quarta-feira, janeiro 02, 2008

ouvir...

"No palco, na maioria dos casos, apenas assumimos um ar de ouvir com atenção."

Constantin Stanislavski

quinta-feira, setembro 20, 2007

Valete Fratres!

Para sempre, um enorme amor nos iluminará os corações, para sempre em Folia!, agora um enorme vazio, sem saber muito para quem nos havemos de virar.
Se calhar estamos no começo de uma transformação no mais íntimo de nós.
Se calhar estamos no começo de uma revolução.

terça-feira, agosto 28, 2007

Depois dos porcos que falam...

Sempre ouvi falar de gajos de meia idade que afogam as mágoas com bebidas alcoólicas.
Durante meses, sempre que chegava a casa a altas horas da noite, deparava-me com o meu vizinho do 4º andar a cair de bêbedo pelas escadas e sempre a queixar-se da vida com um discurso que mostrava uma suspensão temporal na vida deste individuo.
Depois de me ter cruzado com este homem para aí umas vinte vezes, comecei a perguntar-me se depois de terem inventado um porquinho chamado Babe e que sabe falar, não teriam também inventado uma mágoa chamada Vanda e que sabe nadar.
Cuidado meus amigos: afoguem as vossas mágoas antes que elas aprendam a nadar!

Sexto

Este elevador é a minha amnésia.

segunda-feira, agosto 20, 2007

....

Desta vez fica só para mim.
Dancemos.

segunda-feira, agosto 13, 2007

O velho é que sabia.

Que, palhaços do circo do Senhor,
sejamos loucos do mais belo siso
transformando em jogo a nossa dor
e a dádiva das lágrimas em riso.

Agostinho da Silva

Folia!

Texto: Paulo Borges

Encenação: Rui Mário

Pelo Teatro TapaFuros

Quinta da Regaleira - Sintra
de 5 de Julho a 16 de Setembro
5ª a Sáb.: 22h Dom.: 20h


«A noite abre-se em luz. Nocturno cantado em voz de árvore, de atento mocho. Vozes muitas que anseiam paz. Vozes do mundo, no mundo... Folia nos ilumina, folia nos inflama! Flama de cor a romper solidão, a romper surdos gritos. Dos caminhos da Terra surgem homens e mulheres que sentiram uma voz que chama, em chama. Arde-lhes no peito. É o tempo? Os portões abrem-se, a mansão tem muitas portas, luz habita os salões e ri do serão... Esta a luz que vestirão. Homens e mulheres da Terra, convidados para a festa da Luz, convidados em mistério.» Rui Mário

Texto: Paulo Borges; Encenação/Direcção Artística: Rui Mário; Dramaturgia: Paulo Borges, Teatro TapaFuros; Direcção Musical/ Arranjos: Pedro Hilário; Direcção de Actores: Samuel Saraiva; Interpretação: Carla Dias, Filipe de Araújo, João Vicente, Paulo Cintrão, Mário Trigo, Rute Lizardo, Samuel Saraiva, Vera Fontes; Músicos: Alexandre Leitão, António Neves, Jorge Domingues, Miguel Costa; Cenografia/Adereços: Rui Zilhão; Coreografia: Mercedes Prieto; Vozes Off: Elisabete Figueira, Jorge Telles de Menezes, Inês Figueira, Natasha Quaresma, Paulo Borges, Ricardo Ventura, Rui Lopo; Desenho de Luz: José Miguel Antunes, Mário Trigo; Design / Web: Pedro Marques; Fotografia: Sérgio Santos; Figurinos: Elisabete Figueira, Pedro Marques; Costureiras: Ana Tobias, Doroteia Tobias; Luminotécnia: Fábio Ventura, Facas Valente, João Rafael, Laura Scheidecker; Apoio à Montagem: Emanuel Ventura, Gonçalo Africano; Direcção de Cena: Marco Martin, Rui Mário, Sónia Tobias; Frente de Sala: Ana Rita Neves, Catarina Trindade, Inês Amaro, Joana Martins, Maria Silva, Tânia Tobias; Produção Executiva: Sónia Tobias; Direcção de Produção: Marco Martin

quinta-feira, abril 05, 2007

Naquele lado da rua

Do outro lado da rua, um louco suicidava-se do rés do chão enquanto um velho cego passava e bengaleava contra sacos de plástico.
Cada vez mais, os calções dos miúdos colavam às pernas por causa do calor e continuavam a jogar à bola.
Na esquina, um pássaro acabava de levantar vôo enquanto a comida passava, levantada do chão pelos braços gordos de uma mulher com pressa de chegar à hora do almoço.
Do mesmo lado da rua, o sol batia contra o vidro reflectindo espirais multicolores para o espaço.
Um louco suicidava-se do rés do chão com esperança da morte e de que ninguém abrisse a porta do quarto. Um louco suicidava-se na encenação da queda no meio do passeio. Eu assistia à queda e ao calor que lhe aparava a roupa. Ele revolvia os braços e as pernas numa agitação cada vez mais rápida até que bateu no chão. E morreu!
E só depois gritei e vi o sangue a espalhar-se pela rua. Alguém abrira a porta do seu quarto e fechara a janela e o sangue já chegava ao lado da minha rua. O louco estava morto. Causa da morte: a sua personagem.

terça-feira, março 20, 2007

Naquele caminho que me perdeu

Sei as poças daqui. Sei os seus lugares indevidos e os seus humores de catástrofe. Mas não sabia que a chuva vinha de mim. Que havia sempre o outono em cada àrvore. Que a pressa era tão lenta como a queda de uma folha de um ramo alto. Sabia que não existiam anjos, mas homens e mulheres que voam. Não sabia que, afinal, tenho uma certeza: as casas. Trepava uma para ver o fim do mar, para ver como era ser longe. E era longe e não acabava no meu olhar. O silêncio dos telhados terminava na ponta dos meus dedos roídos e, nós, quedos perante uma imensidão que nos engolia. Eu preferia adormecer rocha, para quando o tempo devorar, eu permanecer matéria. Ou levantar-me falésia para ter o doce do mar a lavar-se em mim. Do alto, vi o meu coração pendurado por uma mola no estendal. A secar. Ainda a bombar sangue do nada. Menos um peso. Menos um coração. Para quê se me faz frio? Antes as minhas mãos com asas.
Antes que descesse para a escada, pensei no salto grande que teria de dar se quisesse pousar de pé. Tive de pensar no balanço e deixar que o meu corpo rompesse as minhas roupas e saltasse. Lá foi ele, entre a vertigem e os prédios. Cá de cima, ouvi um baque. Não! Um Bach que saiu-me monstro das mãos. Por instantes, tive de repetir o meu pensamento para coordenar-me no meio dos gestos que fazia horrorizada. Afinal, o destino poderia não ter fim. Tive de calar-me para que pudesse ouvir que ainda pisava o telhado, mas o meu corpo lá em baixo! Mas o meu corpo aberto para que todos vissem como eu era, para que todos vissem a minha beleza liquidada no chão. Para que todos vissem o coração que me faltava e que estava pendurado num estendal a secar.

sexta-feira, março 16, 2007

em cena.

" A revolução é a máscara da morte."
de 15 de Março a 2 de Junho 5ª, 6ª e Sábado 21h30
Anfiteatro da Cantina Velha da U.L.
Metro da Cidade Universitária

Ficha Técnica

Actores: Ana Gil, Joana Guerra, João Vicente, Madalena Palmeirim, Susana Gaspar, Nuno Matos, Soraia Granja, Laura Tomás, Reinaldo Almeida, Flávio Nunes, Miguel Silveira Encenação: Ávila Costa Tradução: Anabela Mendes Assistência de Encenação: Miguel Fonseca e Ricardo Silva Dramaturgia: Anabela Mendes, Ávila Costa, Rui Teigão, Ricardo Silva, Miguel Fonseca e gtl Produção: Rui Teigão e gtl Desenho de Luz: Ávila Costa Banda-Sonora: João Santos Design: João Vicente Operador de Luz: Pedro Marques Operador de Som: João Santos Figurinos e Slides: Eduardo Guerra e Luísa Seixas Técnicos de Luz: Pedro Sousa e Paulo Oliveira

Agradecimentos: Dr. Luís Fernandes, Dra. Valentina Matoso, Dra. Isabel Bruxo, Sasul, Aeflul, RUL, FCG, Profª. Anabela Mendes, Profª. Vera San Payo de Lemos, Profª. Maria João Brilhante, CET, Prof. Fernando Guerreiro, Luís Miguel Cintra, Teatro da Cornucópia, Amélia Barriga, Profª. Manuela Ribeiro Sanches, Isabel Aires, Sofia Meireles.



sexta-feira, fevereiro 02, 2007

Fragmentus Suburbia (14): entranhas.

Porque o rapaz foi para a cidade no primeiro comboio, deixou de recordar os subúrbios, aquele, o da sua infância. O desafio era outro, o da faculdade. A realidade crua do lápis e da caneta que constroem a vigas secas de betão. Uma realidade que ainda não lhe está nas entranhas, qualquer coisa de repulsa. Afinal, o rapaz só queria regressar para a pureza deste espirito.
A cidade faz esquecer as origens, até ao momento em que nos esmaga na hora de apanhar o comboio de volta para casa. Foi isso que o rapaz sentiu, que já não pertencia a lado nenhum, mas quando o frio da noite gela os ossos na estação terminal da cidade, os olhos enchem-se de lágrimas porque ele recorda-se que nas entranhas há qualquer coisa que viveu, qualquer coisa que ele recordava como um palco onde as luzes dos projectores fulminavam as vidas das donas de casa que estão no comboio.
O comboio chega ao subúrbio, o rapaz sai da estação, pensou em alguma coisa como "apesar de tudo, estava mais quente dentro do comboio". Sobe a rua que dava para sua casa, ouve o comboio a partir com o seu som gasto e velho como uma veia que leva o sangue a todas as casas.
Faz muito tempo que ele não pensava nisto tudo, como um relâmpago lembrou-se dos poetas que conhecera e que lhe falavam de um salão de baile e de um teatro que ficava por baixo de uma igreja. Foi no meio destas entranhas, destes pulmões podres, que ele voltou a olhar para trás no cimo da rua, para ter a certeza de que ainda sabia onde espreitava a lua.

quarta-feira, janeiro 17, 2007

Os dias de amanhã

Hoje sou só eu e os trigos
diamante pedra em cristal pistola a assobiar

Se fosse sempre só eu
e tantos em mim e tanta emoção em tudo

Se eu fosse só poucos passos
em labirinto desmanchado
seria encontrada facilmente

Se eu afogasse na corrida
não seria
não seria apenas como o esforço que ser eu requer
não seria a torrente na brisa
e penas de pássaro a disfarçar o crime

Espero que o mundo não me acabe na mão

Como corpo com torneiras
e ponteiro partido a apontar para a hora
vagueio fora de mim
sempre em direcção errada
como um peito na mão

Danço demasiado no deserto
Por isso, desapareço
e espaireço dentro do rio
onde tenho quatro braços para ser mais rápida
e ir com os barcos
e dar volta ao mundo

Deixas-me sempre sozinha na estação
Por isso, fico sempre a brincar com o cão
e, juntos, coçamos as nossas pulgas

Espero que o teu comboio parta
para não achares mal que vá beber com os marinheiros às riscas
e que parta um copo antes de comprar o bilhete

Colo-me sempre ao poste enquanto tu já descansas
Sempre morei longe e tenho de ir para longe, todos os dias

Moro num sítio feio com bela gente
que percebe o tempo
que, para além da beleza, percebe a fealdade
e percebe a margem das coisas
a separação união

Moro em mim onde quer que esteja
sem o cobertor e com moeda no bolso

Afinal, aprendi a vaguear sozinha
Afinal, suo muito das mãos para conseguir agarrar sempre o cabo

E, quando volto para casa, à noite,
posso chorar no comboio porque
sei que não me vão roubar...o coração.

quinta-feira, dezembro 28, 2006

Flor em Inverno

As sementes nascem no duro ventre
e os pássaros morrem em pleno vôo
enquanto descaíam-se sobre si mesmos
e afligiam-se em vergonhas tão inocentes

Se a flor falasse em beleza
as suas pétalas não seriam mais como dedos de anjo
Se a flor vencesse a tempestade
deixaria de ser caule de lua
Se a flor não baloiçasse na brisa espontânea
não vestiria saias
Se a flor fosse grande
teria pé de criança sobre erva

Se eu florisse cada instante
e sempre pedisse o meu sol ao céu
e criasse espinho de pequena
não poderia ter lâmina

nem ser perdida

ter o meu canteiro
ser flor com pólen
para retirarem-no de mim
e espalhá-lo sobre meu solo
para sentir sempre doce

segunda-feira, dezembro 04, 2006

2ª interrogação de amor

Tenho dentes de cavalgada
E esfera armilar em fogo
agarrada às minhas mãos

Sou sangue em fervura
em ebulição esquecida
Posso apagar simplesmente?
Ser um ponto que morreu no passeio?

Já não sei o que foi de ti
Onde é que tu andas?
Na minha mente?
Estás longe, cada vez mais longe...

Já és um amargo na boca
Já perdi os dias e nem me interessa saber quantos foram
Pois, agora, regulo-me pelo meu tempo
Sei-o melhor

Tão cedo? Uma lembrança?
Afinal, parece simples.

É só apanhar os vestígios que, às vezes,vêm agarrados à roupa
É só diluir o pensamento cronometrado para o passado
para saber que ele não está aqui, agora
É só afastar a mão do corpo à procura dum poro
ainda em transe de prazer
É só esperar até deixar de esperar
É só deixar de ansiar nos órgãos, no dentro, no fora,
nos cabelos, nos braços, no corpo inteiro
É só deixar de imaginar casas de banho
É só deixar-me de vestir de leopardo para não poder atacar-te mais.

Afinal, parece simples.

Pobre coxa depenada
Sem pio
Ficaram as tuas plumas a curtir no ar
E eu, prostrei-me contra um tronco, bêbada, sem ti, cabrão.

domingo, dezembro 03, 2006

Urgência em ser burro.

Às vezes o actor tem de ser burro, às vezes precisa de pôr duas palas nos cantos dos olhos para se libertar, para não saber de nada, para ser burro de carga, daqueles que ainda não aprendeu o caminho de regresso a casa.

quarta-feira, novembro 29, 2006

mãos começadas.

Foto de Carlos Ramos

"Não, vão a pé, vão a pé que lhes faz bem, como outro homem qualquer..."

Rui Mário.

quarta-feira, novembro 22, 2006

........

De todos aqueles gestos que davam signos e daquelas frases de amor em corpo de ódio fingido, só uma ficou cá bem no fundo. Nessa frase dizias: "...para sempre!". E eu acreditei... em corpo de ódio.

domingo, novembro 19, 2006

Aquilo que podia muito bem ser.

Peguei no pincel embriagado de acrílico, aquele instrumento era o prolongamento de uma mão sem habilidades, tosca e sem vigor. De todas as coisas que tinha visto naquele dia, o que mais me impressionou foi aquele menino do documentário com a espingarda na mão.
Olhei para o papel grosso que estava na parede, e destas minhas mãos crescidas sairam meninos pretos de África com carrinhos de rolamentos e trotinetas nas mãos.

sexta-feira, novembro 10, 2006

Violoncelo

O meu violoncelo tem o pranto que me pertence. O meu violoncelo tem as torrentes de amores e pássaros desonrientados. Mesmo sem cordas, o meu violoncelo continua a ranger a dor na madeira. E, cada corda, é açucar a jorrar da fonte. O meu violoncelo tem saudades de mim, toca por mim quando não me consigo levantar do chão e dá-me uma sonata de presente.
Não precisas falar de ti porque hoje vi-te a tocar. Transpiravas que nem a pele dourada de cavalo sobre o campo, desenfreado e selvagem. Murmuravas uma respiração tão silenciosa como a pausa da tua música. Ouvi-te, ouvi as tuas mãos, os teus dedos, os teus pulsos. Ouvi o grito a sair do teu estômago e a amarrar-se nas tuas cordas vocais até sufocar. O que ouvi foi lindo. Fixei-me na cadeira e voei até junto de ti. Irrompi nas tuas notas como véu ao vento, como liberdade total para estar onde quisesse. Viajámos juntas até onde a imaginação não criara ainda uma imagem.

quinta-feira, novembro 09, 2006

Só porque não falava de amor há muito tempo.

" - De que é que trata?
- Do amor.
Perante a resposta do velho, o outro aproximou-se com renovado interesse.
- Não me lixes. Com fêmeas ricas, das que fervem?
O velho fechou o livro num repente fazendo tremer a chama do candeeiro.
- Não. Trata-se de outro amor. Do que dói."

Luis Sepúlveda in O velho que lia romances de amor