quarta-feira, outubro 26, 2005

O homúnculo.

O puto andava naquela rua como um cão.
Era nojento como se via tão bem que aquele beco mesquinho atrás da estação era o único sítio onde ele era capaz de ser rei; e como devia saber quantos passos exactamente o levavam de um passeio ao outro, de uma ponta à outra, caminhava sempre com passos elásticos de grande estrela ensaiada.
Andava naquela rua como um cão, o puto; tinha olhos de cão. E sorriso de escárnio, mas sem inteligência suficiente para escarnecer de todo o que quer que fosse.
Era um animal. Faltavam-lhe dois dentes, ou então só não se viam por estarem pretos de estragados, mas abria a boca toda no esgar mais ordinário que podia quando passava uma mulher, não porque a desejasse particularmente mas porque se sentia com muito estilo assim. E quando era um homem que passava ainda era pior: fazia cara de mau e vagueava como uma sombra, os punhos cerrados dentro dos bolsos das calças, e os olhos cheios da dureza que há nos dos cães que se aproximam por trás para cheirar em silêncio e podem perseguir, furtivos e imperceptíveis, durante imenso tempo antes que a insignificância deixe de lhes calar a presença.
Um animal, sem tirar nem pôr.
As pessoas não tinham medo do puto por ele ser mau, tinham medo por ele ser estúpido.
Aqueles que nunca o tinham visto naturalmente achavam uma crueldade execrável da parte de quem semelhantes atrocidades dissesse do que, afinal de contas, não deixava de ser uma pessoa; a quem com certeza só faltavam oportunidades e atenção e paciência e afecto, mas um ser humano.
Depois passava-se por ele e toda a gente sabia que nunca ninguém ia amar o puto; e ficava-se bastante satisfeito com isso, enquanto tudo, absolutamente tudo quanto se podia querer era passar-lhe uma rasteira e vê-lo no chão.

2 comentários:

Joanmirovic disse...

E o puto nunca mais será o mesmo.

Welcome back.

Daniel Figueiredo disse...

"eu sempre disse que faltava mão firme áquele puto..."

Saúdo o teu regresso*