quinta-feira, fevereiro 18, 2010

O que me chateia nas mortes é perceber que vou ter menos uma pessoa que viverá mais do que eu. Para me reconfortarem, as pessoas dizem-me que ficam as boas memórias. Agora eu pergunto: o que é que vou fazer com essas memórias?

As memórias não atenuam o sofrimento caseiro, aquele que entala as entranhas e que nos dá um nó na respiração.

quinta-feira, fevereiro 04, 2010

Sem causa.

O Jorge ia a passar e viu uma mota do outro lado do passeio. A primeira ideia que tem é a de roubar a mota, é a primeira e a única ideia. Ele rouba a mota e vai dar uma volta pela Amadora, mas a Amadora está diferente de fora continua o mesmo amontoado de prédios, por dentro parece uma vila rústica do interior, com pracetas e coretos. Ele anda pela vilazinha cheio de medo que alguém o apanhe com a mota roubada. Anoitece e ele ainda está às voltas com a mota até que chega a um beco onde se encontram carros estacionados, estaciona aí a mota.
No outro dia de manhã as ruas estão agitadas, de um lado manifestações, do outro polícia de choque pronta para avançar para cima da multidão. Jorge passa pelo meio, não está em nenhum dos lados. Olha fixamente um polícia que também olha nos olhos, Jorge tem a certeza de que aquele polícia sabe que foi ele que roubou a mota no dia anterior, mas o polícia desvia o olhar e comenta com outro: “hoje estamos a ser muito ameaçados.”. Jorge fica mais aliviado e continua andar, a Amadora está outra vez a parecer-se com uma vila rústica e vê muitas caras conhecidas que o ignoram. Ele tem dois guarda-chuvas e alguém o puxa pelo que tem na mão direita. A pessoa que o puxou é uma professora da sua escola com quem nunca tinha privado. Falam-se como se conhecessem desde sempre. Falam da revolução da qual Jorge não sabia nada ainda à um minuto, mas naquele momento consegue discorrer um discurso sobre a revolução. A professora ri-se e diz-lhe que ele é um rebelde sem causa. Jorge fica perplexo com ele mesmo a professora olha-o com um ar constrangedor. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Ela diz-lhe que para a próxima não é preciso roubar a mota.

domingo, janeiro 24, 2010

cinzento.

Às duas da tarde de domingo levantei-me. Tomei banho numa água amarela porque tinha faltado a água durante a noite e o gás não funcionava: água fria. Vesti-me, pus os cremes e sai de casa para ir almoçar ao café que ficava ainda um bocado longe de casa.

A caminho do café passei pela estação que estava deserta, não se via ninguém. A atmosfera estava muito cinzenta. O cinzento já é uma cor deslavada, mas este cinzento era mais deslavado do que os outros cinzentos. A bilheteira tinha as persianas corridas. Havia uma poça no chão que reflectia o céu cinzento, mas houve qualquer coisa vermelha que passou repentinamente pelo reflexo e eu nem vi o que era. Continuei o meu percurso agora subia a rua principal que segue até a rotunda. Passei por um jardim com dois bancos vazios e uma menina de saia e colants, tinha uma casaco azul e estava a rir-se para mim. Deu-me vontade de chorar, mas consegui conter as lágrimas. Subi mais um bocado a rua, cheguei ao café, peguei num tabuleiro. A rapariga que me atendeu estava vestida da mesma forma que a menina do jardim e o sorriso tinha envelhecido.

sábado, dezembro 05, 2009

O Grito

No século XVIII o Grito era um assassino. Um dia ele matou a avó e a mãe, só não matou o pai e o irmão porque eles tinham morrido na guerra. O Grito não percebia porque é que matava tanta gente, no fundo ele só espetava facas nos corpos das pessoas e isso deixava-o transtornado: “uma faca no corpo será razão para as pessoas morrerem?” pensava ele.

Como estava a ficar bastante aborrecido com esta história, Grito foi entregar-se as autoridades, dizendo que queria ser preso. Grito é então encarcerado na prisão mais segura da cidade. Não tinha ninguém com quem dividir a cela, todos os dias a mesma comida.

Agora o Grito queria arranjar maneira de se safar da prisão, mas não conseguia arranjar maneira, até que se lembrou de uma ideia que lhe parecia brilhante: espetar uma faca no corpo e fingir-se de morto. Então, um dia ele guardou as facas do almoço e do jantar, espetou a primeira faca na perna, mas achou um disparate morrer por causa de uma faca espetada na perna. Pensou noutra alternativa: espetar uma faca no coração, a partir daqui, ele achou que duas facas espetadas no corpo eram uma razão bastante convincente para alguém morrer.
O Grito gritou. Fim da história e o Grito morreu até hoje.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Manifesto Subúrbia

Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
No comboio encontro um cego de muletas que me pede uma esmola: “peço desculpa por estar a incomodá-lo, mas o senhor tem uma moeda que me dê para comprar o meu almoço?”
Eu digo-lhe que não tenho dinheiro, que a vida esta difícil para todos e que ele vá chatear outro…
Vou para o centro, as pessoas querem sempre ir para o centro. Porque é que as pessoas querem sempre ir para o centro? No centro sinto que não pertenço a lado nenhum.
No fim do dia, na estação terminal do centro, o frio gela-me os ossos e eu entro no comboio. O comboio chega ao subúrbio. Saio do comboio e oiço o comboio a partir como uma veia que leva o sangue a todas as casas destes pulmões podres. Subo a rua que dava para minha casa. Faz muito tempo que eu não pensava nisto tudo.
Foi no meio destas recordações, destas entranhas que o tempo parou. Volto a olhar para o céu e recordo o tempo em que eu tinha vontade, o tempo em que eu era espontâneo, o tempo em que tinha convicções, o tempo em que era virgem, o tempo em que eu era um mensageiro do belo em terra de feios.

sábado, novembro 22, 2008

fácil

Hoje descobri que um sms pode estragar um dia inteiro de expectativa.
Hoje descobri que com um telemóvel é muito mais fácil fugir.

quarta-feira, novembro 19, 2008

fim do mundo (pelo menos para ele).

O cenário desta história é o mais quotidiano possivel: corredor em hora de ponta.
Quando eles se cruzaram, ela sorrio para ele. Ele ficou apaixonado. Ele não sabia que o sorriso era venenoso. Ele bebeu o sorriso de uma só vez. Foi o fim... do mundo.

domingo, outubro 19, 2008

ilhas.

Podia falar-vos sobre a minha vida, mas isso era muito enfadonho, não era?
Obrigado à academia.

sábado, setembro 27, 2008

!?

Existem aqueles que vivem nas alturas, existem aqueles que vão até às alturas e existem aqueles que ficam a meio.

quinta-feira, setembro 25, 2008

Necessidades (3)

Preciso de olhar para a direita e dizer: já sei o teu nome.

quarta-feira, setembro 03, 2008

dorme.

Regressamos ao dormitório da vida. Os raios de sol são escassos mas fortes. Ficamos embriagados pela sonolência, e o resto são ilusões, são sonhos. Gritamos que esta vida não chega e dormimos sobres os nossos próprios cadáveres.
S.O.S suburbia. Alguém à escuta?

sábado, agosto 23, 2008

Necessidades (2)

Preciso de estar em estado de graça. (é pedir muito?)

sexta-feira, agosto 22, 2008

Necessidades (1)

Preciso de uma piscina para mergulhar de cabeça.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Ao império dos corpos queimados.

Um corpo dividido em três partes. Um corpo de ódio, amor e solidão. Corpo de rei e de escravo.
O corpo queria escolher ser sempre rei, mas o escravo também é rei.
A guerra dos reis que queriam escravizar os outros reis começou, e os corpos ainda não eram nascidos.
Queriam ser absolutos, porque não sabiam lidar com o escravo que existia dentro de cada um.
E assim nasceu Hitler... sózinho com o seu escravo, num campo de concentração a fumar cachimbos de corpos queimados.

domingo, julho 06, 2008

Folia - Tu és Isso



Texto: Paulo Borges; Encenação/Direcção Artística: Rui MárioDramaturgia: Paulo Borges, Teatro TapaFuros; Direcção Musical/ Arranjos: Pedro Hilário; Direcção de Actores: Samuel Saraiva; Cenografia/ Adereços: Carlos Ramos; Vídeo: Samuel Saraiva; Desenho de Luz: José Miguel Antunes, Mário Trigo; Design / Web: Pedro Marques; Fotografia: Sérgio Santos Figurinos: Elisabete Figueira, Pedro Marques; Interpretação: Anabela Faustino, Filipa Duarte, João Rafael, José Redondo, Mário Trigo, Nuno Pinheiro, Paulo Cintrão, Rute Lizardo, Samuel Saraiva; Figuração/Teatro Reticências: Ana Rita Neves, Ana Trindade, Bárbara Carlos, Carolina Salles, Catarina Salgueiro, Catarina Trindade, David Severino, Inês Amaro, Marco Silvestre, Mário Portelinha, Nidia Roque, Pedro Manaças; Músicos: Alexandre Leitão, António Neves, Jorge Domingues, Miguel Costa; Montagem Vídeo/Soldado: Rui Zilhão; Vozes Off: Adele Sidaru, Jorge Telles de Menezes, Inês Figueira, Natacha Quaresma, Paulo Borges, Ricardo Ventura, Rui Lopo, Rui Mário, Vanessa Muscolino; Costureiras: Dília Queiroz, Adélia Canelas; Luminotécnia: Fábio Ventura, Gonçalo Africano; Apoio à Montagem: Emanuel Ventura, Marco Silvestre, Pedro Manaças; Limpeza: D. Lizete; Direcção de Cena: Sónia Tobias; Frente de Sala: Filipa Tobias, Tânia Tobias; Produção Executiva: Catia Martin; Direcção de Produção: Marco Martin
3 de Julho a 14 de Setembro 5ª a Sábado - 22h Domingos - 20h
Quinta da Regaleira - Sintra

sábado, junho 21, 2008

por incrível que pareça...

Os portões majestosos guardavam os segredos que conhecia, mas não me lembrava.
Fez-se a luz da saudade.

domingo, abril 20, 2008

O Extravagante (7) - choque

Ela: Já não se pode confiar em ninguém neste mundo!
Extravagante: Olhe, mude de mundo...

quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Os Olhos do MUndo e a Fortuna


SINOPSE
Fortune and Men’s Eyes (título retirado do Soneto XXIX de Shakespeare) é uma peça crua e amarga sobre a degradação e a brutalidade física e moral num reformatório masculino. O protagonista é SMITTY, que cumpre uma pena de seis meses por um delito menor. A peça foca a sua transformação de um ser humano essencialmente não criminoso e até um pouco naïf num prisioneiro empedernido, que acaba por se tornar ainda mais insensível e cínico do que os companheiros de cela. Os companheiros de cela são três: ROCKY, oportunista, manhoso e gabarolas; QUEENIE, agressivamente “bicha” quando lhe convém, que manobra o sistema iníquo do reformatório em seu proveito; e LEO (“Mona Lisa”), um rapaz meigo que aprendeu a separar corpo e consciência para ir sobrevivendo. A interacção destes personagens cria a dinâmica da peça, uma tensão sombria que resulta na corrupção final de Smitty.

Texto: John Herbert Adaptação\Encenação: José Henrique Neto
Assistência de Encenação: Paulo Brito Execução Cenográfica: Carlos Ramos
Interpretação: João Vicente, José Henrique Neto, José Redondo, Luís Lobão, Tomás Alves
Produção: Edipoética
ESPAÇOKARNART, Rua da Escola de Medicina Veterinária 21, 1000-127 Lisboa
Reservas:
966864730
918991330
grupo373@gmail.com
grupo373.blogspot.com

quarta-feira, janeiro 02, 2008

ouvir...

"No palco, na maioria dos casos, apenas assumimos um ar de ouvir com atenção."

Constantin Stanislavski

quinta-feira, setembro 20, 2007

Valete Fratres!

Para sempre, um enorme amor nos iluminará os corações, para sempre em Folia!, agora um enorme vazio, sem saber muito para quem nos havemos de virar.
Se calhar estamos no começo de uma transformação no mais íntimo de nós.
Se calhar estamos no começo de uma revolução.