quarta-feira, agosto 31, 2005

Memórias poéticas

"Aceitas um chá ou preferes antes ir para o telhado?"

Previsão de Tempo para Utopia e Arredores (revisited)

É o Amor nos tempos de cólera.
O sofrimento no auge da ambiguidade.
A angústia persistente num mundo não muito benevolente.

E o silêncio mantém-se, inequívoco.

Por isso, pergunto: quanto nos custará o tempo de uma previsão?

terça-feira, agosto 30, 2005

Ao luar.

No fim daquela noite, passam os sonhadores pela estrada à beira mar, num carro comprado em segunda mão. A estrada parece infinita, a lua reflecte-se na agua do mar assim como os faróis do carro iluminam a estrada. De regresso a casa, mas sem pressa, viajamos pela estrada sem ninguém a quem pedir direcções. Entre o mar e o luar naquela noite quente de Verão.

sexta-feira, agosto 26, 2005

No sótão dos nossos sonhos

Era de noite, eu estava sentado no sofá da sala a ler um livro, não me lembro bem qual, só sei que via os candeeiros lá fora acesos, ouvia um ou outro carro, eram altas horas da noite e estava a saber-me bem ficar ali a pensar nas minhas coisas. Comecei por querer que as coisas mudassem ali, impus-me a mim mesmo que só ficaria a ali se aquele ambiente mudasse. Esperei umas quantas horas, estava mesmo decidido a não sair dali até aparecer algo de extraordinário. Passaram algumas horas, até que começou por aparecer o cavalo de madeira que me lembrava ter visto no sótão do meu avô e a espada de madeira que ele também me fizera para brincar na casa da árvore. As coisas começavam a melhorar, apetecia-me ficar ali a noite inteira, as coisas surgiam de todos os lados, havia brinquedos por tudo quanto era sítio, mas brinquedos a sério, daqueles de madeira que víamos nos livros para crianças, só faltava aparecer uma fada vinda das estrelas para pedir um desejo. O cavalinho de madeira baloiçava com o soldadinho de chumbo montado, era tão fantástico ver aquilo, aqueles brinquedos todos que o meu avô sabia tão bem esculpir, tanto engenho, tanta dedicação, tanto amor que se viam naqueles brinquedos. Havia também o castelo, e claro, o barco pirata, tantas batalhas que travamos juntos, tantas brigas que tivemos por um brinquedo, mas fazia parte, era vida, éramos felizes porque éramos crianças, não sabíamos nada, éramos anjos. A mãe pega no filho, chegou a hora de ir deitar, a criança queria ficar mais um bocadinho, quem nesta idade nunca lhe apeteceu ficar acordado e a brincar até tarde como os crescidos. A criança vai dormir, está na hora. Para mim está na hora de levantar, chega de sonhos deixo então de ser o anjo que fora nos meus sonhos para me tornar na pessoa que regressava ao mundo real, sem fadas e sem o soldadinho de chumbo montado no cavalo. Que ingenuidade querermos ser crescidos.

Da segurança.

Gosto de pensar que a cadeira da varanda em frente vive por mim tudo aquilo que, daqui, me vejo a ver do outro lado. Mais: porque está sempre lá e com a atenção de não ver nada, não lhe escapa o que seguramente se me escoaria na preguiça dos sentidos.
Agrada-me tanto ser suficiente que lá vá de vez quando, para confirmar uma vez mais que é de facto um fenómeno notável que os dias se repitam e também estejam sempre lá, que me parece muito razoável respirar fundo e nem sequer sentir obrigação nenhuma (especialmente das que se prendem com a irrepetibilidade do momento) de me levantar do sofá para ir ver a cor fabulosa que o ar tem a esta hora particular.

Do interesse público (inspirado numa ideia original de António Pocinho)

O Conselho legislou, por maioria absoluta, um conjunto de medidas de indiscutível interesse público:

  1. Promover pessoas a recursos humanos;
  2. Promover natureza a recursos naturais;
  3. Promover amor a recursos poéticos.
O Conselho lembra que, de momento, é o máximo que pode fazer pelo interesse público. Assim que possível serão efectuadas novas promoções, desde que estas respeitem o bem-estar da comunidade.
Por último, o Conselho deixa um aviso importante: uma vez concluída a promoção do planeta Terra a recurso planetário inicial, todo o sistema deve estar pronto a funcionar. Não serão admitidos quaisquer golpes de cariz revolucionário em nome do interesse público. Aliás, para essa eventualidade, o Conselho preparou um plano de emergência: promover o interesse público a recurso do Conselho.

O grosso dicionário de páginas em branco

O homem lançava ao ar folhetos que pregavam a revolução. No meio daquela pequena praça abandonada nos recônditos da cidade o homem empuleira-se num banco, pregando a revolução através de um megafone:
-Revolução! Revolução! Façamos uma revolução!
Na praça não passa ninguém, na praça só se ouve a voz do revolucionário e os pombos a picarem a folhas que esvoassam.
Uma mulher passa pela praça juntamente com a sua filha, a menina aproxima-se do homem, o homem vê-a e desce do banco, fitando a menina que trajava um casaco vermelho e comprido:
-Sabes o que é uma revolução?
A pequena abana a cabeça, indicando que não sabia o que era.
-Então, decora essa palavra, fica com isto. Esta folha faz parte de um dicionário e todas aquelas que tu vês aí caidas no chão também fazem parte dele. Todas elas vão ser recolhidas pelos limpadores de rua, mas essa fica só para ti.
De súbito, algumas lágrimas chegam aos olhos do revolucionário.
-Sempre que olhares para essa folha, lembra-te do que eu aqui te contei.
O homem virou costas, pegou no banco e foi-se embora já sem as folhas do dicionário. A menina ficou estupefacta a observar a folha em branco enquanto se dirigia à mãe. Em breve, também elas sairiam daquela praça escura e mal lavada.
A praça fica vazia tal como o revolucionário a havia encontrado, o sítio ideal para pregar uma revolução na qual ninguém acredita. Uma praça à espera de ser limpa pelos homens que limpam as ruas.
A noite chega, na praça apenas permanece a merda de pombo e as folhas soltas de um grosso dicionário de páginas em branco, pregando a revolução.

quinta-feira, agosto 25, 2005

Auto-retrato

Ele acreditava-se pleno de outros. Porém, quando lhe pediram um auto-retrato, foi incapaz de se colocar naquele quadro.

Dos debates intermináveis: objectivismo vs subjectivismo

"Ela será bela porque eu a amo ou sou eu que a amo por ela ser bela?"

Codependência

E foi então que ele se descoseu: não havia nada naquela garrafa que justificasse tamanha barbárie.

quarta-feira, agosto 24, 2005

O baile de gala metafísico


2046 de Wong Kar-wai

Peixinho Vanda

Uma luz acesa, um cigarro apagado, uma perna de frango no chão, uma toalha molhada, um preservativo usado, uma moldura sem nada, um palco vazio, um semaforo fechado, uma luz que se acende e um peixe cor de laranja chamado Wanda.Cintila, cintila pequeno peixinho de crista azul que cantas ai dentro desse aquario de Coca-Cola, e que comes tu? Uma chamuça picante talvez? Não, comes aquelas migalhas embaladas proprias para peixes da tua natureza.Borbulha, borbulha pequeno peixinho daí de dentro desse aquario de cor de Coca-Cola como quem ouve O-zone ao máximo gás, e aí te vez nessa loucura desenfreada numa tentativa de suicidio que no teu caso é de todo conveniente. É nessas alturas que me elouqueces, partes então numa corrida desenfreada, corres em direcção à chamuça picante e... pim pam pum... comes a chamuça como se o amanhã nunca mais viesse, e realmente para ti meu peixinho de agua gaseficada com aroma a Coca-Cola que não é light não é nada, é só uma simples lata de Coca-Cola que foi para ai despejada. A chamuça meu pequeno peixinho não era para ti, tu comeste-a e agora já não es peixe, não és nada, agora moras dentro de mim.Olho então agora para o teu lindo aquário vazio e lavadinho, só com a tua cazinha ainda com aquela cor castanha que só a Coca-Cola sabe dar, e fico emocionado e as vezes penso em por lá dentro uma lula, mas não! Para sempre ficará guardado o aquario onde tantas vezes aquele peixinho cor de laranja com crista azul chamado Wanda cintilara e borbulhara naquela gaseficada Coca-Cola. Outras vezes olho e vejo que afinal ainda estás lá e não és um peixinho cor de laranja, mas sim uma lula que borbulha na 7up.