quarta-feira, abril 06, 2011

já vos aconteceu?


Já vos aconteceu terem aquela sensação de querer dizer muitas coisas e não conseguir porque a quantidade de coisas vos entope a boca?
Já vos aconteceu precisarem de falar com uma pessoa e essa pessoa teimar em não aparecer sabe-se lá porquê?
Já vos aconteceu quererem evaporar-se, mas em vez disso sentirem que estão a ficar cada vez mais sólidos?
Já vos aconteceu terem os olhos a arder por aguentar as lágrimas?

A mim já.

segunda-feira, março 14, 2011

bonecos.


Os bonecos acordam para aquilo a que chamamos dia. Eles não estão atados, não estão congelados e no entanto não conseguem tocar-se, nenhum se consegue mexer na direcção um do outro. Este conjunto de bonecos não é mais do que um par, um par que há-de ser um casal heterossexual já que são um boneco e uma boneca. Mas o que realmente interessa é o facto de se sentirem atraídos e não poderem tocar-se, provavelmente estão à espera do momento passar e constatarem que este já passou. Ao constatar que aquele já passou já não vão constatar que se beijaram ou que meteram a mão aqui e ali. As correntes são invisíveis, mas eles não se conseguem olhar nos olhos. O boneco sabe que a boneca tem cara de anjo, mas nunca a viu por dentro e por fora só conhece o cheiro do cabelo. O cabelo não é tão verdadeiro como o dos humanos, mas chega para o convencer de que os cabelos sintéticos também têm o seu valor. 

Ele decide então tocar apenas com um dedo na boneca, o problema é que os dedos dele estão colados, ou melhor, nunca estiveram descolados. Como não lhe pode tocar só com um dedo, toca-lhe com todos os cinco que tem na mão. A boneca fica satisfeita com o toque do boneco e decide fazer o mesmo, toca-lhe na bochecha com o coto onde devia estar uma mão. Apesar de serem bonecos eles não são feitos da mesma matéria se tivermos em conta que não estamos a sonhar. Um pode muito bem ser de pano ou de madeira e o outro pode até andar mais perto da matéria plástica.

Há pelo menos uma coisa que eles sabem, sabem que estão apaixonados pela ideia que têm um do outro. Os dois gostam de fazer downloads nas horas vagas e ouvem música até às lágrimas. Noutros dias ouvem música até a polícia os apanhar, mas aí já estavam a sonhar não era? Como nos filmes.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

descobertas (...)

Descobri que sou um desempregado cheio de trabalho.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

corta.

Eu sabia que já tinhas desaparecido.
Já não era sem tempo.
Virei-me de pernas para o ar e só te vi a ti.
Rias-te muito. De mim.
Eu sabia que não era de mim.
Era da minha sombra, que era maior do que eu.
Agora só a sombra.
Molhei o papel, foi só uma lágrima.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Adoro o Estoril ao pôr do Sol, faz-me sentir absolutamente inútil, mas com muitos amigos para beber uma aliança velha. À medida que o tempo passa, vou-me tornando num gajo super positivo e apoiante da inércia que nos assola a todos.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

leiam isto rapidinho.


olá boa tarde o meu nome é, o quê? o meu no, ah sim você você, desculpe você não me trata por você, posso tratá-lo pelo seu primeiro nome, não prefiro que seja pelo segundo porque é igual ao do, sim ao do miúdo da, sim esse, pois não sabia que, olhe desculpe mas gosto muito das suas, sim são muito confortáveis, posso ver mais de perto? Não porque eu tenho vergonha de mostrar os meus, ah desculpe, sim, eu também não gosto que me vejam as, como? Sim isso que está a pensar, oh meu deus, quem? Estava a falar de um amigo meu, ah sim não conheço, o povo e o exército acabaram de proclamar a república, pois é verdade, deu na televisão, ai eu não tenho televisão, isso é um crime, olha lá está o meu amigo, não estou nada inspirado, shhh. Zzzzzzzz.

terça-feira, janeiro 25, 2011

onde.

Bem, de um ponto sai uma linha, certo? De outro ponto sai outra linha, estás a acompanhar-me? Ok, agora cada linha dirige-se para um ponto diferente. Uma dirige-se para um ponto onde a outra nunca há-de ir, a outra dirige-se para um ponto onde a outra gostava de ir. As linhas não são rectas e até existe um ponto onde elas se vão intersectar. Onde? Fugiu, espera, oops, lá vai a linha, muito prazer, mas eper...
Já não a vejo... à linha. 

segunda-feira, janeiro 24, 2011

nova referência.

Don't you think twice,
It's my only advice.


The Legendary Tigerman

quarta-feira, janeiro 19, 2011

dez lamúrias por gole.

Isto é só um copo
Eu não bebi de mais
Achei que era diferente
E são todas iguais
Escrevi canções sobre ela
Mil noites sem fim
Deixou-me neste bar
A cantá-las pra mim

Doce uhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhh

Eu bebo da garrafa
Tomo um gin de manhã
Se o principe era o sapo
Ela devia ser rã
Eu amo quem eu sei que não me vai amar
Mas só assim me dá vontade de cantar

Doce uhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhh

Mas a dor insiste
Não dá pra esquecer
Mas o peito insiste
E não a deixa morrer
E eu não vou deixar de beber
Como gin
E para estar sóbrio não basta
Só pensar em mim

Ah ah

Nao era isto qu’eu queria ser
E o que me deixa mal é o que me faz viver
Sinto a roupa fria e o corpo dorido
Sinto o cheiro a vinho mesmo sem ter bebido nada

uhhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhhhhh uhhh

Isto é só um copo
A boca já me arde
O homem varre o chão e diz que já é tarde
“Senhor só (bon voyage) é hora de fechar”
A lua é a mulher que hoje vou abracar
Doce uhhhh uhhhhhh uhhhhh uhhhhh uhhhhhh

Manel Cruz - Ornatos Violeta

sexta-feira, janeiro 07, 2011

não é desta, mas podia ser


A verdade das coisas que ele procura estão sempre a escapar pelo meio das virilhas, das axilas e por entre os dedos das mãos e dos pés. Ele pontapeia o ar na esperança de acertar na coisa omnipresente que teima em não nos salvar. Há já algum tempo que ele não se interessava por pessoas, mas ainda assim ele continua desconfiado de que não será desta que consumará o elo entre os mundos de lá de fora e o dele. Raspa as unhas no vento sem que elas se desgastem demasiado, ainda precisa de as cortar, mas elas vão levantando até o ar gelar a carne. O meu reino por um corta unhas.  

terça-feira, janeiro 04, 2011

mas que.


Sabe, sabe ele o que tem de fazer, ele sabe. Não sabe muito bem como pode saber fazê-lo, não sabe que está a ficar fora de competição. Os treinos tardam em começar e ele vai enchendo a barriga de incerteza enquanto o tempo se afirma como a única coisa que está a passar-se. A passar-se dos carretos está o Semicontente que tarda em sair do semicontentamento. Do sítio onde está não há-de sair tão cedo porque o mar trouxe o frio, tal como o deserto de sal que o deixou de mãos a arder de tanto frio. Fecha os olhos como quem tira fotografias às meninas bonitas que tardam em aparecer tapadas por vestidos na cara e nuas do queixo aos pés. Hoje acordou escorreito sem qualquer tipo de guilhotina a cortar-lhe a genialidade. Guilhotina que tarda em aparecer sempre que é preciso fazer uma revolução contra os génios que nunca aparecem quando é preciso escrever frases que nos deixem exactamente como estamos. Estou a tentar usar a palavra “que” o mais que posso para que nada fique por dizer a não ser que o Semicontente queira deitar alguma coisa pela boca que não seja a sua língua inchada que já está flácida de tantos inchaços e de tanta baba que não é de camelo, é de dromedário que está à beira de um ataque de nervos que nem te passa pela cabeça que tu usas menos que é precisamente a que tens em cima daquilo a que chamamos pescoço. Que coisa.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

queixo: o suporte.

À porta de um bar apareceu à minha frente o homem mais carocho que eu alguma vez vi. Pequeno, magro e não tinha dentes, ou pelo menos o bigode comprido não deixava ver o que restava deles. O queixo era muito saliente e dava a impressão de que suportava o bigode e o nariz. Os olhos dele estavam lá ao fundo, no lugar mais longinquo da órbita, quase que os não conseguia ver. Ele disse que queria um cigarrinho, que já não fumava um paiva há tótil e que o gajo que o meteu na droga devia ir apanhar no cú. Quando ele disse isto lembro-me de ter pensado: "esse gajo se calhar até gostava!". O bigodes olhou para mim como se tivesse ouvido os meus pensamentos. Ficou ali suspenso por momentos como se o cérebro dele estivesse em stand-by. Depois disse que a miúda sabia o que estava a fazer. Não sei o que pensei quando ele disse isto. Lembro-me de não querer olhar  para ela com medo de ver uns olhos iguais aos do homem. Toquei na minha cara e reparei que tinha dentes e não tinha bigode e o meu queixo estava no mesmo lugar de sempre, por debaixo da boca. Podia ser que ela também tivesse os olhos azuis no mesmo lugar de sempre, por debaixo das sobrancelhas.

segunda-feira, dezembro 06, 2010

es-tra-do-s

Estrado, estradozinho és tão bonitinho! Quando é que rebentas para eu partir a cabecinha? Cabecinha cabeçona não ganhas para a tua dona que está a rebentar pelas custuras (por causa dos estrados). Os estrados tomaram o lugar do meu raciocinio e agora sou um corpo a flutuar nas palavras suportadas pelos cavaletes. Digo que sim aos teus e os teus tornam-se aquilo que não controlo. Não sou teu filho logo não és minha mãe. Penso logo não faço... demais. Logo vou ver se chove logo à noite. Runa rasga as resmas de estrados rastejantes. Estrados atrás de estrados e eu... eu estou entalado. Doi-me o pé e a garganta. Farpas.

Estão a ver?

quinta-feira, novembro 25, 2010

memórias inventadas.


Muitas vezes tenho a tendência de criar memórias falsas. Dou por mim a ler livros e tomar os acontecimentos como meus. Esses acontecimentos ficam gravados na memória e eu passo dias inteiros a tentar repeti-las. As memórias da história, das revoluções que deixam as coisas tal como estão, das guerras entre homens de carne e osso. Quando penso nas minhas memórias chego a ver uma figura de barba branca, com um ar digno. Esta memória é de Deus, mas ao ver este homem, olho para os mendigos da rua que também têm barba branca, e penso que a razão para não fazerem a barba há-de ser muito diferente da de Deus. A partir daqui, invento as razões e tento repetir as memórias, na esperança de as poder viver um dia.

domingo, novembro 07, 2010

o que uma estação faz.

A mulher de óculos escuros passou por mim e disse bom dia. Lembro-me de a ver nos cartazes de campanha eleitoral para a junta de freguesia. Cartazes enormes com cabeças enormes e, atrás deles, uma legião enorme de apoiantes. Ao cruzar-me com estes deuses na rua, apercebo-me que o meu canivete suíço era capaz de lhes perfurar o coração. Nestes momentos, em que uma estação de comboios ainda me deixa a pensar nestas coisas, penso em mudar de casa.
Ah, é verdade, vou deixar de votar. Agora tenho que ir, vou apanhar o comboio na esperança de ser assolado por mais um pensamento genial. Esperem por novidades.

sexta-feira, outubro 08, 2010

pegadas.

Eu não uso óculos, vejo bem. Olho na direcção da cidade que não existe e consigo vê-la. Acredito nos homens que não se mudaram para essa cidade e tento seguir-lhes as pegadas, mas estas, por vezes, são demasiado grandes e eu não consigo acompanhá-las. O que me reconforta é que não interessa propriamente repetir o que os outros fizeram. Chegamos muitas vezes a onde outros chegaram primeiro, mas existem certos sítios aos quais só um pode chegar. É desses sítios que eu ando à procura e espero não os encontrar tão cedo.

segunda-feira, outubro 04, 2010

"Eles riram e olharam para a aldeia lá em baixo, com a segurança da juventude: uma segurança que vem da convicção de que, porque os jovens vêm com clareza, vão evitar os erros dos velhos."

John Berger

quinta-feira, setembro 23, 2010

mais uma descoberta.

Sou um simples mortal e os meus pés cheiram a cholé no fim do dia.

sábado, setembro 11, 2010

e viveram felizes para sempre.

Era uma vez um príncipe que vivia fechado numa biblioteca. Vivia a sua vida agarrado aos livros que lhe contavam a sua própria história. Ele achava que não precisava de sair à rua. Os livros contavam como tudo iria acontecer, desde o nascimento predestinado até ao encontro da princesa encantada à espera de ser salva.
Num dos livros, o príncipe encantado enfrentava um enorme dragão. O dragão guardava uma masmorra infernal onde estava uma donzela encarcerada. O príncipe não a conhecia, mas sabia que aquela era a princesa que dormia nos seus sonhos. O príncipe estava tão entusiasmado com a história que começou a ler em voz alta: "O dragão faz uma investida feroz com a sua cauda, as escamas reluzentes à luz do fogo parecem aço chapeado. O príncipe desvia-se por pouco, ergue a espada e, de um só golpe, trespassa o peito do dragão, deixando a espada incrustada no coração do monstro. O dragão cai por terra, lança o seu último suspiro de fogo. O caminho está agora livre para o...". As últimas páginas estavam rasgadas. O príncipe ficou incrédulo, o fim da história tinha sido rasgado.
Cheio de raiva, o príncipe decide então sair da biblioteca para resgatar as folhas perdidas. O príncipe pega na sua espada, abre a porta da biblioteca, sai para a rua e fica especado diante da porta do seu castelo, contemplando o mundo à frente dos seus olhos. Ele, que vivia sozinho no castelo, deparava-se com um mundo parecido com aquele de que se lembrava ter lido nos livros. No entanto, conseguia achar algumas diferenças: a sociedade era agora formada por dragões, monstros organizados que habitavam as ruínas dos homens. Uma sociedade demasiado bem organizada, sem lugar para heróis.

Fim.

sexta-feira, setembro 10, 2010

nova descoberta.

Sofro de hiperconsciência.