outro vê-se cercado por figuras inesperadas que transportam consigo temíveis exigências performativas.
Após alguns instantes de mútua inquirição, compreendem que afinal vivem todos nas mesmas ruas, na mesma localidade, no mesmo microcosmos suburbano.
Gera-se uma familiaridade distanciada, impõe-se o menu do dia sem primar pela subtileza: "Então, votou bem?".
Entretanto, ela, do lado de lá, murmura-lhe um nome.
E sorri.
Mais tarde, em pleno acto cívico, a angústia eclode, imparável: "Como era mesmo o nome dela?".
Sofrendo pela ausência do substantivo próprio dela, mostrou-se incapaz de acertar no substantivo presidencial.
Quando se preparava para recolher os certificados de substância, a senhora da mesa pergunta-lhe: "Substantivo próprio, é o senhor?"
E foi então que ele se denunciou: "Não, sou o outro. Sou sempre o outro."
Conversas de café.
Eles os dois estavam sentados num café a conversar, falavam de tudo e mais alguma coisa, das coisas boas e das coisas más. Era uma conversa cheia de momentos de silêncio, durante os quais eles esperavam ouvir do outro aquilo que mais queriam ouvir.
quinta-feira, janeiro 19, 2006
Ler no nevoeiro
Perguntavas-me, ávido de novo conhecimento, se o nevoeiro, o mesmo de hoje, escondia segredos. Desconheço a minha resposta. Aliás, sou tão humano quanto tu para poder dizer-te algo de concreto e real a esse respeito. Sei que, enquanto a neblina passa, sinto-me a envelhecer nestas madeiras e que elas rangem as minhas feridas, mas vou sorrindo e sendo gentil. Sei que, enquanto a neblina passa, o mundo desafia-se a si próprio, faz paródias e tapa-se com um véu, um pano de fundo, onde navegam tempestades e recentes marinheiros que lutam pelas sobrevivências nas ondas terríficas.
Como a paisagem tem o nevoeiro, eu tenho o meu chapéu, a minha aba protectora de olhares furtivos e mastigadores de alma. No chapéu, enrolam-se os cabelos que desenham libélulas e anjos terriveis na minha cabeça e tecem camisolas de lã para aquecer os meus órgãos.
Uma vez, entrei nesse nevoeiro à procura de encantamentos e não de segredos. Nem me cheguei a perder, pois nunca soube onde estava. Lá, esbarrei contra uma máquina, o meu mecanismo desfiado em tiras de papel com poesia. Também, vi ninfas a amarem-se e a confundirem-se no branco evaporado da neblina.
Continuo sem saber a resposta à tua pergunta...segredos? Fiquei a saber um bocadinho mais, mas este será o meu segredo.
Como a paisagem tem o nevoeiro, eu tenho o meu chapéu, a minha aba protectora de olhares furtivos e mastigadores de alma. No chapéu, enrolam-se os cabelos que desenham libélulas e anjos terriveis na minha cabeça e tecem camisolas de lã para aquecer os meus órgãos.
Uma vez, entrei nesse nevoeiro à procura de encantamentos e não de segredos. Nem me cheguei a perder, pois nunca soube onde estava. Lá, esbarrei contra uma máquina, o meu mecanismo desfiado em tiras de papel com poesia. Também, vi ninfas a amarem-se e a confundirem-se no branco evaporado da neblina.
Continuo sem saber a resposta à tua pergunta...segredos? Fiquei a saber um bocadinho mais, mas este será o meu segredo.
Poesia sem verso(s).
Porque por mais que nos queiramos esquecer da poesia, ela aparece sem avisar, não chega a deixar saudade.
Porque a poesia já não se faz em verso, não vou perder mais tempo a tentar descrevê-la.
Porque a poesia já não se faz em verso, não vou perder mais tempo a tentar descrevê-la.
domingo, janeiro 15, 2006
O Impertinente (5): vida interior
Tinha família, amigos, companheiro e trabalho bem remunerado.
Tinha cultura, ciência e também algum ócio.
Tinha talento, técnica e imensas capacidades.
Tinha loucuras, desvairos e um colchão de fazer inveja.
Tinha certezas, ocorrências e alguns esquecimentos.
Tinha saudades, comprimidos e bilhetes de avião.
Tinha seguro, conta bancária e défice orçamental.
Tinha convites, solidariedade e vida social.
Tinha gases, flores de estufa e natação ao fim-de-semana.
Tinha disciplina, hábitos e a novela das nove.
Tinha psicanalista, aulas de yoga e discussões com o vizinho.
Tinha piano, melancolia e umas mãos muito macias.
Tinha sonhos, utopias e uma certa inquietação.
(...)
Só não tinha vida interior.
Tinha cultura, ciência e também algum ócio.
Tinha talento, técnica e imensas capacidades.
Tinha loucuras, desvairos e um colchão de fazer inveja.
Tinha certezas, ocorrências e alguns esquecimentos.
Tinha saudades, comprimidos e bilhetes de avião.
Tinha seguro, conta bancária e défice orçamental.
Tinha convites, solidariedade e vida social.
Tinha gases, flores de estufa e natação ao fim-de-semana.
Tinha disciplina, hábitos e a novela das nove.
Tinha psicanalista, aulas de yoga e discussões com o vizinho.
Tinha piano, melancolia e umas mãos muito macias.
Tinha sonhos, utopias e uma certa inquietação.
(...)
Só não tinha vida interior.
Sintoma (7): verdade e discurso da verdade
"Estas queijadas são diferentes de todas as outras...porque são verdadeiras!"
O Mistério da Camioneta Fantasma.

Um espetáculo a não perder, mesmo!
Até dia 13 de Fevereiro, Sextas e Sábados às 21h no Teatro "A Barraca".
Encenação de Hélder Costa.
Entrada custa 6,25€ para menores de 25 anos.
"Seja teatreiro, seja um tipo porreiro!".
quinta-feira, janeiro 12, 2006
O Mundo é um Café.
Anda tudo tão desaparecido e tão cheio de pressa que mal vejo quem queria ver e o que queria ver. Fica tudo por meias palavras: "não te quero deixar ir porque ainda não te disse tudo, não vai demorar nada, só mais um minuto e não quero mais nada". Estava tudo preparado, as palavras e as frases muito bem pensadas. Mas há um olhar ou uma palavra a mais, a palavra chave já não abre a porta que devia abrir. Só precisava de tempo para me sentar e (re)pensar tudo, dar um abraço.
É preciso parar para matar as saudades e olhar nos olhos de toda a gente, reecontrar toda a gente, fazer do mundo um café, não faz mal que seja tudo por um minuto, não fazia mal que todos os dias acontecessem num só, assim nada ficava por dizer ou por ouvir, começar amores e acabar amores num só dia, ver o nascer e o por do Sol, dar um pézinho de dança, fazer um sorriso ou então ter o mais dramático desgosto de amor. Não é pedir muito, afinal era só um dia, era só tirar um dia para tudo isto, depois podia tudo voltar ao normal e ficar tudo por dizer. Mas enquanto esse dia não vem, tudo fica por dizer entre esse dia e todos os outros, neste pequeno café.
É preciso parar para matar as saudades e olhar nos olhos de toda a gente, reecontrar toda a gente, fazer do mundo um café, não faz mal que seja tudo por um minuto, não fazia mal que todos os dias acontecessem num só, assim nada ficava por dizer ou por ouvir, começar amores e acabar amores num só dia, ver o nascer e o por do Sol, dar um pézinho de dança, fazer um sorriso ou então ter o mais dramático desgosto de amor. Não é pedir muito, afinal era só um dia, era só tirar um dia para tudo isto, depois podia tudo voltar ao normal e ficar tudo por dizer. Mas enquanto esse dia não vem, tudo fica por dizer entre esse dia e todos os outros, neste pequeno café.
quarta-feira, janeiro 11, 2006
domingo, janeiro 08, 2006
sexta-feira, janeiro 06, 2006
Poetas e Amantes (3)
Para ela, poetas apaixonados e amantes com pretensões poéticas são figuras tão desnecessárias como ridículas.
"Gosto de acreditar que os mais belos poemas de Amor se escrevem na sua total ausência.
E que os actos mais apaixonados são, evidentemente, desprovidos de qualquer romantismo poético."
"Gosto de acreditar que os mais belos poemas de Amor se escrevem na sua total ausência.
E que os actos mais apaixonados são, evidentemente, desprovidos de qualquer romantismo poético."
Poetas e Amantes (2)
Sentir-se exclusivamente objecto de desejo ou objecto de inspiração.
"Eu mesma me certifico que nenhum deles se queira evadir da sua sua própria condição."
"Eu mesma me certifico que nenhum deles se queira evadir da sua sua própria condição."
Poetas e Amantes
Aos poetas confiava as melhores palavras.
Aos amantes, os mais prolongados silêncios.
"Um poeta nunca é um bom amante.
De um amante nunca espero poesia."
Aos amantes, os mais prolongados silêncios.
"Um poeta nunca é um bom amante.
De um amante nunca espero poesia."
quinta-feira, janeiro 05, 2006
Memórias poéticas (6)
"Estou a ver as duas cabeças, de perfil, iluminadas pela luz de um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira: a cabeça de Jean-Marc, com a nuca num travesseiro; a cabeça de Chantal debruçada por cima dele a uns dez centímetros de distância.
Dizia ela: - Nunca mais tirarei os olhos de ti. Vou olhar para ti ininterruptamente.
E, depois de uma pausa: - Tenho medo quando o meu olho pisca. Medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana, outro homem.
Ele tentava erguer-se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Ela abanava a cabeça: - Não, só quero olhar para ti.
E depois: - Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite. Todas as noites."
Milan Kundera in A Identidade
Dizia ela: - Nunca mais tirarei os olhos de ti. Vou olhar para ti ininterruptamente.
E, depois de uma pausa: - Tenho medo quando o meu olho pisca. Medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana, outro homem.
Ele tentava erguer-se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Ela abanava a cabeça: - Não, só quero olhar para ti.
E depois: - Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite. Todas as noites."
Milan Kundera in A Identidade
Fragmentus Suburbia (8): direcções
Pequenas ruas, pequenos dormitórios com nome de lar, comboios a chegar e a partir e a linha sempre a crescer em direcções opostas.
No meio disto tudo: pessoas. Pessoas que caminham por entre o betão armado em caminhos de ferro, enquanto o revisor Abílio entra na última carruagem e pede o bilhete ao cego que pede uma pequena esmola, não tinha reparado na placa que dizia: "BEGING IS NOT ALLOWED!"
Pouco a pouco tudo se vai enterrando, lentamente, nos esgotos deste ventre que nos gerou...
quarta-feira, janeiro 04, 2006
segunda-feira, janeiro 02, 2006
Oh Darling.
Estica o teu dedo magro de unhas bem arranjadas na direcção do interruptor do televisor, liga-o e põe a correr um DVD de um filme qualquer 100% "Some Like It Hot". Encosta-te confortavelmente contra o sofá, relaxa os músculos e pega na boquilha para fumares o teu cigarro, não leves pipocas, essas são para a ralé e tu estás no mais alto estatuto social, estás naquela posição em que toda a gente despreza até o próprio desprezo. Não queres saber de homens com pouco charme ou dinheiro. Só queres saber de jantares à luz das velas com jazz em música de fundo a ligar a entrada e o prato principal, oh darling, o jazz liga tudo, o jazz finge tudo.
Ah darling, a mim não me consegues fingir, tira a máscara de estilo que te tapa o rosto e vem para uma dessas ruas a subir (ou a descer), uma daquelas ruas com a lua a iluminar a passagem onde sempre sonhei fazer a declaração de amor mais simples e desprovida de estilo. Mas vem rápido, sabes bem a falta de paciência que eu tenho para estes assuntos oficiais em que tudo tem de ficar perfeito como naqueles filmes antigos que tu vês, onde tudo fica dito. Oh darling, faz-me esse favor e poderemos viver relativamente felizes para sempre.
Ah darling, a mim não me consegues fingir, tira a máscara de estilo que te tapa o rosto e vem para uma dessas ruas a subir (ou a descer), uma daquelas ruas com a lua a iluminar a passagem onde sempre sonhei fazer a declaração de amor mais simples e desprovida de estilo. Mas vem rápido, sabes bem a falta de paciência que eu tenho para estes assuntos oficiais em que tudo tem de ficar perfeito como naqueles filmes antigos que tu vês, onde tudo fica dito. Oh darling, faz-me esse favor e poderemos viver relativamente felizes para sempre.
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