domingo, outubro 30, 2005

Tu és a mulher da minha vida, ela a mulher dos meus sonhos.


"O que eu preciso é de uma musa.
Mas essas já não existem.
Ouvi dizer que estavam em vias de extinção."
[Tomás]

Da série "Conhece-te a ti mesmo" (inspirado numa ideia original de João Pedro George)

Para Erving Goffman existem dois tipos de actores: aqueles que acreditam no seu desempenho ("sinceros") e aqueles que não acreditam na própria representação ("cínicos").

E você?
Já se (a)creditou?

Sociólogos

"Uma sensibilidade artística demasiado grande é um fenómeno doentio que não se pode generalizar sem perigo para a sociedade."
"A actividade estética só é sã se for moderada."
(Émile Durkheim)

Dos debates intermináveis (2): expressão e acção

"O aluno atento que quer estar atento, com os olhos cravados no professor, com os ouvidos bem alerta, cansa-se tanto a desempenhar o papel de aluno atento que acaba por não ouvir coisa nenhuma." (Jean-Paul Satre)

quarta-feira, outubro 26, 2005

O homúnculo.

O puto andava naquela rua como um cão.
Era nojento como se via tão bem que aquele beco mesquinho atrás da estação era o único sítio onde ele era capaz de ser rei; e como devia saber quantos passos exactamente o levavam de um passeio ao outro, de uma ponta à outra, caminhava sempre com passos elásticos de grande estrela ensaiada.
Andava naquela rua como um cão, o puto; tinha olhos de cão. E sorriso de escárnio, mas sem inteligência suficiente para escarnecer de todo o que quer que fosse.
Era um animal. Faltavam-lhe dois dentes, ou então só não se viam por estarem pretos de estragados, mas abria a boca toda no esgar mais ordinário que podia quando passava uma mulher, não porque a desejasse particularmente mas porque se sentia com muito estilo assim. E quando era um homem que passava ainda era pior: fazia cara de mau e vagueava como uma sombra, os punhos cerrados dentro dos bolsos das calças, e os olhos cheios da dureza que há nos dos cães que se aproximam por trás para cheirar em silêncio e podem perseguir, furtivos e imperceptíveis, durante imenso tempo antes que a insignificância deixe de lhes calar a presença.
Um animal, sem tirar nem pôr.
As pessoas não tinham medo do puto por ele ser mau, tinham medo por ele ser estúpido.
Aqueles que nunca o tinham visto naturalmente achavam uma crueldade execrável da parte de quem semelhantes atrocidades dissesse do que, afinal de contas, não deixava de ser uma pessoa; a quem com certeza só faltavam oportunidades e atenção e paciência e afecto, mas um ser humano.
Depois passava-se por ele e toda a gente sabia que nunca ninguém ia amar o puto; e ficava-se bastante satisfeito com isso, enquanto tudo, absolutamente tudo quanto se podia querer era passar-lhe uma rasteira e vê-lo no chão.

segunda-feira, outubro 24, 2005

O Impertinente (2)

Queria sentir-se suficientemente fora do mundo para poder contemplá-lo à distância, mas sempre suficientemente preso a ele para saber quando voltar.

domingo, outubro 23, 2005

Memórias poéticas (4)


The Kiss, Edvard Munch

sexta-feira, outubro 21, 2005

Democracia das Emoções

"To my wife: Sandy, Alexandra, Alex,
A. R. or whatever you are calling
yourself these days"

Jonathan H. Turner in The Structure of Sociological Theory

segunda-feira, outubro 17, 2005

Fotografias à chuva.

Começou a chover no palco da revolução, todos começamos a correr para nos abrigarmos, havia um pequeno quiosque que nos serviu de abrigo, mais à frente uma mulher vestida de vermelho continuava sentada na esplanada a ler um livro e o copo de leite vazio à sua frente. Os velhotes que estavam a jogar à bisca lambida também se foram abrigar no café mais próximo. Foi tudo tão cinematográfico, tão teatral, tão urgente. Numa manhã de Segunda-Feira, uma geração inteira ficou a lembrar a revolução encostada a um quiosque, enquanto os homens e as mulheres corriam, molhados, à chuva. Tudo ao mesmo tempo, no mesmo sítio, sem qualquer hora marcada.

domingo, outubro 16, 2005

Sintoma (3): o lugar da espera

O lugar da espera nas narrativas amorosas é hoje compulsivamente desocupado.
Os amantes fogem das cadeiras, caminhando em círculos individuais.
Por vezes, param e olham uns para os outros.
Frequentemente, aceleram o ritmo e esticam as órbitas para pontos mais distantes.
Cada um quer chegar mais longe que o outro.
E é por isso que agora se conhecem mais estrelas do que antigamente.
Houve um tempo em que todos queriam o lugar da espera.
Hoje, sobrando cadeiras, sobram histórias para contar.

sexta-feira, outubro 14, 2005

Auto-retrato (3)

Ele tinha um problema com a rotina: não achava que a rotina fosse, per si, um problema pertinente.

Fragmentus Suburbia (5): sustentáculo

Quem perde o ruído de fundo, perde toda a sustentabilidade emocional.
Ironicamente, a poluição sonora gera um pano de fundo indispensável para a continuação das actividade rotineiras.
A sua ausência, ainda que temporária, não deixa de ser um duplo obstáculo: à mobilidade dos transeuntes e às suas possibilidades de mobilização identitária.
Escusado será dizer que, após uma breve pausa, tudo volta à normalidade do isolamento da experiência.
Dentro de carruagens, como é óbvio.

terça-feira, outubro 11, 2005

Sin City.


"Walk down the right back alley in Sin City and you can find anything."

segunda-feira, outubro 10, 2005

"For how can a man deal with his pain without a plan!"


Fossanova, Belle Chase Hotel

domingo, outubro 09, 2005

"Só uma pessoa pode vaguear. Duas juntas têm sempre um destino."


Vertigo de Alfred Hitchcock

sábado, outubro 08, 2005

Fragmentus Suburbia (4): adiamento

Não é que gostasse particularmente de ver passar comboios.
Talvez tivesse interiorizado, com excessivo voluntarismo, os rigores da espera.
Por isso, encontrava-o sempre à espera do próximo.

À espera daquele que não virá.

quarta-feira, outubro 05, 2005

Na direcção certa


Era já fim do dia quando apanhei o comboio em Lisboa com direcção a Sintra, vinha acompanhado por uma amiga que saiu a meio da viagem. Tinha acabado as aulas e apetecia-me passear por Sintra, farto da confusão e da gritaria muda que ecoava na minha cabeça. Quando cheguei a Sintra encontrei um conhecido com uma viola na mão, não se lembrava do meu nome, provavelmente tinha tomado a sua última dose pouco tempo antes de me encontrar. Disse-me que ia ensaiar uma guitarradas para casa de um amigo em Lisboa. O seu olhar era disperso, notei que ele tentava a todo o custo não deixar passar a imagem de que estava pedrado. Disse-me que eu ia "numa boa direcção e que o crepúsculo estava muito bonito". Despedimo-nos com um valente aperto de mão. Ele podia estar todo janado, as drogas podiam ter-lhe subido à cabeça, mas a noção de beleza e a sensibilidade estavam todas lá, não faltava nada nas palavras dele, ou não fosse ele um artista, um músico muito talentoso com queda para o teatro. Ele tinha razão, o crepúsculo estava mesmo bonito.
Quanto a mim, fui em direcção ao crepúsculo e fiquei-me pela tilia a pensar em tudo e em nada, velha tilia de principes e pobres, ou até mesmo dos meninos que querem ser principezinhos. Eu era daqueles que queriam ser principezinhos. Fiquei ali até a noite chegar com o cheiro a comida dos pequenos restaurantes da vila.

terça-feira, outubro 04, 2005

Da Categoria: “amanhã é feriado!”

Querer saber tudo o que se passa, com o maior rigor e alcance possíveis.
Querer saber o estado do tempo, do trânsito, e da economia.
Não ter como saber.

Querer esquecer tudo o que passou, com a maior eficácia e celeridade possíveis.
Querer esquecer o aquecimento global, a sexualidade metalizada, e a arbitrariedade dos mercados.
Não ter como esquecer.

Querer adivinhar tudo o que está por vir, com o menor compromisso e responsabilidade possíveis.
Querer adivinhar o futuro da natureza, o porvir da mobilidade, e as possibilidades da competitividade nacional.
Não ter como adivinhar.

Sabendo que as conservas têm data de validade, não esquecer de verificar as mesmas, sob pena de ter que adivinhar as suas prováveis implicações intestinais.

Da Categoria: “máximas pseudo-filosóficas”

“Você não está num congestionamento; você é o congestionamento.”

domingo, outubro 02, 2005

Filmology III - on Rainer Fassbinder's The Bitter Tears of Petra von Kant (1972)

Sidonie: It's Karins fault.
Valerie von Kant: Karin? What's it to do with Karin?
Sidonie: Everyone knows Petra's mad about her.
Petra von Kant: Mad? I'm not mad, Sidonie. I love her! Love her as I've never loved anything in my life... that girl's little finger is worth more than the lot of you.
Valerie von Kant
: My daughter loves a girl. How strange. A girl! My daughter...

sábado, outubro 01, 2005

Memórias poéticas (3)


Danae de Gustav Klimt

Auto-retrato (2)

Gostaria
De vir a ser um grande poeta
E que as pessoas
Me pusessem
Muitos louros na cabeça
Mas aí está
Não tenho
Gosto suficiente pelos livros
E penso demais em viver
E penso demais nas pessoas
Para estar sempre contente
De só escrever vento

Boris Vian