terça-feira, janeiro 31, 2006

David Cronenberg na Cinemateca


Stereo: 5ª, 2 de Fevereiro, 19h30

Crimes of the Future
: 5ª, 2 de Fevereiro, 22h

Shivers
: 4ª, 1 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 8 de Fevereiro, 19h30

Rabid
: 6ª, 3 de Fevereiro, 19h; 4ª, 8 de Fevereiro, 22h

Naked Lunch
: 2ª, 6 de Fevereiro, 21h30; 6ª, 10 de Fevereiro, 19h30

The Brood
: 2ª, 13 de Fevereiro, 19h; 2ª, 20 de Fevereiro, 19h30

Scanners
: 2ª, 13 de Fevereiro, 21h30; 3ª, 21 de Fevereiro, 19h30

Videodrome
: 5ª, 16 de Fevereiro, 19h; 3ª, 21 de Fevereiro, 22h

The Dead Zone
: 5ª, 16 de Fevereiro, 21h30; 4ª, 22 de Fevereiro, 19h30

The Fly
: 6ª, 17 de Fevereiro, 19h; 4ª, 22 de Fevereiro, 22h

Dead Ringers
: 6ª, 17 de Fevereiro, 21h30; 5ª, 23 de Fevereiro, 19h30

M. Butterfly
: 5ª, 23 de Fevereiro, 22h; 4ª, 1 de Março, 19h

Fast Company
: 4ª, 1 de Março, 21h30; 2ª, 6 de Março, 19h30

Crash
: 5ª, 2 de Março, 19h; 2ª, 6 de Março, 22h

eXistenZ
: 6ª, 3 de Março, 21h30; 4ª, 8 de Março, 22h

Spider
: 3ª, 7 de Março, 21h30; 5ª, 9 de Março, 21h30

A History of Violence
(antestreia nacional): 6ª, 10 de Março, 21h30

Sintoma (8): o trabalho poético de despoetização

Ela disse: "A vida não se confunde com a arte."

Em seguida, nasceram flores.

Ela debruçou-se para colher o poema.

domingo, janeiro 29, 2006

O Extravagante.

Num daqueles dias cheios de Sol, o Extravagante estava em casa farto de pensar de mais. Na verdade o facto do dia ser daqueles cheios de Sol é absurdamente insignificante para a narrativa deste pequeno excerto da vida quotidiana e "pacata" do Extravagante. Também não me interessa muito fazer a descrição fisica e psicológica do dito cujo, uma vez que assim posso tornar esta personagem imprevísivel e livre de qualquer responsabilidade moral.
Na verdade, só quero deixar bem claro e a extravagância do Extravagante era simplesmente ir ao supermercado comprar Cerelac (farinha lactea para os amigos) para se sentir menos universitário. Isto, está claro, dependendo do estado do tempo.

sábado, janeiro 28, 2006

Educação televisiva (3)

A educação televisiva é feita de pequenas revelações.
Aos miúdos confiamos algumas das nossas maiores ignorâncias.
Este miúdo, excepcionalmente, decidiu confiar-lhe a sua maior certeza:

"Tens de seleccionar. Tens de adoptar um critério ou um ponto de vista por onde possas espreitar. A televisão não é um buraquinho. O buraquinho és tu, ou será que ainda não percebeste? Deves começar por ver o essencial que há no acessório e, depois, quando te sentires bem preparado, podes tentar o acessório que existe no essencial. Talvez assim consigas obter a tua fórmula-mundo. Não sei. Quando tenho dúvidas desligo a TV: não gosto de colocar perguntas às quais ela nunca me poderá responder!"

Educação televisiva (2)

A educação televisiva é feita de pequenos equívocos.
A avaliar pela importância crescente dos compromissos publicitários no espaço televisivo, é natural que o miúdo confunda a publicidade com a programação propriamente dita.

Educação televisiva (1)

A educação televisiva é feita de pequenas derrotas.
É difícil ensinar um miúdo a distinguir o essencial do acessório, quando este presta mais atenção à publicidade do que à programação propriamente dita.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Músicas...

Preciso de silêncio total para escrever. Silêncio total, não! Preciso de ouvir os barulhos do vizinho tão entranhados em mim preciso de ouvir os carros que passam preciso de ouvir as conversas esvaziadas no espaço preciso de ouvir a trela irrequieta de cão ainda mais irrequieto preciso de ouvir o suspirar preciso de ouvir a gotejar preciso de ouvir o salto alto de coxa firme preciso de ouvir murmurar segredos preciso de ouvir o latejar de uma veia preciso de ouvir um cantarolar expoente de lirismo preciso de ouvir novos conselhos preciso de ouvir as pausas preciso de ouvir o coração derramando rios de emoções preciso de ouvir chuvas em transe preciso de ouvir chinquilhar o vidro e tremer a mesa preciso de ouvir o zumbido dos passos preciso de ouvir a máquina a funcionar. Enfim, preciso de silêncio total para escrever.



segunda-feira, janeiro 23, 2006

Improviso para uma semiologia práxica.

O mais capaz dos intelectos deu por si um dia a ser coisa nenhuma em absoluto e em particular a que chamasse sua. Achou-se um dia aquele que era o mais brilhante dos espíritos perante a evidência algo embaraçosa de que era aquilo que era consoante as naturezas das pessoas com quem se relacionava assim o exigiam.
Assim, apaixonado que esteve este fantástico indivíduo pela mais fantástica das mulheres, achou ele, durante todo esse tempo, que era uma crueldade intolerável o silêncio metafísico e a desfaçatez irrazoável que ia da aura épica de que se via imbuído à indiferença a que o votava aquele que não podia senão ser o amor da sua vida. Como inteligência irrepreensível que era, jogou a nossa personagem o jogo do relacionamento, e no seu lugar fez o seu papel e foi o mais competente dos apaixonados despedaçados.
Adorável no empenho que demonstrou, fez-se aquilo que lhe pedia o amor não correspondido e só fez sentido enquanto em cena esteve a mais fantástica das mulheres e o mais incrível do silêncio o manteve na situação ardente de dependência de um feedback e sujeição à afecção passional.
Eventualmente, entrou na esfera deste nosso sujeito admirável uma outra mulher, profundamente apaixonada por ele, e eis que se lhe inverte a posição e se acha ele do lado exactamente oposto àquele que ocupara aquando da sua denodada paixão. Produzia ele agora a afectação não intencional que sujeitava esta segunda mulher à dependência face a uma resposta por que ele se não sentia responsável. Como leitor competente das conjunturas, desempenhou ele, uma vez mais, o seu papel na perfeição por este essencialmente requerida.
Mas não mais existiria ele deste lado, uma vez fora da relação, do que existiria anteriormente, quando ocupara o outro extremo, desaparecesse do outro a mulher que tanto amara; e assim, julgou-se o mais brilhante dos intelectos uma pura formalidade representativa: era ele o espelho de dois lados, perfeitamente opaco na apresentação única e una de si, mas inteiramente plástico na transitividade, na remissão para o papel determinado que lhe exigia a relação com o sujeito com que na circunstância interagisse.

domingo, janeiro 22, 2006

O Impertinente (6): acto cívico

As votações democráticas prestam-se à encenação da vivência comunitária.
Veja-se, por exemplo, o caso de um rapaz profundamente imbuído do dever cívico, novamente lançado às feras em pleno recreio escolar.
De um momento para o outro vê-se cercado por figuras inesperadas que transportam consigo temíveis exigências performativas.
Após alguns instantes de mútua inquirição, compreendem que afinal vivem todos nas mesmas ruas, na mesma localidade, no mesmo microcosmos suburbano.
Gera-se uma familiaridade distanciada, impõe-se o menu do dia sem primar pela subtileza: "Então, votou bem?".

Entretanto, ela, do lado de lá, murmura-lhe um nome.
E sorri.

Mais tarde, em pleno acto cívico, a angústia eclode, imparável: "Como era mesmo o nome dela?".
Sofrendo pela ausência do substantivo próprio dela, mostrou-se incapaz de acertar no substantivo presidencial.
Quando se preparava para recolher os certificados de substância, a senhora da mesa pergunta-lhe: "Substantivo próprio, é o senhor?"
E foi então que ele se denunciou: "Não, sou o outro. Sou sempre o outro."

Conversas de café.

Eles os dois estavam sentados num café a conversar, falavam de tudo e mais alguma coisa, das coisas boas e das coisas más. Era uma conversa cheia de momentos de silêncio, durante os quais eles esperavam ouvir do outro aquilo que mais queriam ouvir.

quinta-feira, janeiro 19, 2006

Ler no nevoeiro

Perguntavas-me, ávido de novo conhecimento, se o nevoeiro, o mesmo de hoje, escondia segredos. Desconheço a minha resposta. Aliás, sou tão humano quanto tu para poder dizer-te algo de concreto e real a esse respeito. Sei que, enquanto a neblina passa, sinto-me a envelhecer nestas madeiras e que elas rangem as minhas feridas, mas vou sorrindo e sendo gentil. Sei que, enquanto a neblina passa, o mundo desafia-se a si próprio, faz paródias e tapa-se com um véu, um pano de fundo, onde navegam tempestades e recentes marinheiros que lutam pelas sobrevivências nas ondas terríficas.
Como a paisagem tem o nevoeiro, eu tenho o meu chapéu, a minha aba protectora de olhares furtivos e mastigadores de alma. No chapéu, enrolam-se os cabelos que desenham libélulas e anjos terriveis na minha cabeça e tecem camisolas de lã para aquecer os meus órgãos.
Uma vez, entrei nesse nevoeiro à procura de encantamentos e não de segredos. Nem me cheguei a perder, pois nunca soube onde estava. Lá, esbarrei contra uma máquina, o meu mecanismo desfiado em tiras de papel com poesia. Também, vi ninfas a amarem-se e a confundirem-se no branco evaporado da neblina.
Continuo sem saber a resposta à tua pergunta...segredos? Fiquei a saber um bocadinho mais, mas este será o meu segredo.

Uma questão de sorte.


Match Point, de Woody Allen

Poesia sem verso(s).

Porque por mais que nos queiramos esquecer da poesia, ela aparece sem avisar, não chega a deixar saudade.
Porque a poesia já não se faz em verso, não vou perder mais tempo a tentar descrevê-la.

domingo, janeiro 15, 2006

O Impertinente (5): vida interior

Tinha família, amigos, companheiro e trabalho bem remunerado.
Tinha cultura, ciência e também algum ócio.
Tinha talento, técnica e imensas capacidades.
Tinha loucuras, desvairos e um colchão de fazer inveja.
Tinha certezas, ocorrências e alguns esquecimentos.
Tinha saudades, comprimidos e bilhetes de avião.
Tinha seguro, conta bancária e défice orçamental.
Tinha convites, solidariedade e vida social.
Tinha gases, flores de estufa e natação ao fim-de-semana.
Tinha disciplina, hábitos e a novela das nove.
Tinha psicanalista, aulas de yoga e discussões com o vizinho.
Tinha piano, melancolia e umas mãos muito macias.
Tinha sonhos, utopias e uma certa inquietação.

(...)

Só não tinha vida interior.

Sintoma (7): verdade e discurso da verdade

"Estas queijadas são diferentes de todas as outras...porque são verdadeiras!"

O Mistério da Camioneta Fantasma.


Um espetáculo a não perder, mesmo!
Até dia 13 de Fevereiro, Sextas e Sábados às 21h no Teatro "A Barraca".
Encenação de Hélder Costa.
Entrada custa 6,25€ para menores de 25 anos.
"Seja teatreiro, seja um tipo porreiro!".

quinta-feira, janeiro 12, 2006

O Mundo é um Café.

Anda tudo tão desaparecido e tão cheio de pressa que mal vejo quem queria ver e o que queria ver. Fica tudo por meias palavras: "não te quero deixar ir porque ainda não te disse tudo, não vai demorar nada, só mais um minuto e não quero mais nada". Estava tudo preparado, as palavras e as frases muito bem pensadas. Mas há um olhar ou uma palavra a mais, a palavra chave já não abre a porta que devia abrir. Só precisava de tempo para me sentar e (re)pensar tudo, dar um abraço.
É preciso parar para matar as saudades e olhar nos olhos de toda a gente, reecontrar toda a gente, fazer do mundo um café, não faz mal que seja tudo por um minuto, não fazia mal que todos os dias acontecessem num só, assim nada ficava por dizer ou por ouvir, começar amores e acabar amores num só dia, ver o nascer e o por do Sol, dar um pézinho de dança, fazer um sorriso ou então ter o mais dramático desgosto de amor. Não é pedir muito, afinal era só um dia, era só tirar um dia para tudo isto, depois podia tudo voltar ao normal e ficar tudo por dizer. Mas enquanto esse dia não vem, tudo fica por dizer entre esse dia e todos os outros, neste pequeno café.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sintoma (6): a condição feminina


10, de Abbas Kiarostami

domingo, janeiro 08, 2006

Corpse Bride

"You may kiss the bride!"
Amor de vida e morte.
Um belo filme para ver à Tim Burton.


sexta-feira, janeiro 06, 2006

Poetas e Amantes (3)

Para ela, poetas apaixonados e amantes com pretensões poéticas são figuras tão desnecessárias como ridículas.

"Gosto de acreditar que os mais belos poemas de Amor se escrevem na sua total ausência.
E que os actos mais apaixonados são, evidentemente, desprovidos de qualquer romantismo poético."

Poetas e Amantes (2)

Sentir-se exclusivamente objecto de desejo ou objecto de inspiração.

"Eu mesma me certifico que nenhum deles se queira evadir da sua sua própria condição."

Poetas e Amantes

Aos poetas confiava as melhores palavras.
Aos amantes, os mais prolongados silêncios.

"Um poeta nunca é um bom amante.
De um amante nunca espero poesia."

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Memórias poéticas (6)

"Estou a ver as duas cabeças, de perfil, iluminadas pela luz de um pequeno candeeiro de mesa de cabeceira: a cabeça de Jean-Marc, com a nuca num travesseiro; a cabeça de Chantal debruçada por cima dele a uns dez centímetros de distância.
Dizia ela: - Nunca mais tirarei os olhos de ti. Vou olhar para ti ininterruptamente.
E, depois de uma pausa: - Tenho medo quando o meu olho pisca. Medo de que, durante esse segundo em que o meu olhar se apaga, se introduza no teu lugar uma serpente, uma ratazana, outro homem.
Ele tentava erguer-se um pouco para lhe tocar com os lábios.
Ela abanava a cabeça: - Não, só quero olhar para ti.
E depois: - Vou deixar o candeeiro aceso toda a noite. Todas as noites."


Milan Kundera in A Identidade

Fragmentus Suburbia (8): direcções

Foto de Vicente

Pequenas ruas, pequenos dormitórios com nome de lar, comboios a chegar e a partir e a linha sempre a crescer em direcções opostas.
No meio disto tudo: pessoas. Pessoas que caminham por entre o betão armado em caminhos de ferro, enquanto o revisor Abílio entra na última carruagem e pede o bilhete ao cego que pede uma pequena esmola, não tinha reparado na placa que dizia: "BEGING IS NOT ALLOWED!"
Pouco a pouco tudo se vai enterrando, lentamente, nos esgotos deste ventre que nos gerou...

Estado em que se encontra este blogger

quarta-feira, janeiro 04, 2006

"Faz-me um filho."


Odete de João Pedro Rodrigues

segunda-feira, janeiro 02, 2006

Oh Darling.

Estica o teu dedo magro de unhas bem arranjadas na direcção do interruptor do televisor, liga-o e põe a correr um DVD de um filme qualquer 100% "Some Like It Hot". Encosta-te confortavelmente contra o sofá, relaxa os músculos e pega na boquilha para fumares o teu cigarro, não leves pipocas, essas são para a ralé e tu estás no mais alto estatuto social, estás naquela posição em que toda a gente despreza até o próprio desprezo. Não queres saber de homens com pouco charme ou dinheiro. Só queres saber de jantares à luz das velas com jazz em música de fundo a ligar a entrada e o prato principal, oh darling, o jazz liga tudo, o jazz finge tudo.
Ah darling, a mim não me consegues fingir, tira a máscara de estilo que te tapa o rosto e vem para uma dessas ruas a subir (ou a descer), uma daquelas ruas com a lua a iluminar a passagem onde sempre sonhei fazer a declaração de amor mais simples e desprovida de estilo. Mas vem rápido, sabes bem a falta de paciência que eu tenho para estes assuntos oficiais em que tudo tem de ficar perfeito como naqueles filmes antigos que tu vês, onde tudo fica dito. Oh darling, faz-me esse favor e poderemos viver relativamente felizes para sempre.