terça-feira, fevereiro 28, 2006

Democracia das Emoções (5): recomeço

- Onde é que tinhamos ficado?
- No fim.
Depois tiraram as máscaras: um ao outro.

Democracia das Emoções (4): lágrimas

Ela disse: "Talvez seja da falta de lágrimas."

E foi então que as lágrimas secaram por completo.

domingo, fevereiro 26, 2006

do que diz o objecto de estudo.

“Aos que disseram uma vez, ares nostálgicos e sorrisos compreensivos de teóricos esclarecidos e de gente madura – vivida –, e até muito mais que uma (eu incluído, sim, eu incluído, sem dúvida nenhuma, para que não digam que não sei do que falo), que, para bem da arte e da literatura, para bem do génio da Humanidade, escrevessem sobre o amor apenas e só aqueles que estão de fora a ver, com os olhos neutralizados pela abençoada (oh, tão abençoada seja) cientificidade dos que não ganham nem não dão nada, rigorosamente nada (e até é por isso mesmo que se chamam neutrais); a esses eu absolvo, como seu santo padroeiro que tenho sido; absolvo não: antes abandono, em reconhecida renúncia a toda a iconologia precedente. Ficam sem deus, e adeus!, que hoje escrevem todos melhor, infinitamente melhor do que eu.”

disse ele, e atirou rapidamente as malas para o porta bagagens e entrou no carro para ir ter com a namorada.

Resposta de um Bigodinho Simpatico a perguntas sobre Amor!

"Liebe Macht Frei"

sábado, fevereiro 25, 2006

Sintoma (12): pós-romântismo e memória poética

"Surpreende-me!": eis o slogan que ameaça tomar conta da vivência amorosa.
Houve um tempo em que nada disto fazia sentido: as promessas eram outras.
Talvez por isso o desencantamento pós-romântico não seja de fácil aceitação.

Há quem diga que o sonho de uma nova ordem amorosa está enterrado.
Enquanto permanecer a desordem real e/ou cognitiva apenas resta uma esperança.
Ironicamente, o pós-romântismo está condenado a revisitar as ruínas do romântismo.

E todos nós, sem excepção, estamos condenados a revisitar os lugares onde fomos felizes.

Sintoma (11): ditadura do humor e verdade amorosa

A prevalência do riso sobre o sorriso nas narrativas amorosas é um dado incontornável da vivência contemporânea.
A ditadura do humor institui um estado permanente de calamidade pós-romântica: os amantes esforçam-se arduamente na busca da verdade humorística.
Um esforço identitário e relacional que transforma radicalmente as regras do jogo: a verdade amorosa já não é o que era.

Fazer rir.
Ter piada.


Poderá o casal pós-romântico aspirar à auto-compreensão das suas convulsões emocionais?

Com uma pitada de humor, tudo é possível: até a mais desencantada das ilusões.

Sintoma (10): comédia romântica

O Amor está a tornar-se um lugar desnecessariamente complicado: entre a ditadura do humor e os disparates pós-românticos, todos somos estranhos e auto-suficientes.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Carta aberta a um Jornal, escrita por um simples que ate le umas coisas...

"Mandala dispensou dois manipuladores"

A principio, confesso, a confusao gerou-se porque li mal o titulo.

Para mim "Mandela dispensou dois manipuladores" soava-me bem, soava-me familiar, soava-me heroico. Mandela, aquela Pessoa de um outro planeta distante habitado por uma estranha especie de "Homens Justos", ou la como se chamam essas coisas, teria dispensado dois acessores manipuladores que o teriam querido afastar da sua luta pelo seu povo nos fins do Apartheid, com propostas aliciantes cheias de dinheiro Branco ou cargos na Onu. E este caso so agora se vinha a conhecer visto Mandela, fazendo jus aos seus super-poderes de "Homem-Bom", ou la como se chamam essas coisas, ter guardado segredo para salvaguardar as familias dos tristes manipuladores de um ataque em furia do seu povo,verdadeiro amante do Presidente Mandela. Incrivel! Que homem!
...
Mas depois continuei a ler a noticia. Afinal foram os manipuladores de marionetas (a recibos verdes) que foram dispensados por uma empresa de manipuladores de marionetas chamada Mand(a)la...
.
Fiquei triste, pois. Por um lado tiraram-me a alegria de ver uma noticia com um pouquinho da virtuosidade de outros tempos, de outros homens. Pensei, por um instante que "era agora, pode ser que inspire alguem!"
Por outro lado revelaram-me que ate os mestres da manipulacao (e seus assistentes) estao presos a recibos verdes. O que apenas revela que por detras de um manipulador ha ainda outro manipulador, este ultimo ainda mais chefe. E por detras deste ainda estara outro. E por ai adiante...
No fim quem se lixa e sempre a marioneta, que se nao esta caida no meio do desterro, esta estupidamente obediente a ditar as estupidezes dos manipuladores.
..
Depois de tanto estremuchamento logo de manha, senti-me tao Cunhal que nao consegui tomar o pequeno-almoco descansado. Tive de dizer a Madalena para me levar a sandes de salmao e trufas e para me trazer uma caneca de cevada e uma torradita. Passei a manha toda com ares de pobreza...
..
Caro Editor,
Peco, encarecidamente, que tenha mais cuidado na hora de publicar titulos que possam levar a segundas interpretacoes socialmente conscientes.
Nao cai nada bem, principalmente na hora do mata-bicho.

Cumprimentos Cordiais

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

Deve ser mesmo da idade.

Engraçado como nos queremos sempre mais velhos e mais sábios do que realmente somos. Eu estava mesmo convencido de que sabia tudo sobre o Universo, no entanto sobre mim sabia muito pouco. Foi então que, um dia, ao expor o assunto me disseram que isso passava - "é da idade!" - diziam eles.
Pois eu estava mesmo convencido que não me havia de surpreender com mais nada a não ser comigo próprio, mas realmente há sempre alguém que aparece para nos surpreender e tornar esta vida bem mais interessante. Foi então que mandei tudo às ortigas e fui dormir uma sesta, à espera de acordar com um telefonema com uma declaração de amor.

terça-feira, fevereiro 21, 2006

Educação paralela

As matérias foram aprendidas ou despejadas para o fundo de pó das coisas inúteis. Os apontamentos, desorganizados e desapontados na arca, foram escritos sob o comando do chefe. Positivas que foram negativas...sempre negativas! No final, fiquei a saber nada...é certo, uns reis e duas guerras. A tarefa de me educar está caducada. Agora, só resta acarretar as consequências daquilo que sou, pois já fui educada: a música ensinou-me a escutar as pormenores e a dançar nos contratempos, as histórias e a poesia deram-me raízes de deusa e sonhos de criança, a serra soprou-me gritos de folhas e alquimizou-me em mistério, os loucos despiram-se da sua pele e gritaram-me a essência do imaginário profano e insano, um beijo encheu-me o coração e fez-me perceber as palavras amorosas abandonadas nos becos, as conversas aborreceram-me ou deram-me mundos fundos de selvas e savanas, o sábio olhou-me e não disse nada enquanto escrevia um novo livro. Jogo os meus cartões da sorte, com positivas ou negativas, sem números, cálculos e contas. Se me apetecer, desta vez, três mais três será sete.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

Mestres.

"Sonhei com um país onde todos chegavam a Mestres. Começava cada qual por fazer a caneta e o aparo com que se punha à escuta o universo; em seguida, fabricava desde a matéria prima o papel onde ia assentando as confidencias que recebia directamente do universo; depois, descia até ao fundo dos rochedos por causa da tinta negra dos chócos; gravara letra por letra o tipo com que compunha as suas palavras; e arrancava da árvore a prensa onde apertava com segurança as descobertas para irem ter com os outros. Era assim que neste país todos chegavam a Mestres. Era assim que os Mestres iam escrevendo as frases que hão-de salvar a humanidade.

Quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa - salvar a humanidade."

José de Almada Negreiros

O Impertinente (8): o «caso» Luís Capucho

Quando o homem não faz a tese...

...a tese faz o homem.

domingo, fevereiro 19, 2006

sobre o jogo.

Inveja das músicas, inveja das músicas.
As músicas são para ninguém, as músicas são só para dar, para oferecer, de maneira que o que conta para a música é quem fala, é quem escreve, quem dedica.
A música é o fantasma que vai de nós a quem queremos: se ela quer, então sim senhora, a música é voz nossa e nossa apenas, ou seja, se ela quer, a música é dela, toda dela e só para ela em especial; se não quer, logo largamos o fantasma e não temos nada a ver com aquilo, “é só uma música, só uma música” e de repente não é nem de ninguém, nem para ninguém.
São tão egoístas, tão egoístas que chegam ao ponto de não precisar de esconder nada.
As músicas...; as músicas são o orgulho humano; o orgulho humano numa prateleira, para usar e abandonar conforme dá jeito.

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Democracia das Emoções (3): jet lag

Ele chega antes dela partir.
Ela parte antes dele chegar.

Às vezes apanham o mesmo avião.

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Desabafo politico-sentimental de um simples que ate le umas coisas.

Nos tempos que correm sinto-me, a maior parte das vezes, extremamente desvalorizado...

Ando desinvestido.
Evoluindo negativamente num cenario de crise, globalizada em cada pedaco de mim. Aos poucos, sinto que a minha alma deixa de ser competitiva, deixada perdida por tantos objectivos dispersos, abandonada algures entre a curva descendente da minha motivacao.
Sinto que me descapitalizo. O meu corpo, pouco produtivo, nao aguenta mais o dia-a-dia de competitividade entre a minha sede e o meu figado. Bebo mais do que aquilo que posso pagar e confesso que, nas noites em que me sinto mais so, antes de adormecer, penso acabar com tudo isto e apresentar falencia tecnica, moral e amorosa.
Nunca conseguirei, estou certo. Custa-me demais o esforco que tenho dispender para contornar a minha burocracia catolica.

Nos (poucos) momentos de empreendedorismo, publicito-me pelas ruas da amargura. Fico na espectativa de que alguem, especialmente bonito, me lance, (de caras, estilo ora toma!) uma OPA, de preferencia nao muito hostil.

Picardias!

Ele, no seu jeito altivo do costume, retirou o cachimbo da boca e proferiu o pensamento do dia, diante do ouvinte ausente:
"A constância só é boa para os ridículos"
.
..
Depois, deixou-se ficar...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Corações de papel.

Hoje, mais do que corações de papel a serem distribuidos na rua, havia flores e velhinhos convecidos de que tinham as namoradas mais bonitas do mundo.

Democracia das Emoções (2): entrar e sair

Ela limpa os pés antes de entrar.
Ele limpa os pés antes de sair.

Às vezes trocam.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Fechado para obras (2): imunidade e felicidade

A imunidade é um privilégio: "o privilégio de estar isento de algo a que os outros estão sujeitos".

Talvez a imunidade à felicidade seja o maior dos privilégios: estar sujeito à felicidade dos outros pode ser muito pouco satisfatório para a felicidade pessoal.

E talvez o maior dos privilégios seja, afinal de contas, apenas o melhor diagnóstico da infelicidade pessoal.

domingo, fevereiro 12, 2006

Diário de um simples que até lê umas coisas-1

"I believe that, through the act of living, the discovery of oneself is made concurrently with the discovery of world around us, wich can mould us. A balance must be established between these two worlds - the one inside us and the one outside us. As the result of a constant reciprocal process, both these worlds come to form a single one. And it is this world that we must communicate." Henri Cartier Bresson.

Querido Diário

A príncipio esta frase deixou-me estúpido. Não estava nada à espera, devo confessar, de ler uma coisa que me dissesse tanto, escrita por um fotógrafo. Não é de esperar que os fotógrafos escrevam coisas que nos toquem tanto. Ainda por cima uma frase saída da Enciclopédia das Filosofias Baratas. Não estava à espera mas tocou-me.

Há que respeitar o senhor. Há que sempre respeitar um senhor que tira fotografias como este senhor as tirava. São olhos de outro mundo, sensíveis a uma luz própria, que vêem um outro mundo (não obstante ser também o nosso) onde não nos quisemos dar ao luxo de entrar.

É o mundo da Magnum.

Por vezes gostava de ser aquele soldado espanhol morto na guerra civil. Só para poder entrar pela lente do Robert Capa, só para poder ser tornado em sais de prata, tornado contraste entre preto e branco, só.

Como isso já não é possível, espero ao menos ganhar o Euromilhões.

sábado, fevereiro 11, 2006

O TeleVisionário (5): quarto de hóspedes

Ela disse: "O mundo é um tê zero."

E depois foi para o quarto de hóspedes.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Fragmentus Suburbia (10): atrasos.

Nem tudo está assim tão cornometrado e ligado como podemos pensar.
Um dia, Lídio apanha o comboio para ir até ao cinema que começava às horas indicadas num tal jornal suburbano das estações. Pelo caminho fazem-se obras para novas "infraestruturas que os caros utentes vão poder passar a desfrutar neste equipamento de transporte!" com os agradecimentos devidos e desculpas pelos incómodos.
Os avisos e as cartas de desculpa não satisfazem Lídio, para ele os horários dos cinemas também deviam de ser alterados. Quantas pessoas não apanharam aquele comboio para irem ver um filme que começava às tantas horas, no tal dia em que o tal comboio iria chegar a tempo?! Lídio ía com essa esperança de ver o horário da sessão alterado para meia hora depois.
O comboio chega à estação de Cinema-Triboleira com meia hora de atraso, Lídio sai calmamente do comboio em direcção aos cinemas Salgado. Nas bilheteiras informam-no de que o filme já tinha começado há meia hora, Lídio olha à sua volta e nem sequer um aviso a pedir desculpas pelo incómodo do filme ter começado antes dos "senhores utentes terem chegado!".

Gramaticas

Os acentos a mim nao me comovem.

O TIL a mim nunca me muda o NAO. Alias, nem sei qual poderia ser a razao!
O circunflexo, sinal abichanado e convexo, mostra-se simplesmente caprichoso.
Ao A nao me importa se se deixa acompanhar por um trachinho para ca ou para la.
E se mais houver que nao me lembre, e a prova de que o acento a mim nao me serve!
.
Sou uma pessoa simples, nao me considero esquisito.
Fico-me pela interrogacao, pela exclamacao ou simplesmente pelo final.
Para que aprofundar mais. Acho que tenho dito!
O que me interessa e mesmo a rima total!
..
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Enfim... Sabes o que quer dizer todo o inconformismo que em mim vez?
Que o que me faz falta e um teclado portugues.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

hUm

Ontem tinha tanta coisa para dizer. Ontem a noite tinha-me por inteiro na ponta da lingua!
...
Mas isso foi ontem. O problema do banho matinal e que nos lava as ideias .
Mas nao se enganem. A chave nao esta em nao tomar o banho matinal. Corre-se o risco de carregar o peso do mundo na imundice pessoal. Nao vale de nada tentar prender a ideia com o cabelo oleoso. E que talvez nao seja o banho matinal que nos leva as ideias. Pode ser outra coisa qualquer que ainda ninguem descobriu, e uma aposta forte na abstencao ao banho matinal como mezinha para a falta de ideias, sem qualquer comprovacao previa no minimo robusta, pode levar a simples e terrivel abstencao de contacto social, porque as pessoas, em geral nao gostam de porquinhos. E sem as pessoas nao somos nada, e sendo nada nao ha ideia, claro esta. Porque nao existo se nada sou. E o outro bem que dizia, penso logo existo, e...
...
Mas o que e que estou para aqui a dizer?
...
Ontem tinha mesmo tanta coisa bonita para dizer....

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

Sintoma (9): autor e autoria

Pior do que ficar refém das próprias palavras:

...desconhecer o valor do seu resgate.

terça-feira, fevereiro 07, 2006

O Impertinente (7): desencontro

"Não saio daqui enquanto não escrever umas palavras."

Quando elas apareceram, ele já lá não estava.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Fragmentus Suburbia (9): prazo de validade

É preciso fugir.
É preciso escapar antes que isto rebente.
Antes que alguém decida rebentar connosco.

No subúrbio, tudo tem um prazo de validade.
Há um tempo para a fuga e um tempo para a permanência.
Tempos que se cruzam, sentimentos que coincidem.

A linha que vai dar à saída é a mesma que reencaminha para a entrada.
Por isso, é preciso saber esperar...
...enquanto é tempo.

Interrupção

- O seu bilhete, por favor?
- Não tenho. Hoje, sou um passageiro em greve. Já agora, saberia dizer-me qual é a linha que vai dar à saída?
- É a linha amarela.
- Obrigado.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Tudo por nossa conta.

Foto de Carlos Ramos

O frio do Inverno congelou as nossas lágrimas de saudades. O mar estava à nossa frente e o vento sussurrava poemas de amor. Ficámos a ver o Sol a desaparecer à medida que íamos fechando os olhos, à medida que o chão e o céu desapareciam, à medida que largávamos a tristeza que nos inundava o sangue. Havia qualquer coisa que nos percorria o corpo, qualquer coisa que ia das lágrimas à ponta dos pés.Pouco a pouco, o mundo ia-se tornando nosso, aquela paisagem ia-se tornando nossa. Os cabelos loiros de um pequeno príncipe apareceram no sítio onde o Sol se escondeu. Estava tudo por nossa conta e do pequeno príncipe... era só abrir as asas e voar.