sábado, março 25, 2006

O Impertinente (15): a queda

Ele era
tão
tão
tão
que nem ele próprio aguentava.

terça-feira, março 21, 2006

"Era Uma Vez Um Dragão"


Texto: António Manuel Couto Viana
Encenação: José Henrique Neto
Interpretação: Daniel Figueiredo, João Vicente, José Redondo

Dias 25 e 26 de Março (Sábado e Domingo) pelas 16h30 no Espaço TapaFuros (Estúdio Doiséme) em Mem-Martins. Entrada Gratuita.

Um espetáculo a não perder... MESMO.

sexta-feira, março 17, 2006

"There is no such thing as monsters."


History of Violence, de David Cronenberg

quinta-feira, março 16, 2006

O Impertinente (14): fé e salvação

Ele não acreditava em super-heróis...

...até ao dia em que precisou de ser salvo.

quarta-feira, março 15, 2006

O Impertinente (13): fora do tempo

Não era particularmente azarado ou especialmente sortudo: apenas não reclamava os prémios a tempo.

terça-feira, março 14, 2006

Fragmentus Suburbia (10): pendularidade e desresponsabilização

Tens razão:

Dentro de um comboio suburbano, conceptualizar a urgência pode ser uma tarefa tão desgastante como inútil.

Memórias poéticas (7)

domingo, março 12, 2006

O Extravagante (2)

Ele tem vindo a desenvolver um fetiche pelos telefones das casas alheias, Ele acha que os telefones dizem muito sobre uma pessoa.
Quando Ele encontra um telefone igual ao que tem em casa, tem orgasmos múltiplos e rejubila de felicidade.
O que Ele precisa é de uma mulher ou então de revistas porno que o façam tornar num homem de barba rija.

O que Ele mais detesta são telefones sem fios.

sábado, março 11, 2006

O Impertinente (12): sexualidade, teorização e risco

Há quem transforme grandes edifícios teóricos em episódios sexuais arrojados.
E há quem converta a sexualidade episódica numa fabulação teórico-especulativa.

Ele usa perservativo.

O Impertinente (11): impostos e impostores

De minimalismo em minimalismo, acabaria por se tornar num minimalismo dele próprio.

Embora se tenha esforçado, ainda pertence ao mesmo escalão do IRS.

quinta-feira, março 09, 2006

O Personagem Dançante

Sentaste-me à tua frente. Vi que havia um copo de vinho abandonado em cima da mesa. Senti-me seduzida pela sua cor quente e picante. De súbito, profetizei uma noite de sabores apaladados. Entre nós havia uma mesa e na mesa havia uma vela semi queimada semi não queimada. No meio de nós havia as palavras. Aliás, foi por causa disso que estava ali, naquela noite. Por causa das PALAVRAS. Assim, leste versos de um qualquer livro de poesia, de um autor que não me lembro, de um autor que conheço, mas não me lembro, de um autor que desconhecia e continuo a não saber o nome, mas sei os seus versos e, isso, acho que faria o poeta feliz. Na tua poesia, não tua, mas tão tua, tão aguçada nos teus lábios, tão acutilante nas pausas líricas, perdi os sentidos, não encontrei sentido nos versos, não encontrei o meu sentido, mas ouvi o desejo de beleza dos poemas, ouvi a Vida primitiva dos ritmos da linguagem. E bastou-me. Entretanto, já nem ligava ao escorpião que vagueava sobre as minhas mãos pousadas na mesa. Acho que lhe quis dar um pouco de açucar, mas o inútil recusou...pena a tua...que não tens penas...pensei que o dito escorpião já me deveria ter atacado com o seu veneno para solucionar aquela noite, mas ele estava incansável nas suas danças exóticas com as suas patas estranhas...eventualmente, acabei por desprezá-lo e fiquei a ouvir poesia.

Democracia das Emoções (8): cumplicidade e comunicação

Ele encontrou a forma mais silenciosa de o dizer.
Ela descobriu a maneira menos barulhenta de o ouvir.

Durante o sono, todos somos cúmplices: das formas de o dizer e das maneiras de o ouvir.

Democracia das Emoções (7): a divisão do trabalho conjugal

Ainda que apenas ela tenha coragem para o dizer, só ele terá a cobardia de o conseguir ouvir.

Democracia das Emoções (6): mínimo denominador comum

Apesar de pertencerem a mundos diferentes...

...utilizam o mesmo ecoponto.

terça-feira, março 07, 2006

A Naifa (novo álbum).


"Antes de saíres para o trabalho, arrumas à pressa o dia anterior para debaixo da cama."
João Miguel Queirós

domingo, março 05, 2006

Sobre as memórias.

Ele só tinha uma esperança: não deixar morrer as memórias que tinha encontrado naquele lugar. Era crucial reavivar as memórias ou deixá-las de vez. Nesse lugar, onde a música faz de nostalgia, ele deixou cair as memórias da mesma maneira que as tinha agarrado: a dançar. Ele voltou ao lugar para ter a certeza de que aquilo tudo não passava de um sonho e por lá deixou as memórias boas e más. Ali, onde se faziam rodas, misturavam-se os pós magicos que as cinzas iam soltando.
Cinzas de mil memórias, à espera que a senhora da limpeza as leva-se como se fossem as cinzas de serpentinas caídas no chão.

E foi assim que ele se tornou Pós-Romântico.

sábado, março 04, 2006

Subsidiarismo (3)

Caso o Poeta se mostre relutante em abraçar o interesse público, eis a solução infalível: subsidiar a aquisição de telemóvel e/ou subsidiar os desencontros amorosos entre moços e moças disponíveis, interessantes, sem doenças e/ou deformidades manifestas e/ou latentes.

Subsidiarismo (2)

Tendo em conta o teor e a recorrência das confissões que Pedro Mexia recebe via sms, creio que já se justificava um subsídio ou, na melhor das hipóteses, um cargo na função pública.

Subsidiarismo

Quando «o mercado» não funciona, há que exaltar o subsidiarismo: eis uma fórmula que ganha eficácia à medida que o mercado vai falhando.

sexta-feira, março 03, 2006

Em Coimbra.

E está tudo dito...

quinta-feira, março 02, 2006

O Impertinente (10): alheamento

Ele disse: "A capacidade de ouvir conversas alheias é inversamente proporcional à capacidade de escutar o nosso próprio alheamento."

Quando olhou em redor, reparou que só havia uma cadeira desocupada: a dele.

O Impertinente (9): resumo

Ela disse: "Como vês, a minha vida não se resume só a ti."

Embora não o pudesse adivinhar, aquela frase resumia toda a sua vida sentimental.

terça-feira, fevereiro 28, 2006

Democracia das Emoções (5): recomeço

- Onde é que tinhamos ficado?
- No fim.
Depois tiraram as máscaras: um ao outro.

Democracia das Emoções (4): lágrimas

Ela disse: "Talvez seja da falta de lágrimas."

E foi então que as lágrimas secaram por completo.

domingo, fevereiro 26, 2006

sábado, fevereiro 25, 2006

Sintoma (12): pós-romântismo e memória poética

"Surpreende-me!": eis o slogan que ameaça tomar conta da vivência amorosa.
Houve um tempo em que nada disto fazia sentido: as promessas eram outras.
Talvez por isso o desencantamento pós-romântico não seja de fácil aceitação.

Há quem diga que o sonho de uma nova ordem amorosa está enterrado.
Enquanto permanecer a desordem real e/ou cognitiva apenas resta uma esperança.
Ironicamente, o pós-romântismo está condenado a revisitar as ruínas do romântismo.

E todos nós, sem excepção, estamos condenados a revisitar os lugares onde fomos felizes.

Sintoma (11): ditadura do humor e verdade amorosa

A prevalência do riso sobre o sorriso nas narrativas amorosas é um dado incontornável da vivência contemporânea.
A ditadura do humor institui um estado permanente de calamidade pós-romântica: os amantes esforçam-se arduamente na busca da verdade humorística.
Um esforço identitário e relacional que transforma radicalmente as regras do jogo: a verdade amorosa já não é o que era.

Fazer rir.
Ter piada.


Poderá o casal pós-romântico aspirar à auto-compreensão das suas convulsões emocionais?

Com uma pitada de humor, tudo é possível: até a mais desencantada das ilusões.

Sintoma (10): comédia romântica

O Amor está a tornar-se um lugar desnecessariamente complicado: entre a ditadura do humor e os disparates pós-românticos, todos somos estranhos e auto-suficientes.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Carta aberta a um Jornal, escrita por um simples que ate le umas coisas...

"Mandala dispensou dois manipuladores"

A principio, confesso, a confusao gerou-se porque li mal o titulo.

Para mim "Mandela dispensou dois manipuladores" soava-me bem, soava-me familiar, soava-me heroico. Mandela, aquela Pessoa de um outro planeta distante habitado por uma estranha especie de "Homens Justos", ou la como se chamam essas coisas, teria dispensado dois acessores manipuladores que o teriam querido afastar da sua luta pelo seu povo nos fins do Apartheid, com propostas aliciantes cheias de dinheiro Branco ou cargos na Onu. E este caso so agora se vinha a conhecer visto Mandela, fazendo jus aos seus super-poderes de "Homem-Bom", ou la como se chamam essas coisas, ter guardado segredo para salvaguardar as familias dos tristes manipuladores de um ataque em furia do seu povo,verdadeiro amante do Presidente Mandela. Incrivel! Que homem!
...
Mas depois continuei a ler a noticia. Afinal foram os manipuladores de marionetas (a recibos verdes) que foram dispensados por uma empresa de manipuladores de marionetas chamada Mand(a)la...
.
Fiquei triste, pois. Por um lado tiraram-me a alegria de ver uma noticia com um pouquinho da virtuosidade de outros tempos, de outros homens. Pensei, por um instante que "era agora, pode ser que inspire alguem!"
Por outro lado revelaram-me que ate os mestres da manipulacao (e seus assistentes) estao presos a recibos verdes. O que apenas revela que por detras de um manipulador ha ainda outro manipulador, este ultimo ainda mais chefe. E por detras deste ainda estara outro. E por ai adiante...
No fim quem se lixa e sempre a marioneta, que se nao esta caida no meio do desterro, esta estupidamente obediente a ditar as estupidezes dos manipuladores.
..
Depois de tanto estremuchamento logo de manha, senti-me tao Cunhal que nao consegui tomar o pequeno-almoco descansado. Tive de dizer a Madalena para me levar a sandes de salmao e trufas e para me trazer uma caneca de cevada e uma torradita. Passei a manha toda com ares de pobreza...
..
Caro Editor,
Peco, encarecidamente, que tenha mais cuidado na hora de publicar titulos que possam levar a segundas interpretacoes socialmente conscientes.
Nao cai nada bem, principalmente na hora do mata-bicho.

Cumprimentos Cordiais

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Deve ser mesmo da idade.

Engraçado como nos queremos sempre mais velhos e mais sábios do que realmente somos. Eu estava mesmo convencido de que sabia tudo sobre o Universo, no entanto sobre mim sabia muito pouco. Foi então que, um dia, ao expor o assunto me disseram que isso passava - "é da idade!" - diziam eles.
Pois eu estava mesmo convencido que não me havia de surpreender com mais nada a não ser comigo próprio, mas realmente há sempre alguém que aparece para nos surpreender e tornar esta vida bem mais interessante. Foi então que mandei tudo às ortigas e fui dormir uma sesta, à espera de acordar com um telefonema com uma declaração de amor.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Educação paralela

As matérias foram aprendidas ou despejadas para o fundo de pó das coisas inúteis. Os apontamentos, desorganizados e desapontados na arca, foram escritos sob o comando do chefe. Positivas que foram negativas...sempre negativas! No final, fiquei a saber nada...é certo, uns reis e duas guerras. A tarefa de me educar está caducada. Agora, só resta acarretar as consequências daquilo que sou, pois já fui educada: a música ensinou-me a escutar as pormenores e a dançar nos contratempos, as histórias e a poesia deram-me raízes de deusa e sonhos de criança, a serra soprou-me gritos de folhas e alquimizou-me em mistério, os loucos despiram-se da sua pele e gritaram-me a essência do imaginário profano e insano, um beijo encheu-me o coração e fez-me perceber as palavras amorosas abandonadas nos becos, as conversas aborreceram-me ou deram-me mundos fundos de selvas e savanas, o sábio olhou-me e não disse nada enquanto escrevia um novo livro. Jogo os meus cartões da sorte, com positivas ou negativas, sem números, cálculos e contas. Se me apetecer, desta vez, três mais três será sete.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mestres.

"Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta o universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravara letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."

José de Almada Negreiros

O Impertinente (8): o «caso» Luís Capucho

Quando o homem não faz a tese...

...a tese faz o homem.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Democracia das Emoções (3): jet lag

Ele chega antes dela partir.
Ela parte antes dele chegar.

Às vezes apanham o mesmo avião.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Desabafo politico-sentimental de um simples que ate le umas coisas.

Nos tempos que correm sinto-me, a maior parte das vezes, extremamente desvalorizado...

Ando desinvestido.
Evoluindo negativamente num cenario de crise, globalizada em cada pedaco de mim. Aos poucos, sinto que a minha alma deixa de ser competitiva, deixada perdida por tantos objectivos dispersos, abandonada algures entre a curva descendente da minha motivacao.
Sinto que me descapitalizo. O meu corpo, pouco produtivo, nao aguenta mais o dia-a-dia de competitividade entre a minha sede e o meu figado. Bebo mais do que aquilo que posso pagar e confesso que, nas noites em que me sinto mais so, antes de adormecer, penso acabar com tudo isto e apresentar falencia tecnica, moral e amorosa.
Nunca conseguirei, estou certo. Custa-me demais o esforco que tenho dispender para contornar a minha burocracia catolica.

Nos (poucos) momentos de empreendedorismo, publicito-me pelas ruas da amargura. Fico na espectativa de que alguem, especialmente bonito, me lance, (de caras, estilo ora toma!) uma OPA, de preferencia nao muito hostil.

Picardias!

Ele, no seu jeito altivo do costume, retirou o cachimbo da boca e proferiu o pensamento do dia, diante do ouvinte ausente:
"A constância só é boa para os ridículos"
.
..
Depois, deixou-se ficar...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Corações de papel.

Hoje, mais do que corações de papel a serem distribuidos na rua, havia flores e velhinhos convecidos de que tinham as namoradas mais bonitas do mundo.

Democracia das Emoções (2): entrar e sair

Ela limpa os pés antes de entrar.
Ele limpa os pés antes de sair.

Às vezes trocam.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Fechado para obras (2): imunidade e felicidade

A imunidade é um privilégio: "o privilégio de estar isento de algo a que os outros estão sujeitos".

Talvez a imunidade à felicidade seja o maior dos privilégios: estar sujeito à felicidade dos outros pode ser muito pouco satisfatório para a felicidade pessoal.

E talvez o maior dos privilégios seja, afinal de contas, apenas o melhor diagnóstico da infelicidade pessoal.

domingo, fevereiro 12, 2006

Diário de um simples que até lê umas coisas-1

"I believe that, through the act of living, the discovery of oneself is made concurrently with the discovery of world around us, wich can mould us. A balance must be established between these two worlds - the one inside us and the one outside us. As the result of a constant reciprocal process, both these worlds come to form a single one. And it is this world that we must communicate." Henri Cartier Bresson.

Querido Diário

A príncipio esta frase deixou-me estúpido. Não estava nada à espera, devo confessar, de ler uma coisa que me dissesse tanto, escrita por um fotógrafo. Não é de esperar que os fotógrafos escrevam coisas que nos toquem tanto. Ainda por cima uma frase saída da Enciclopédia das Filosofias Baratas. Não estava à espera mas tocou-me.

Há que respeitar o senhor. Há que sempre respeitar um senhor que tira fotografias como este senhor as tirava. São olhos de outro mundo, sensíveis a uma luz própria, que vêem um outro mundo (não obstante ser também o nosso) onde não nos quisemos dar ao luxo de entrar.

É o mundo da Magnum.

Por vezes gostava de ser aquele soldado espanhol morto na guerra civil. Só para poder entrar pela lente do Robert Capa, só para poder ser tornado em sais de prata, tornado contraste entre preto e branco, só.

Como isso já não é possível, espero ao menos ganhar o Euromilhões.

sábado, fevereiro 11, 2006

O TeleVisionário (5): quarto de hóspedes

Ela disse: "O mundo é um tê zero."

E depois foi para o quarto de hóspedes.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fragmentus Suburbia (10): atrasos.

Nem tudo está assim tão cornometrado e ligado como podemos pensar.
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".

Gramaticas

Os acentos a mim nao me comovem.

O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
.
Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

hUm

Ontem tinha tanta coisa para dizer. Ontem a noite tinha-me por inteiro na ponta da lingua!
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sintoma (9): autor e autoria

Pior do que ficar refém das próprias palavras:

...desconhecer o valor do seu resgate.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O Impertinente (7): desencontro

"Não saio daqui enquanto não escrever umas palavras."

Quando elas apareceram, ele já lá não estava.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Fragmentus Suburbia (9): prazo de validade

É preciso fugir.
É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.

No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Há um tempo para a fuga e um tempo para a permanência.
Tempos que se cruzam, sentimentos que coincidem.

A linha que vai dar à saída é a mesma que reencaminha para a entrada.
Por isso, é preciso saber esperar...
...enquanto é tempo.

Interrupção

- O seu bilhete, por favor?
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo por nossa conta.

Foto de Carlos Ramos

O frio do Inverno congelou as nossas lágrimas de saudades. O mar estava à nossa frente e o vento sussurrava poemas de amor. Ficámos a ver o Sol a desaparecer à medida que íamos fechando os olhos, à medida que o chão e o céu desapareciam, à medida que largávamos a tristeza que nos inundava o sangue. Havia qualquer coisa que nos percorria o corpo, qualquer coisa que ia das lágrimas à ponta dos pés.Pouco a pouco, o mundo ia-se tornando nosso, aquela paisagem ia-se tornando nossa. Os cabelos loiros de um pequeno príncipe apareceram no sítio onde o Sol se escondeu. Estava tudo por nossa conta e do pequeno príncipe... era só abrir as asas e voar.

terça-feira, janeiro 31, 2006

David Cronenberg na Cinemateca


Stereo: 5ª, 2 de Fevereiro, 19h30

Crimes of the Future
: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h

Shivers
: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30

Rabid
: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h

Naked Lunch
: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30

The Brood
: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30

Scanners
: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30

Videodrome
: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h

The Dead Zone
: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30

The Fly
: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h

Dead Ringers
: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30

M. Butterfly
: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h

Fast Company
: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30

Crash
: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h

eXistenZ
: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h

Spider
: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30

A History of Violence
(antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30

Sintoma (8): o trabalho poético de despoetização

Ela disse: "A vida não se confunde com a arte."

Em seguida, nasceram flores.

Ela debruçou-se para colher o poema.

domingo, janeiro 29, 2006

O Extravagante.

Num daqueles dias cheios de Sol, o Extravagante estava em casa farto de pensar de mais. Na verdade o facto do dia ser daqueles cheios de Sol é absurdamente insignificante para a narrativa deste pequeno excerto da vida quotidiana e "pacata" do Extravagante. Também não me interessa muito fazer a descrição fisica e psicológica do dito cujo, uma vez que assim posso tornar esta personagem imprevísivel e livre de qualquer responsabilidade moral.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.

sábado, janeiro 28, 2006

Educação televisiva (3)

A educação televisiva é feita de pequenas revelações.
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:

"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"

Educação televisiva (2)

A educação televisiva é feita de pequenos equívocos.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.

Educação televisiva (1)

A educação televisiva é feita de pequenas derrotas.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Músicas...

Preciso de silêncio total para escrever. Silêncio total, não! Preciso de ouvir os barulhos do vizinho tão entranhados em mim preciso de ouvir os carros que passam preciso de ouvir as conversas esvaziadas no espaço preciso de ouvir a trela irrequieta de cão ainda mais irrequieto preciso de ouvir o suspirar preciso de ouvir a gotejar preciso de ouvir o salto alto de coxa firme preciso de ouvir murmurar segredos preciso de ouvir o latejar de uma veia preciso de ouvir um cantarolar expoente de lirismo preciso de ouvir novos conselhos preciso de ouvir as pausas preciso de ouvir o coração derramando rios de emoções preciso de ouvir chuvas em transe preciso de ouvir chinquilhar o vidro e tremer a mesa preciso de ouvir o zumbido dos passos preciso de ouvir a máquina a funcionar. Enfim, preciso de silêncio total para escrever.



domingo, janeiro 22, 2006

O Impertinente (6): acto cívico

As votações democráticas prestam-se à encenação da vivência comunitária.
Veja-se, por exemplo, o caso de um rapaz profundamente imbuído do dever cívico, novamente lançado às feras em pleno recreio escolar.
De um momento para o outro vê-se cercado por figuras inesperadas que transportam consigo temíveis exigências performativas.
Após alguns instantes de mútua inquirição, compreendem que afinal vivem todos nas mesmas ruas, na mesma localidade, no mesmo microcosmos suburbano.
Gera-se uma familiaridade distanciada, impõe-se o menu do dia sem primar pela subtileza: "Então, votou bem?".

Entretanto, ela, do lado de lá, murmura-lhe um nome.
E sorri.

Mais tarde, em pleno acto cívico, a angústia eclode, imparável: "Como era mesmo o nome dela?".
Sofrendo pela ausência do substantivo próprio dela, mostrou-se incapaz de acertar no substantivo presidencial.
Quando se preparava para recolher os certificados de substância, a senhora da mesa pergunta-lhe: "Substantivo próprio, é o senhor?"
E foi então que ele se denunciou: "Não, sou o outro. Sou sempre o outro."

Conversas de café.

Eles os dois estavam sentados num café a conversar, falavam de tudo e mais alguma coisa, das coisas boas e das coisas más. Era uma conversa cheia de momentos de silêncio, durante os quais eles esperavam ouvir do outro aquilo que mais queriam ouvir.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Ler no nevoeiro

Perguntavas-me, ávido de novo conhecimento, se o nevoeiro, o mesmo de hoje, escondia segredos. Desconheço a minha resposta. Aliás, sou tão humano quanto tu para poder dizer-te algo de concreto e real a esse respeito. Sei que, enquanto a neblina passa, sinto-me a envelhecer nestas madeiras e que elas rangem as minhas feridas, mas vou sorrindo e sendo gentil. Sei que, enquanto a neblina passa, o mundo desafia-se a si próprio, faz paródias e tapa-se com um véu, um pano de fundo, onde navegam tempestades e recentes marinheiros que lutam pelas sobrevivências nas ondas terríficas.
Como a paisagem tem o nevoeiro, eu tenho o meu chapéu, a minha aba protectora de olhares furtivos e mastigadores de alma. No chapéu, enrolam-se os cabelos que desenham libélulas e anjos terriveis na minha cabeça e tecem camisolas de lã para aquecer os meus órgãos.
Uma vez, entrei nesse nevoeiro à procura de encantamentos e não de segredos. Nem me cheguei a perder, pois nunca soube onde estava. Lá, esbarrei contra uma máquina, o meu mecanismo desfiado em tiras de papel com poesia. Também, vi ninfas a amarem-se e a confundirem-se no branco evaporado da neblina.
Continuo sem saber a resposta à tua pergunta...segredos? Fiquei a saber um bocadinho mais, mas este será o meu segredo.

Uma questão de sorte.


Match Point, de Woody Allen

Poesia sem verso(s).

Porque por mais que nos queiramos esquecer da poesia, ela aparece sem avisar, não chega a deixar saudade.
Porque a poesia já não se faz em verso, não vou perder mais tempo a tentar descrevê-la.

domingo, janeiro 15, 2006

O Impertinente (5): vida interior

Tinha família, amigos, companheiro e trabalho bem remunerado.
Tinha cultura, ciência e também algum ócio.
Tinha talento, técnica e imensas capacidades.
Tinha loucuras, desvairos e um colchão de fazer inveja.
Tinha certezas, ocorrências e alguns esquecimentos.
Tinha saudades, comprimidos e bilhetes de avião.
Tinha seguro, conta bancária e défice orçamental.
Tinha convites, solidariedade e vida social.
Tinha gases, flores de estufa e natação ao fim-de-semana.
Tinha disciplina, hábitos e a novela das nove.
Tinha psicanalista, aulas de yoga e discussões com o vizinho.
Tinha piano, melancolia e umas mãos muito macias.
Tinha sonhos, utopias e uma certa inquietação.

(...)

Só não tinha vida interior.

Sintoma (7): verdade e discurso da verdade

"Estas queijadas são diferentes de todas as outras...porque são verdadeiras!"

O Mistério da Camioneta Fantasma.


Um espetáculo a não perder, mesmo!
Até dia 13 de Fevereiro, Sextas e Sábados às 21h no Teatro "A Barraca".
Encenação de Hélder Costa.
Entrada custa 6,25€ para menores de 25 anos.
"Seja teatreiro, seja um tipo porreiro!".

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Mundo é um Café.

Anda tudo tão desaparecido e tão cheio de pressa que mal vejo quem queria ver e o que queria ver. Fica tudo por meias palavras: "não te quero deixar ir porque ainda não te disse tudo, não vai demorar nada, só mais um minuto e não quero mais nada". Estava tudo preparado, as palavras e as frases muito bem pensadas. Mas há um olhar ou uma palavra a mais, a palavra chave já não abre a porta que devia abrir. Só precisava de tempo para me sentar e (re)pensar tudo, dar um abraço.
É preciso parar para matar as saudades e olhar nos olhos de toda a gente, reecontrar toda a gente, fazer do mundo um café, não faz mal que seja tudo por um minuto, não fazia mal que todos os dias acontecessem num só, assim nada ficava por dizer ou por ouvir, começar amores e acabar amores num só dia, ver o nascer e o por do Sol, dar um pézinho de dança, fazer um sorriso ou então ter o mais dramático desgosto de amor. Não é pedir muito, afinal era só um dia, era só tirar um dia para tudo isto, depois podia tudo voltar ao normal e ficar tudo por dizer. Mas enquanto esse dia não vem, tudo fica por dizer entre esse dia e todos os outros, neste pequeno café.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sintoma (6): a condição feminina


10, de Abbas Kiarostami

domingo, janeiro 08, 2006

Corpse Bride

"You may kiss the bride!"
Amor de vida e morte.
Um belo filme para ver à Tim Burton.


sexta-feira, janeiro 06, 2006

Poetas e Amantes (3)

Para ela, poetas apaixonados e amantes com pretensões poéticas são figuras tão desnecessárias como ridículas.

"Gosto de acreditar que os mais belos poemas de Amor se escrevem na sua total ausência.
E que os actos mais apaixonados são, evidentemente, desprovidos de qualquer romantismo poético."

Poetas e Amantes (2)

Sentir-se exclusivamente objecto de desejo ou objecto de inspiração.

"Eu mesma me certifico que nenhum deles se queira evadir da sua sua própria condição."

Poetas e Amantes

Aos poetas confiava as melhores palavras.
Aos amantes, os mais prolongados silêncios.

"Um poeta nunca é um bom amante.
De um amante nunca espero poesia."

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Memórias poéticas (6)

"Estou a ver as duas cabeças, de perfil, iluminadas pela luz de um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira: a cabeça de Jean-Marc, com a nuca num travesseiro; a cabeça de Chantal debruçada por cima dele a uns dez centímetros de distância.
Dizia ela: - Nunca mais tirarei os olhos de ti. Vou olhar para ti ininterruptamente.
E, depois de uma pausa: - Tenho medo quando o meu olho pisca. Medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana, outro homem.
Ele tentava erguer-se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Ela abanava a cabeça: - Não, só quero olhar para ti.
E depois: - Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite. Todas as noites."


Milan Kundera in A Identidade

Fragmentus Suburbia (8): direcções

Foto de Vicente

Pequenas ruas, pequenos dormitórios com nome de lar, comboios a chegar e a partir e a linha sempre a crescer em direcções opostas.
No meio disto tudo: pessoas. Pessoas que caminham por entre o betão armado em caminhos de ferro, enquanto o revisor Abílio entra na última carruagem e pede o bilhete ao cego que pede uma pequena esmola, não tinha reparado na placa que dizia: "BEGING IS NOT ALLOWED!"
Pouco a pouco tudo se vai enterrando, lentamente, nos esgotos deste ventre que nos gerou...

Estado em que se encontra este blogger

quarta-feira, janeiro 04, 2006

"Faz-me um filho."


Odete de João Pedro Rodrigues

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Oh Darling.

Estica o teu dedo magro de unhas bem arranjadas na direcção do interruptor do televisor, liga-o e põe a correr um DVD de um filme qualquer 100% "Some Like It Hot". Encosta-te confortavelmente contra o sofá, relaxa os músculos e pega na boquilha para fumares o teu cigarro, não leves pipocas, essas são para a ralé e tu estás no mais alto estatuto social, estás naquela posição em que toda a gente despreza até o próprio desprezo. Não queres saber de homens com pouco charme ou dinheiro. Só queres saber de jantares à luz das velas com jazz em música de fundo a ligar a entrada e o prato principal, oh darling, o jazz liga tudo, o jazz finge tudo.
Ah darling, a mim não me consegues fingir, tira a máscara de estilo que te tapa o rosto e vem para uma dessas ruas a subir (ou a descer), uma daquelas ruas com a lua a iluminar a passagem onde sempre sonhei fazer a declaração de amor mais simples e desprovida de estilo. Mas vem rápido, sabes bem a falta de paciência que eu tenho para estes assuntos oficiais em que tudo tem de ficar perfeito como naqueles filmes antigos que tu vês, onde tudo fica dito. Oh darling, faz-me esse favor e poderemos viver relativamente felizes para sempre.

sábado, dezembro 31, 2005

Das nossas palavras

Estas são, ainda, as minhas palavras.
Ontem tentaram convencer-me que já não eram minhas.
Chegará o tempo em que terei de renunciar às minhas palavras.

Entretanto, espero ansiosamente pelas tuas palavras.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Das sínteses originais (4): aristocrata

É muito instrutivo observarmos a entrada de um criado de mesa na sala de jantar do hotel. Quando transpõe a porta da sala de jantar, opera-se uma mudança súbita na sua pessoa. A posição dos ombros altera-se; todas as inferioridades e pressas e cóleras desaparecem num instante. E ele desliza pelo tapete, numa solene atitude sacerdotal. Lembro-me do nosso maître d'hôtel assistente, um italiano temperamental, parando à porta da sala de jantar para se dirigir a um aprendiz que partira uma garrafa de vinho. Erguendo o punho por cima da cabeça, punha-se a vociferar (felizmente a porta era mais ou menos à prova de som).
"Tu me fais - E atreves-te a dizeres-te criado de mesa, tu, meu filho da mãe? Tu, criado de mesa! Não tens categoria nem para varrer o chão da casa de putas da tua mãe. Maquereau!"
Por fim, quando as palavras lhe faltaram, virou-se para a porta; e, enquanto a abria, soltou ainda um último insulto como o Cavaleiro do Oeste no Tom Jones.
A seguir, entrou na sala de jantar e singrou através dela com a travessa na mão, com uma elegância de cisne. Dez segundos mais tarde, inclinava-se cheio de reverência diante de um cliente. E não podíamos deixar de pensar ao vê-lo inclinar-se e sorrir, com o seu sorriso de criado de mesa experimentado, que o cliente deveria, sem dúvida, sentir-se envergonhado ao ser servido por tão requintado aristocrata.


Down and Out in Paris and London (1951) de George Orwell

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

Das sínteses originais (3): intimidade

Os moradores apercebem-se de numerosos barulhos da vizinhança, que vão dos clamores habituais das festas de aniversário aos sons das práticas de rotina qualificadas. Os nossos interlocutores mencionam, por exemplo, o som dos aparelhos de rádio, o choro nocturno dos bebés, as tosses, os sapatos que se tiram ao deitar, as crianças que correm nas escadas ou nos quartos, as teclas do piano e os risos ou conversas em voz mais alta. No quarto do casal, os ruídos que chegam de casa do vizinho podem ser por vezes chocantes: "Até os ouvimos urinar no bacio; é insuportável. Terrível"; ou inquietantes: "Ouço-os quando brigam na cama. Uma pessoa pode estar com vontade de ler, ou outra de dormir. É muito incómodo ouvir estes barulhos quando se está deitado, por isso mudei a cama de sítio"... "Gosto de ler na cama e tenho o ouvido apurado, por isso incomoda-me ouvi-los falar"; ou um tanto inibidor: "Às vezes ouvimo-los dizer coisas do seu foro íntimo, como acontece, por exemplo, quando o marido diz à mulher que ela está com os pés frios. E isso faz-nos sentir que temos de dizer em segredo tudo o que for um pouco mais íntimo."


Living in Towns (1953) de Leo Kuper e outros

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Considerações de um homem sobre um sítio.

A Joana escreveu este texto para eu vos mostrar aqui. Qualquer que seja o seu pedido eu o converterei para sempre numa ordem. Oh rainha das unhas roídas! Estás mais que pronta para conquistar a Pena e o Mundo

Foto by Néni

Estimados ouvintes!

Sinto uma necessidade de me contemplar perante vós, pois já não tenho à vontade com a minha intimidade deformada por tantas vírgulas. Como tal, vou ser imprudente para não ser delicado e censurarei qualquer devaneio poético, rimado ou até, ligeiramente, pintor que a minha mente possa produzir.
Pressinto que qualquer coisa quer explodir dentro de mim. Talvez o coração ou um pulmão. Sim! Terei de cuspir os meus pulmões para não sufocar nos meus pensamentos. Deixá-los-ei sobre a mesa e regá-los-ei para não murcharem. Dar-lhes-ei uma vida independente e uma planta vermelha para enfeitar o seu corpo líquido. Porém, não pensais que sou um militante de pieguices compradas ou algum hipócrita insensível. Digo-vos que até sou sensível, por vezes, ridiculamente sensível. Também fui canalha e fraco ao ponto de chorar sobre os peitos de muitas mulheres. Vede como sou fraco! Por favor, aqui ao lado vai decorrer uma peça de teatro. Ide vê-la! Caríssimos espectadores, irá haver ficção, romance, personagens ideais. Ficção! Enquanto que, aqui, só posso dar-vos a minha bruta realidade...como me cansa a realidade.
De todas as viagens que fiz tantos dias, todos os dias, sempre ficou um ligeiro drama a abafar-me. Como daquela vez em que afoguei os meus canhões nas ruas onde sempre vivi. Decidi procurar um pouco de mim naqueles locais, no seu esplendor efémero e tranquilo de fim de tarde. Acho que me angustiei ainda mais; apaguei todos os meus murais projectados nos prédios e deixei-me a desesperar nalgumas escadas, esquecido de mim no chão. Aqui, estão sempre a ocorrer emergências. Será que vivemos em guerra com o sítio ou somos exército verde em marcha pelo bem?
Já não suporto a negação, aguda e afiada, deste sítio. A negação em tudo, um não mais que não, um não que enche-me a cabeça e explode em cem imagens distorcidas e inexprimíveis, levadas na euforia da desilusão. Aqui, ao inspirar, sinto o mundo a morrer na minha garganta muda perfazendo uma grande tragédia silenciosa e ficando tudo embargado nestas minhas palavras.
Até à próxima, atenciosa plateia.





Joana Guerra

terça-feira, dezembro 27, 2005

Da Suburbia à Farinha Amparo.

Quero ser rápido, o cenário não pode demorar a ser montado, pronto lá está ele: estou numa rua da nossa suburbia, está um dia cheio de luz que contrasta com o cizento da igreja. Desço a rua e sou acediado verbalmente por um homem que, ao que parece, procurava alguém que quisesse ter uma experiência nova no que toca a relações sexuais. Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
Agora, dentro do comboio, um homem de moletas pede-me desculpa por me estar a incomodar, pedindo ao mesmo tempo uma moedinha para poder comer qualquer coisa. Chego ao meu destino para um almoço num centro comercial, num daqueles restaurantes de fast food com uma bela companhia e encontros inesperados. Saímos dalí para um sítio onde se possa beber um chá ou um café quente, alí discutimos a revolta dos pastéis de nata e as piadas recorrentes da Farinha Amparo (pobre farinha que com tão pouca dignidade é referenciada nos nossos dias), damos o nosso show, e a Farinha Amparo sempre a bombar na conversa. Bem dita Farinha Amparo que tantas conversas desbloqueaste, tantas cartas de condução e outros brindes tu nos ofereceste. Amassado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade assim no fogão como no forno a lenha. Atchim.

O Impertinente (4): abundância

Acontecia-lhe, frequentemente, não ter palavras para descrever sentimentos.

Hoje
, faltando-lhe sentimentos, abundam as palavras.

domingo, dezembro 25, 2005

Das sínteses originais (2): estigma

"Dear Miss Lonelyhearts,

I am sixteen years old now and I dont know what to do and would appreciate it if you could tell me what to do. When I was a little girl it was not so bad because I got used to the kids on the block makeing fun of me, but now I would like to have boy friends like the other girls and go out on Saturday nites, but no boy will take me because I was born without a nose - although I am a good dancer and have a nice shape and my father buys me pretty clothes.
I sit and look at myself all day and cry. I have a big hole in the middle of my face that scares people even myself so I cant blame the boys for not wanting to take me out. My mother loves me, but she crys terrible when she looks at me.
What did I do to deserve such a terrible bad fate? Even if I did some bad things I didn't do any before I was a year old and I was born this way. I asked Papa and he says he doesn't know, but that maybe I did something in the other world before I was born or that maybe I was being punished for his sins. I dont believe that because he is a very nice man. Ought I commit suicide?

Sincerely yours,

Desperate"


Miss Lonelyhearts
(1962) de Nathanael West

citação encontrada em Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity de Erving Goffman

terça-feira, dezembro 20, 2005

Para quem gosta de Jazz e Poesia.


Compilação de poemas com o ritmo sincopado do jazz: do Almada ao Vinicius de Morais.
"Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse jazz!"
E. M. de Melo e Castro.

domingo, dezembro 18, 2005

Ópio.

Estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café sujo. Ele observa tudo o que se passa à sua volta, ao seu lado está um velho de barbas que esmaga um cigarro, já apagado, contra o tampo da mesa mesmo ao lado do cinzeiro cheio de outras tantas beatas, é um velho sem importância que espera que lhe caia o último dente que lhe resta nas gengivas. Na mesa em frente do Homem do Chapéu de Côco estava uma prostituta pouco elegante a fumar um cigarro pela sua boquilha de estimação. No lado oposto ao do velho estava um casal aos beijos em cima da mesa. No piano, o pianista tinha uma falta de ritmo angustiante e o piano tinha uma tecla que não tocava. O quadro estava pintado, a cena convidava a uma loucura, o suicídio quem sabe.
O Homem do Chapéu de Côco pega então no pó que lhe tinham vendido no beco antes de chegar ao café e expira-o da forma que lhe tinham aconselhado. Os seus olhos começaram a arder e antes que eles fechassem ele teve a visão mais romântica de toda a sua vida, passou uma vida inteira para ter aquela visão e foi mesmo nesse momento entre o ardor e o fechar dos olhos que ele se conseguiu declarar, mesmo antes de ser nada. Agora, sem sequer ver a luz ao fundo do túnel, ele não se sentia, não havia nada para recordar, nem aquele café que foi a sua última morada. Afinal, estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café imundo até que alguém, distraído, lhe pedisse bruscamente para se levantar.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

"Lost in Translation" (parte 2): o regresso a casa


Broken Flowers de Jim Jarmusch

domingo, dezembro 04, 2005

O mundo por umas mãos.


Ele saiu à rua para procurar umas mãos. Passava pouco da hora do jantar e ele só queria encontrar as mãos que tinha perdido para poder pintar o seu quadro. Afinal, ele era pintor e dava o mundo por umas mãos.

domingo, novembro 27, 2005

Sintoma (5): o pequeno harmónio


Punch Drunk Love de Paul Thomas Anderson

sexta-feira, novembro 25, 2005

Memórias poéticas (5)

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

quarta-feira, novembro 23, 2005

Das despedidas

Tudo tem um timing poético: até as despedidas.
Os mais belos poemas são aqueles que nunca quisemos escrever:
não por falta de talento (quem não se julga competente para amar?);
talvez por falta de coragem (quem ousa enfrentar a tragicidade amorosa?).
A grandeza das despedidas é o maior dos poemas.
Por isso, amanhã quero ser o melhor dos poetas.

sexta-feira, novembro 18, 2005

Sintoma (4): da (im)possibilidade comunicativa


3 Iron de Kim Ki-Duk

quarta-feira, novembro 16, 2005

Personagens inventadas.

Mr. Alzheimer sai à rua todas as manhãs para ir trabalhar, apanha o comboio até a estação sem nome. Até chegar ao trabalho ainda anda um bom bocado. Ele faz questão de passar pelos mesmos sítios todos os dias. À saída da estação de comboio está o jovem, desiludido, encostado a uma esquina à espera de alguém que não quer aparecer. Na praça mais a diante, em cima de um banco, está o revolucionário a espalhar os bilhetes de páginas em branco, ali mesmo ao lado está o circo do palhaço e da trapezista. O cabaret que funcionou durante a noite está ainda a por arrumar, já só falta sair o pianista que adormeceu em cima do piano depois das três garrafas de absinto, o programa da noite seguinte estava a ser mudado. Por último, ele passa pelo salão de baile abandonado de Madame Gabrielle, que agora é habitado por sem-abrigos.
Mr. Alzheimer trabalha na loja de brinquedos da cidade, é ele que faz os cavalos de madeira para os miudos brincarem. Ele lembra-se de cada expressão, de cada imagem que todos os dias o invadem. Ele fez o palhaço e trapezista em madeira e uma senhora com um ar mais ou menos francês que podia muito bem ser Madame Gabrielle.
No fim do dia, todos estão a descansar para iniciar a noite e é nesse momento que Mr. Alzheimer começa a divagar pelo mundo dos seus brinquedos e das personagens inventadas.

domingo, novembro 13, 2005

Fragmentus Suburbia (7): o bilhete

A vida sobre carris.
A morte em carrinhas funerárias.

A primeira é levada.
A segunda, carregada.
«E ele ainda pergunta se tenho bilhete

Fragmentus Suburbia (6): oportunidade

Ficar a ver comboios passar.
Uma vez lá dentro, ficar a ver passar a oportunidade de o ter perdido.
Ficar a ver-se passar.
Ficar a vê-la passar.
Perder a oportunidade perdida.
Perder-se.
Perdê-la (?)

segunda-feira, novembro 07, 2005

Lisbon revisited.


Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) –
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhe a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja de companhia!

Ó céu – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflecte!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo…
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Álvaro de Campos

O Impertinente (3): o «caso» Nuno Ribeiro

Desde que tinha Ontologia ninguém lhe punha a vista em cima.

sábado, novembro 05, 2005

Das sínteses originais: a morte do «artista»

"Sabendo que os espectadores são capazes de ficar com uma má impressão a seu respeito, o indivíduo poderá sentir vergonha de um qualquer acto bem intencionado e honesto só pelo facto de o contexto do seu desempenho dar lugar a falsas impressões, que são más. Ao sentir essa vergonha injustificada, sentirá talvez que os seus sentimentos estão a ser observados; sentindo-se assim sob observação, poderá sentir que a sua aparência confirma as falsas conclusões formadas a seu respeito. Poderá então agravar a precaridade da sua posição empenhando-se em manobras defensivas, como as que empregaria caso fosse realmente culpado. Assim é possível que cada um de nós se transforme para si próprio, por momentos, na pior pessoa que podemos imaginar que os outros sejam capazes de imaginar que somos."
Erving Goffman
in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

sexta-feira, novembro 04, 2005

Fechado para obras: tempo e percepção

Ontem foi como se tivesse sido.
Amanhã será como se pudesse haver (?)

te espero.

terça-feira, novembro 01, 2005

Nostálgicos sem cura.

A noite nem prometia muito, afinal era só um concerto de um gajo que eu já tinha visto, mas ele continuava com tudo o que eu tinha gostado na primeira vez que o vi. Foi uma noite inteira de recordações, de memórias sem retorno. Mergulhamos pela noite, começando pelo subtil Antony e acabando em completa Al-gazarra por aquele Irish Pub de outras tantas recordações. Tudo demasiado depressa, como devia de ser sempre para não doer. A noite, a noite foi dominada pelos nostálgicos sem cura.