sábado, dezembro 31, 2005

Das nossas palavras

Estas são, ainda, as minhas palavras.
Ontem tentaram convencer-me que já não eram minhas.
Chegará o tempo em que terei de renunciar às minhas palavras.

Entretanto, espero ansiosamente pelas tuas palavras.

quinta-feira, dezembro 29, 2005

Das sínteses originais (4): aristocrata

É muito instrutivo observarmos a entrada de um criado de mesa na sala de jantar do hotel. Quando transpõe a porta da sala de jantar, opera-se uma mudança súbita na sua pessoa. A posição dos ombros altera-se; todas as inferioridades e pressas e cóleras desaparecem num instante. E ele desliza pelo tapete, numa solene atitude sacerdotal. Lembro-me do nosso maître d'hôtel assistente, um italiano temperamental, parando à porta da sala de jantar para se dirigir a um aprendiz que partira uma garrafa de vinho. Erguendo o punho por cima da cabeça, punha-se a vociferar (felizmente a porta era mais ou menos à prova de som).
"Tu me fais - E atreves-te a dizeres-te criado de mesa, tu, meu filho da mãe? Tu, criado de mesa! Não tens categoria nem para varrer o chão da casa de putas da tua mãe. Maquereau!"
Por fim, quando as palavras lhe faltaram, virou-se para a porta; e, enquanto a abria, soltou ainda um último insulto como o Cavaleiro do Oeste no Tom Jones.
A seguir, entrou na sala de jantar e singrou através dela com a travessa na mão, com uma elegância de cisne. Dez segundos mais tarde, inclinava-se cheio de reverência diante de um cliente. E não podíamos deixar de pensar ao vê-lo inclinar-se e sorrir, com o seu sorriso de criado de mesa experimentado, que o cliente deveria, sem dúvida, sentir-se envergonhado ao ser servido por tão requintado aristocrata.


Down and Out in Paris and London (1951) de George Orwell

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

Das sínteses originais (3): intimidade

Os moradores apercebem-se de numerosos barulhos da vizinhança, que vão dos clamores habituais das festas de aniversário aos sons das práticas de rotina qualificadas. Os nossos interlocutores mencionam, por exemplo, o som dos aparelhos de rádio, o choro nocturno dos bebés, as tosses, os sapatos que se tiram ao deitar, as crianças que correm nas escadas ou nos quartos, as teclas do piano e os risos ou conversas em voz mais alta. No quarto do casal, os ruídos que chegam de casa do vizinho podem ser por vezes chocantes: "Até os ouvimos urinar no bacio; é insuportável. Terrível"; ou inquietantes: "Ouço-os quando brigam na cama. Uma pessoa pode estar com vontade de ler, ou outra de dormir. É muito incómodo ouvir estes barulhos quando se está deitado, por isso mudei a cama de sítio"... "Gosto de ler na cama e tenho o ouvido apurado, por isso incomoda-me ouvi-los falar"; ou um tanto inibidor: "Às vezes ouvimo-los dizer coisas do seu foro íntimo, como acontece, por exemplo, quando o marido diz à mulher que ela está com os pés frios. E isso faz-nos sentir que temos de dizer em segredo tudo o que for um pouco mais íntimo."


Living in Towns (1953) de Leo Kuper e outros

citado por Erving Goffman in A Apresentação do Eu na Vida de Todos os Dias

quarta-feira, dezembro 28, 2005

Considerações de um homem sobre um sítio.

A Joana escreveu este texto para eu vos mostrar aqui. Qualquer que seja o seu pedido eu o converterei para sempre numa ordem. Oh rainha das unhas roídas! Estás mais que pronta para conquistar a Pena e o Mundo

Foto by Néni

Estimados ouvintes!

Sinto uma necessidade de me contemplar perante vós, pois já não tenho à vontade com a minha intimidade deformada por tantas vírgulas. Como tal, vou ser imprudente para não ser delicado e censurarei qualquer devaneio poético, rimado ou até, ligeiramente, pintor que a minha mente possa produzir.
Pressinto que qualquer coisa quer explodir dentro de mim. Talvez o coração ou um pulmão. Sim! Terei de cuspir os meus pulmões para não sufocar nos meus pensamentos. Deixá-los-ei sobre a mesa e regá-los-ei para não murcharem. Dar-lhes-ei uma vida independente e uma planta vermelha para enfeitar o seu corpo líquido. Porém, não pensais que sou um militante de pieguices compradas ou algum hipócrita insensível. Digo-vos que até sou sensível, por vezes, ridiculamente sensível. Também fui canalha e fraco ao ponto de chorar sobre os peitos de muitas mulheres. Vede como sou fraco! Por favor, aqui ao lado vai decorrer uma peça de teatro. Ide vê-la! Caríssimos espectadores, irá haver ficção, romance, personagens ideais. Ficção! Enquanto que, aqui, só posso dar-vos a minha bruta realidade...como me cansa a realidade.
De todas as viagens que fiz tantos dias, todos os dias, sempre ficou um ligeiro drama a abafar-me. Como daquela vez em que afoguei os meus canhões nas ruas onde sempre vivi. Decidi procurar um pouco de mim naqueles locais, no seu esplendor efémero e tranquilo de fim de tarde. Acho que me angustiei ainda mais; apaguei todos os meus murais projectados nos prédios e deixei-me a desesperar nalgumas escadas, esquecido de mim no chão. Aqui, estão sempre a ocorrer emergências. Será que vivemos em guerra com o sítio ou somos exército verde em marcha pelo bem?
Já não suporto a negação, aguda e afiada, deste sítio. A negação em tudo, um não mais que não, um não que enche-me a cabeça e explode em cem imagens distorcidas e inexprimíveis, levadas na euforia da desilusão. Aqui, ao inspirar, sinto o mundo a morrer na minha garganta muda perfazendo uma grande tragédia silenciosa e ficando tudo embargado nestas minhas palavras.
Até à próxima, atenciosa plateia.





Joana Guerra

terça-feira, dezembro 27, 2005

Da Suburbia à Farinha Amparo.

Quero ser rápido, o cenário não pode demorar a ser montado, pronto lá está ele: estou numa rua da nossa suburbia, está um dia cheio de luz que contrasta com o cizento da igreja. Desço a rua e sou acediado verbalmente por um homem que, ao que parece, procurava alguém que quisesse ter uma experiência nova no que toca a relações sexuais. Desço a rua até ao fim e entro na estação para apanhar o comboio.
Agora, dentro do comboio, um homem de moletas pede-me desculpa por me estar a incomodar, pedindo ao mesmo tempo uma moedinha para poder comer qualquer coisa. Chego ao meu destino para um almoço num centro comercial, num daqueles restaurantes de fast food com uma bela companhia e encontros inesperados. Saímos dalí para um sítio onde se possa beber um chá ou um café quente, alí discutimos a revolta dos pastéis de nata e as piadas recorrentes da Farinha Amparo (pobre farinha que com tão pouca dignidade é referenciada nos nossos dias), damos o nosso show, e a Farinha Amparo sempre a bombar na conversa. Bem dita Farinha Amparo que tantas conversas desbloqueaste, tantas cartas de condução e outros brindes tu nos ofereceste. Amassado seja o vosso nome, seja feita a vossa vontade assim no fogão como no forno a lenha. Atchim.

O Impertinente (4): abundância

Acontecia-lhe, frequentemente, não ter palavras para descrever sentimentos.

Hoje
, faltando-lhe sentimentos, abundam as palavras.

Stigma Episode III - The Empire Strikes Back

Dear Miss Lonelyhearts

I’m sorry I didn’t write you right after my surgery; as a matter of fact, five weeks have passed since I am a regular human being, and I must say I’ve been enjoying every bit.
The surgery went swell; I picked a nose-model, a Audrey Hepburn Style one, so they could copy it right into my face.
Dear Miss Lonelyhearts, you woudn’t believe the miracle those doctors performed on my face. When I woke up and looked at the mirror I cried like a baby and then fell in love with myself (so the problem I shall be writing you about is that I’m afraid I’ve become a lesbian).
I left the hospital and went straight to a bar, and I tell you this: no one could take their eyes off me. I feel now most proud and most beautiful, everything is like it ought to be and the world is beautiful.
I trully suggest that you stop recomending self-indulgence on people like I used to be, and start sending them straight to Oprah, or to the plastic surgery wing at their local hospital, if they can afford it; instead of making them waste their lifes trying to convince themselves looks don’t matter at all.
Beauty is much more effective on self-esteem.

Sincerely yours,
Desperate no more.

Stigma Episode II - A New Hope

Dear Miss Lonelyhearts:

I’ve just returned from the turning point of my life.
A few weeks ago I rose from my cryings and moanings and I decided to do something about it, so I wrote to the nearest thing to God we humans have: Oprah.
Today I’ve been to the show, which was broadcasted all over the world, and after all that melodramatic teardroping I was offered a plastic surgery by a soft-hearted doctor who was probably watching the show from his little Villa in the countryside.
The surgery is to take place in a few days time, for the doctor thinks the world’s no place for an ugly thing like I am now. I’m most excited, and shall be writing you once it’s all been done.

Sincerely yours,
Desperate, still, but not for long.

domingo, dezembro 25, 2005

Das sínteses originais (2): estigma

"Dear Miss Lonelyhearts,

I am sixteen years old now and I dont know what to do and would appreciate it if you could tell me what to do. When I was a little girl it was not so bad because I got used to the kids on the block makeing fun of me, but now I would like to have boy friends like the other girls and go out on Saturday nites, but no boy will take me because I was born without a nose - although I am a good dancer and have a nice shape and my father buys me pretty clothes.
I sit and look at myself all day and cry. I have a big hole in the middle of my face that scares people even myself so I cant blame the boys for not wanting to take me out. My mother loves me, but she crys terrible when she looks at me.
What did I do to deserve such a terrible bad fate? Even if I did some bad things I didn't do any before I was a year old and I was born this way. I asked Papa and he says he doesn't know, but that maybe I did something in the other world before I was born or that maybe I was being punished for his sins. I dont believe that because he is a very nice man. Ought I commit suicide?

Sincerely yours,

Desperate"


Miss Lonelyhearts
(1962) de Nathanael West

citação encontrada em Stigma: Notes on the Management of Spoiled Identity de Erving Goffman

terça-feira, dezembro 20, 2005

Para quem gosta de Jazz e Poesia.


Compilação de poemas com o ritmo sincopado do jazz: do Almada ao Vinicius de Morais.
"Ah! Se nos tempos da Bíblia houvesse jazz!"
E. M. de Melo e Castro.

domingo, dezembro 18, 2005

Ópio.

Estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café sujo. Ele observa tudo o que se passa à sua volta, ao seu lado está um velho de barbas que esmaga um cigarro, já apagado, contra o tampo da mesa mesmo ao lado do cinzeiro cheio de outras tantas beatas, é um velho sem importância que espera que lhe caia o último dente que lhe resta nas gengivas. Na mesa em frente do Homem do Chapéu de Côco estava uma prostituta pouco elegante a fumar um cigarro pela sua boquilha de estimação. No lado oposto ao do velho estava um casal aos beijos em cima da mesa. No piano, o pianista tinha uma falta de ritmo angustiante e o piano tinha uma tecla que não tocava. O quadro estava pintado, a cena convidava a uma loucura, o suicídio quem sabe.
O Homem do Chapéu de Côco pega então no pó que lhe tinham vendido no beco antes de chegar ao café e expira-o da forma que lhe tinham aconselhado. Os seus olhos começaram a arder e antes que eles fechassem ele teve a visão mais romântica de toda a sua vida, passou uma vida inteira para ter aquela visão e foi mesmo nesse momento entre o ardor e o fechar dos olhos que ele se conseguiu declarar, mesmo antes de ser nada. Agora, sem sequer ver a luz ao fundo do túnel, ele não se sentia, não havia nada para recordar, nem aquele café que foi a sua última morada. Afinal, estava mais que visto que o Homem do Chapéu de Côco ia passar a noite inteira naquele café imundo até que alguém, distraído, lhe pedisse bruscamente para se levantar.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

domingo, dezembro 11, 2005

"Lost in Translation" (parte 2): o regresso a casa


Broken Flowers de Jim Jarmusch

sexta-feira, dezembro 09, 2005

Pequeno improviso sobre o estilo; (ou, Eu, armada em blogger com aptidões socio-antropológicas)

Na sequência de um tópico de um fórum por que passei recentemente, eis a minha resposta à questão colocada, que é a respeitante à importância que se deve ou não dar ao «estilo»:
O estilo é uma construção estética que pressupõe sempre uma bilateralidade. Quem compõe um estilo fá-lo sempre em serviço da dimensão exterior, pública da existência.
Age-se desta ou daquela forma, dá-se preferência a um determinado tom de voz e a certas expressões faciais e corporais tendo em mente uma imagem de 'nós-vistos-de-fora' que queremos ter.
Dessa forma, não acho de todo que a preocupação com o estilo seja uma frivolidade linear e que se esgote na categoria da 'máscara social', antes é uma questão muito mais complexa: diz muito de uma pessoa a imagem que ela escolhe para si.
Por outro lado, como tudo o que implica bilateralidade, a preocupação com o estilo pode tornar-se numa dependência do estilo. E uma prisão permanente ao 'vermo-nos contantemente de fora' resulta sempre num isolamento, diria até de um 'emparedamento', da interioridade, que já não acha lugar de expressão numa aparência que se tornou demasiado artifical e artificiosa.
Como sempre, o segredo está no equilíbio.

domingo, dezembro 04, 2005

O mundo por umas mãos.


Ele saiu à rua para procurar umas mãos. Passava pouco da hora do jantar e ele só queria encontrar as mãos que tinha perdido para poder pintar o seu quadro. Afinal, ele era pintor e dava o mundo por umas mãos.