Um sítio, uma memória, duas pedras demasiado grandes para estarem dentro de uma só cabeça.
É preciso voltar a essas pedras para elas desaparecerem.
A verdade, é que os sítios só são especiais pelas memórias: lembrar que havia um riacho seco numa praia no meio das dunas, basta haver qualquer coisa boa nesse sítio para o riacho se encher de água doce.
Lembro-me que havia um riacho, não me lembro se tinha água ou não, mas lembro-me do riacho.
segunda-feira, agosto 14, 2006
segunda-feira, agosto 07, 2006
quinta-feira, agosto 03, 2006
De mal a pior...
Quando escrevo, escrevo sempre pela mesma razão. O que hoje difere das outras vezes, é que hoje estou sem inspiração.
Dou a felicidade a quem adivinhar essa razão.
Dou a felicidade a quem adivinhar essa razão.
quarta-feira, julho 26, 2006
Rai's partam...
Não fosse a monarquia e não tinhamos de substituir o rei.
Não fosse a monarquia e eu ía ao andanças.
domingo, julho 16, 2006
Ainda há madames!
Histórias, histórias, são precisas histórias. A M;adame Berra não passa sem o chá e sem os biscotinhos e, é por vezes, impertinente. Mas que se vai fazer àquele riso irritante? A madame risse por tudo e por nada e abre bem a boca para que se veja o dente dourado: herança de família. Só é melhor não dar o bolo de chocolate porque é sempre uma sessão de cuspir e apanhar do chão e pedir desculpas discretas. Só os biscoitinhos, que até ficam bem em cima da mesa. Faz um arranjo elegante. Madame Berra trará uma nova história e a sua cara gorda vai contorcer-se de expressões maquiavélicas e horrendas, só que ela não se dá conta de tal. As bochechas rosadas enaltecem o seu rosto rechonchudo e parece que ela vai asfixiar dentro daquele colarinho bem passado e bem apertado. Espero o momento do ataque, quando a senhora cair da cadeira para trás e as suas pernas ficarem rígidas e fazerem aquele movimento cómico em que se cai duro que nem uma pedra no chão. Madame Berra grita, às vezes. Mas, para ela, não são gritos. Lá vinha uma história. Histórias sobre nada. Afinal, nem sei bem o que ela contava, mas ouvi-a. Aliás, se calhar, nunca ouvi uma história, pois se me pedissem para reproduzir uma das centenas, não me lembraria de nenhuma. Mas sei que ela contava muitas histórias. E via os pedaços de biscoito a esvoaçarem no ar e a cairem em cima do gato que, seguidamente, desviava-se irritado. Também ele já sabia como era.
O seu marido enchia-se de tremores na cabeça. Ficava estarrecido na cadeira e sorvia o chá. É um homem que mexe o bigode de um lado para o outro de modo enérgico. Parece que faz cálculos complicadíssimos na sua cabeça e que aquele tique é uma reacção neuro-cerebral. Comporta-se elegantemente, mas a sua conduta elevada, de todas as vezes, vai amolecendo em cada encontro. Vai-se desleixando nas falas e até consegue ser satírico e surpreender os conversadores. Sempre achei que havia ali um génio a ferver. Pode ser que não haja. Mas algo está lá e, ainda por cima, ele ainda consegue ouvir as histórias de Madame Berra. Ou, se calhar, como eu, ele também nunca as ouviu. Mas acho que sim, que já ouviu, pois eles já se amaram.
Madame Berra, é preciso que encha esta sala com o seu estomâgo que parece estar grávido de grandes maçãs e venha contar histórias. Brilhantina não se importa com o seu perfume, já não mais. A Brilhantina também tem os seus vestidos vermelhos e os saltos altos e até tem um vestido que é às bolas vermelhas sobre fundo branco. Disse-me para ter cuidado com as mulheres que pintam os lábios de vermelho pois era para disfarçar as marcas do sangue que chupam. Assustei-me com aquele facto que desconhecia na minha vida. Mulheres com lábios vermelhos, mas que cheiram bem tornaram-se um tabu para mim. Qualquer dia peço a uma para me sugar e acaba-se logo com isto. Brilhantina é maliciosa e não tem uma paciência muito bem comportada. Também ela usa batôn vermelho e daí eu nunca a chateio, mas sei que a mim ela não me faz mal. Mas temo pela Madame Berra. Aliás, já se atrasou. Mas como? A Madame nunca se atrasa.
O seu marido enchia-se de tremores na cabeça. Ficava estarrecido na cadeira e sorvia o chá. É um homem que mexe o bigode de um lado para o outro de modo enérgico. Parece que faz cálculos complicadíssimos na sua cabeça e que aquele tique é uma reacção neuro-cerebral. Comporta-se elegantemente, mas a sua conduta elevada, de todas as vezes, vai amolecendo em cada encontro. Vai-se desleixando nas falas e até consegue ser satírico e surpreender os conversadores. Sempre achei que havia ali um génio a ferver. Pode ser que não haja. Mas algo está lá e, ainda por cima, ele ainda consegue ouvir as histórias de Madame Berra. Ou, se calhar, como eu, ele também nunca as ouviu. Mas acho que sim, que já ouviu, pois eles já se amaram.
Madame Berra, é preciso que encha esta sala com o seu estomâgo que parece estar grávido de grandes maçãs e venha contar histórias. Brilhantina não se importa com o seu perfume, já não mais. A Brilhantina também tem os seus vestidos vermelhos e os saltos altos e até tem um vestido que é às bolas vermelhas sobre fundo branco. Disse-me para ter cuidado com as mulheres que pintam os lábios de vermelho pois era para disfarçar as marcas do sangue que chupam. Assustei-me com aquele facto que desconhecia na minha vida. Mulheres com lábios vermelhos, mas que cheiram bem tornaram-se um tabu para mim. Qualquer dia peço a uma para me sugar e acaba-se logo com isto. Brilhantina é maliciosa e não tem uma paciência muito bem comportada. Também ela usa batôn vermelho e daí eu nunca a chateio, mas sei que a mim ela não me faz mal. Mas temo pela Madame Berra. Aliás, já se atrasou. Mas como? A Madame nunca se atrasa.
sexta-feira, julho 14, 2006
Pode ser aqui
Sentemo-nos no parapeito da janela, entre as bisnagas de brincar e a queda interminável. Se somos bandidos temos de escusar convites e vamos roubar corações. Dentro da rua da morte há muitas escadas e sangue em garrafas para nos lembrar a gota que alimenta. Dentro de ti há filhos que querem nascer e destruir-te. Querem rasgar a tua pele e saquear velhos e porcos nojentos e castrar violadores. De dentro de mim, vigiam-me. Os assassinos estão dentro de mim.
Se dormir, o dia vai custar a vir. Já perdi os meus pés, mas posso ir ao teu colo e vou-te contando histórias felizes ao ouvido e vou avisar-te que se eu pudesse matar já me tinha morto. Então, atravessemos a rua em silêncio, mas, antes, quero dar-te uma flor. É de plástico e veio da peça de teatro. Era sobre russos em combustão num teatro ambulante dentro do teatro onde eu estava sentada. Guardei a pequena flor branca para não esquecer a outra realidade, a dos russos que estão longe e que não vejo. Pode ser que do outro lado da rua seja mais claro, mas caminhemos em frente.
domingo, julho 02, 2006
Algo está podre no reino...
de William Shakespeareencenação de Rui Mário
Autoria: William Shakespeare Encenação: Rui Mário Música Original: Pedro Hilário Interpretação: António Pedro Faria, Flávio Tomé, Filipe Araújo, Hugo Samora, Inês Pereira, João Mais, João Vicente, Paulo Cintrão, Rute Lizardo, Samuel Saraiva Cenografia/Adereços: Silvia Silva Desenho de Luz: José Miguel Antunes Figurinos: Flávio Tomé, Pedro Marques Costureira: Madalena Cabeças Luminotécnia: António Dionisio, José Miguel Antunes Designer Gráfico/Web: Pedro Marques Fotografia: Agência Zero Montagem: Luis Dias , Gonçalo Africano, Nuno Teixeira Direcção de Produção: Marco Martin
6 de Julho a 9 de Setembro
Quinta a Sábado: 22h
Domingos: 20h
Quinta da Regaleira - Sintra
Pelo Teatro Tapafuros
Mais informações: http://www.tapafuros.com/
sábado, julho 01, 2006
sábado, junho 24, 2006
terça-feira, junho 20, 2006
O Extravagante (6): nas ruas da amargura.
domingo, junho 18, 2006
Democracia das Emoções (18): sarcasmo
O melhor amigo de infância dele e a melhor amiga de infância dela vão casar.
Eles estão separados: um do outro e das respectivas infâncias.
Toda a infância perdida é um convite de casamento sarcástico.
Eles estão separados: um do outro e das respectivas infâncias.
Toda a infância perdida é um convite de casamento sarcástico.
sexta-feira, junho 16, 2006
Democracia das Emoções (17): efeito secundário
Ela só queria um homem que a fizesse rir.
Ele só queria uma mulher que o fizesse chorar.
Hoje descobriram que vão ser pais.
Ele só queria uma mulher que o fizesse chorar.
Hoje descobriram que vão ser pais.
O Impertinente (28): meios aéreos
Ela disse: "Está um rapaz a arder em cima do muro."
E foi então que alguém perguntou pelos meios aéreos.
E foi então que alguém perguntou pelos meios aéreos.
terça-feira, junho 13, 2006
Desmanchar
Sou roda que gira. Sou pedra que rola.
Sou sangue envenenado. Sou peão atropelado. Sou música e o eco na tua cabeça. Sou pombo depenado. Sou vagina e tenho duas coxas. Sou tempestade. Sou destruição e papel rasgado. Sou bailarina. Sou manca. Sou uma roda que trava. Sou uma pedra que parte. Sou abraço e a saia que enche. Sou literatura e a depravação dos copos. Sou obscenidade em cima da mesa quando rasgam a camisa. Sou tecla de piano batida furiosamente. Sou racionalmente desmanchada. Não consigo. Não consigo parar as veias que me mandam para a frente. Não consigo, mas quero! Quero abandonar este barco de amor e navegar em tábuas para naufragar até longe e encontrar uma ilha. Uma ilha...
Sou sangue envenenado. Sou peão atropelado. Sou música e o eco na tua cabeça. Sou pombo depenado. Sou vagina e tenho duas coxas. Sou tempestade. Sou destruição e papel rasgado. Sou bailarina. Sou manca. Sou uma roda que trava. Sou uma pedra que parte. Sou abraço e a saia que enche. Sou literatura e a depravação dos copos. Sou obscenidade em cima da mesa quando rasgam a camisa. Sou tecla de piano batida furiosamente. Sou racionalmente desmanchada. Não consigo. Não consigo parar as veias que me mandam para a frente. Não consigo, mas quero! Quero abandonar este barco de amor e navegar em tábuas para naufragar até longe e encontrar uma ilha. Uma ilha...
sábado, junho 10, 2006
Democracia das Emoções (16): cônjuges e conjugalidades
Ele só quer dividir tarefas domésticas com alguém especial.
Ela só quer alguém especial para dividir tarefas domésticas.
Na experiência pós-romântica os ideiais de conjugalidade tendem a autonomizar-se dos cônjuges ideais: o (des)amor pelo cônjuge pode ser superado pelo (des)amor à prática conjugal.
Ela só quer alguém especial para dividir tarefas domésticas.
Na experiência pós-romântica os ideiais de conjugalidade tendem a autonomizar-se dos cônjuges ideais: o (des)amor pelo cônjuge pode ser superado pelo (des)amor à prática conjugal.
terça-feira, junho 06, 2006
O Impertinente (27): imperativos de continuidade
Viveu sempre numa depressão pós-parto: sem nunca poder reclamar a paternidade da sua angústia.Quando chegou a hora da morte descobriu-se filho de alguma coisa deste mundo.Pôde então descansar com a certeza de que nenhuma angústia é totalmente desprovida de sentido.
domingo, junho 04, 2006
sábado, junho 03, 2006
Sintoma (19): educadores
1) "PAIS VÃO AVALIAR PROFESSORES"
2) "PROFESSORES VÃO AVALIAR PAIS"
A educação é aprovada por excesso de faltas; os alunos reprovam por excesso de comparência.
2) "PROFESSORES VÃO AVALIAR PAIS"
A educação é aprovada por excesso de faltas; os alunos reprovam por excesso de comparência.
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